26 de agosto de 2009

Só você me diz

Sou inexato e vago
e o que pego bom estrago
Sou nefasto e cago
no pouco bom que trago

Sou ineficaz e torto
e se pego vivo entrego morto
Sou inexperiente e tolo
madeira podre que parece ouro

Sou insano e louco
e se tenho muito acho que é pouco
Sou nojento e mocho
firme feito laço frouxo

Sou impuro ao mesmo tempo casto
e o que ganho hoje eu gasto
Sou excremento que largaram ao pasto
Bandeira que voou do mastro

E é só você que diz
que sou insuperável e máximo
Que sou seu distante próximo
que não sou bastante ácido
que tenho um olhar tão plácido
capaz até de lhe fazer feliz

2009

Amigo urso

Deixa-me ser teu amigo
o amigo urso polar
Receba os meus braços
e esse abraço da tamanduá

Quero ser teu melhor presente
em embalagem grega e de luxo
Ser tua capa-de-filé
encapuzada de bucho

Vem prá minha cidade sorriso
que sorri cariado
Sou o espantalho do campo
que te espanta espantado

Sou a luz que surge
ao fim do túnel escuro
e venho à frente da locomotiva
que descarrila o futuro

1985

Conversa ao pé da cama

Essa relação vem de berço
De muitos anos atrás
Vovó dava nosso endereço...
e assim se comprava o gás

Hoje, envolta em lençóis finos
nesse quarto de hotel
E todos esses granfinos
me abrindo e abrindo as portas do céu

Foram tantos falsos gemidos
gerando contas-corrente
Tantos tantos maridos
tanto amor, tanta dor, que horror, tanta gente

Agora deixa eu caminhar
com meus próprios pés
E só então comandar
de meu próprio convés

* * *

Teus pés são bonitos
De madeira de lei
Porém os meus são aflitos
e me mostram que errei

As ripas de teu estrado
parecem que moldam um catafalco
Onde um corpo estirado
jura, atura e mistura sujeira com talco

Teu balançar me relaxa
mas o meu vaivém me indispôs
Na hora do gozo me achas
e usa, abusa, acusa e esquece logo depois

Vou unir minhas coxas aos seus colchões
pela derradeira última vez
Quero sentir prazer nas paixões
e amar a um homem por vez sem ter que chamar de freguês

1985

25 de agosto de 2009

José

Sou José do Nascimento
José desde o nascimento
Fui José todo o momento
Sou José por todo tempo

Sou José desde pequeno
José que vive indo
Fui José sempre terreno
Agora sou José que está subindo

Sou José desde garoto
e nunca soube o que dizer
Nasci José, cresci no esgoto
Sou José não sei do que

Sou José magro e franzino
José surdo e calado
Fui José desde menino
Sou José e estou cansado

Descendo o Nilo, sou José do Egito
Aos pés da cruz de madeira, carpinteiro
Sou José de Arimatéia
Como Jesus, a vida inteira, inteiro
Sou José da Galiléia

Zé disso, José daquilo, sou José do grito
Zé do trem, Zé nordestino, Zé de Natal, Zé de Belém
Zé com fome, Zé com medo, Zé aflito
Zé rico e sem vintém, Zé da Velha, Zé Neném
Zé da vida sem ninguém

Sou José, mas não pedi
e como José sempre vivi
De outro José eu sei que vim
e como José quero partir
Fui José a vida inteira
Sou José, sou Eduardo, Garnier e sou Teixeira

2009

Bêbadas vigílias

Em tuas bêbadas vigílias
você é loira e o olho não pisca
Mas me sinto sua caça
e me exponho feito isca

Em tuas bêbadas vigílias
não és mulher, pois és pura
E se embriaga e também se estilhaça
És a bêbada do curso que inveja os bem vividos

Em minhas bêbadas vigílias
me sinto um teu vigia
e te persigo com o olhar
E em nossas bêbadas vigílias
Trocamos poesia
bebemos de bar em bar

Sim, sou o bêbado da corte
e és a bêbada que furto

* * *

Em tuas bêbadas vigílias
você é a loira que o olho não pisca
Não me dá uma pista
mas olhares doces arrisca

Em tuas bêbadas vigílias
a loira suada é quem te possui
E te sufoca, e te corrói, e te polui
És a bêbada do corte que dilacera os meus sentidos

Em minhas bêbadas vigílias
sonho com os meus dedos
se degelando nos seus ossos
E em nossas bêbadas vigílias
trocamos sons, quase segredos
encharcados de remorsos

Enfim, sou o bêbado-da-corte
e és a bêbada que curto

1985

Verso infinito

Pelas ilhotas do mar
Pelos confins dessa terra
Pelas mesas de um bar
e pela boca do que berra
solto meus gritos
No peito dos ricos
Na cabeça dos tolos
Nos altos, nos picos
em novelos e rolos
enrolo conflitos

Pelos bancos das praças
Pelos botecos da avenida
Pelo passo manco das massas
e os bonecos da vida
é que escrevo aflito
Pelos amigos de sempre
e os inimigos do dia-a-dia
Pela raça da gente
Por não ter pão e ter poesia
meu universo é infinito

1984

23 de agosto de 2009

Bom demais

Ontem tudo
Hoje exagero
Amanhã nem tanto
Despedida, abraço em pranto

Ontem enorme
Hoje grande
Amanhã só cacos
Mentiras, versão dos fatos

Inda que fosse verdade
eu negaria
E se sentisse saudades
não voltaria

Inda que fosse veneno
eu beberia
Mas se mostrasses a língua
não beijaria

Só mais uma frase
Um sorriso e nada mais
Amar você, confesso
era bom demais

2008

Borboleta noturna

Vestiu meu vestido
Passou meu batido batom
Fez um passo esquisito
Mudou compasso e tom

Pintou a boca em coração
Usou salto alto e cetim
Esqueceu da combinação
e esqueceu-se de mim

Minha menina se foi
levar a vida que quis
Seu homem vai ser boi
e ela vaca feliz

Lapa, Praça XV, Mauá...
Caberá em qualquer cabaré
E em qualquer mafuá
minha menina será mulher

Com olheiras roxas
e exalando horrível odor
Com marcas nas coxas
na Comarca do doutor

Fará amor sem amor
Sentirá prazer sem prazer
Sem asco ou pudor
mudará de “A” para “Z”

Até que carente gerente
ou bem sucedido doutor de escritório
financie vida decente
e casamento em cartório

A noiva da cidade
agora é dondoca
Na fina flor da sociedade
ela hoje se entoca

De vinhos bons se entope
De lindos tons se veste
Pros velhos amigos um choque
pois só pro marido se despe

Não come ovo, nem bucho
Põe no bucho o gostoso do bicho
Da Boca do Lixo
pro bafo de luxo

Das manchas de “O Dia”
prás manchetes do Ibrahim
Quem prosa posa à fotografia
já foi verso e prosa em botequim

Já pode trazer a família do Norte
e já não quer maldizer o destino e a sorte
O passado do corpo é página virada
desde a chegada ao topo da escada

As colunas estão cheias
de “divinas cocadinhas nota dez”
que já foram deusas feias
e que se vendiam por cem mil réis

1984

6 de fevereiro de 2009

Somorra

Enquanto homo ereto
é certo: como, enxerto
E, culpado, aborto o feto
e espanto como inseto
o neto que fizeste olhando o teto
Que após sugado é morto e infecto

Engano, engodo, lodo...
Não me vejo de outro modo
E austero e tímido
esbanjo e escarro outro gemido
Insano, encanto o lobo
E não me vejo como louco
Rápido e leve
espanto e escarro em quem me deve

Luto em desacordo
e acordo preguiçoso e gordo
Em desvario até lhe mordo
Chuto prá escanteio
E, receio, presunçoso e feio
que em cio lhe deflore o meio

Em Sodoma espero
que ninguém me coma
só que me libertem da redoma
e me acordem o corpo desse coma
Em Gomorra, cuidado:
não corra, não mate, só morra
Não me livre do pecado
só não deixe que me afogue em porra

Gomorra, pecado, masmorra...
Tortura de novo, que porra
Não viva, não morra
Não pare, não corra

Sodoma, pecado, redoma...
Frescura de novo, que zona
Não trepe, não toma
Não fode, não coma

2009

Fiz um samba

Fiz um samba
Fiz mais um
Que não falava de dor
mas falava de amor algum

Fiz um samba sincopado
Com o verso rebuscado
Coisa assim bem comum
Quem sabe imitando o Paulinho
Ou talvez invejando o Buarque
Fiz um sambinha de araque
que evapora feito um pum

* * *

Eu já tentei ser um bamba
mas confesso que desisti
Pois ser bamba não é fácil
é mais difícil que parir

Fiz um samba meio tolo
Que se enrola e faz um rolo
Coisa bem incomum
Quem sabe imitando a vida
Talvez invejando os felizes
Fiz um samba em mil matizes
prá ser sucesso em dois mil e um

1986

Farpas

Eu não quero mamar nas tetas
da solidão
Por isso vou à guerra
de arco e farpa na mão

Também não quero um amor
gerado nas coxas da ingratidão
Por isso vou deflorar o sexo dos anjos
co’a minha mão

Eu não quero me afogar num mar
só por ele ser feito de prazer
Por isso vou nadar próximo à praia
agarrado à saia
de meu bem-querer

Também não quero que me chamem covarde
só por ter pensado em correr
Por isso vou correr com as pernas bambas
vestindo trocado as tangas
trocadas na hora “h” do prazer

Eu não quero esmolas do amor
Viu, quero não
Quero uma conta-corrente nos bancos de areia
de teu coração

Eu não quero sacolas da vida
para encher de saudades não
Que eu já de saco cheio
com tamanha recordação

1985

Teu colo

Teu colo tem jeito de leito
Teu colo tem cheiro de berço
Nele, o abrigo perfeito
Teu colo... será que mereço?

Teu colo tem balanço de mar
Em teu colo um menino eu pareço
Nele, todo o encanto do amar
Teu colo... será que mereço?

Teu colo tem gosto de leite
Teu colo vou virar pelo avesso
Nele, o mais lindo enfeite
Teu colo... será que mereço?

Teu colo tem aconchego de rede
Em teu colo sorrindo eu padeço
Nele, quero afogar minha sede
Teu colo... será que mereço?

Teu colo estrada sem retorno
Teu colo é teu melhor endereço
Nele, o mais perfeito contorno
Teu colo... será que tem preço?

1986

Mestre em sala

Todo dia ele chega
prá cumprir sua missão
Esquece o pequeno e a nega
e se dá todo à profissão
Por entre mapas brilhantes
e a crueldade da história
esquadros gigantes
traçam derrota e vitória
Será que o tablado em que pisa
na verdade não é um cenário
em que todo dia reprisa
o cotidiano diário?

Todo semestre ele fala
que ser mestre é um dom
E a sala toda se cala
mudando o trajeto do som
Por entre forças opostas
e formas gramaticais
há muita moça disposta
a se perder com ele no cais
Será que o mestre sabe o que diz
ou é apenas mais um fingidor?
A vida não é feita de giz
e não se passa o apagador

Todo ano ele passa
o que guardou pelos anos
e a classe toda é comparsa
de seus sonhos e planos
Por entre números inteiros
e células vivas
perguntadores brejeiros
recebem respostas esquivas
Será que quando escreve
o mestre então não descreve
o quadro-negro de seu dia-a-dia
por rimas ricas sem poesia?

Todo professor guarda um resto
da segunda época da vida
pois a união do saber é um incesto
que o mundo inteiro engravida
Por entre letras e versos
giram átomos velozes
Unindo caminhos inversos
e tornando uma só nossas vozes
Será que quando reprova
não reprovou a si mesmo?
E se o seu ensinar não se renova
o mestre não fala a esmo?

Será que passou a borracha
em todos os erros da classe
ou será então que ele acha
que dos erros o acerto nasce?
Será que usou o giz colorido
no quadro-negro da História
ou será que o seu telhado de vidro
é de transparência ilusória?
Será que o prazer do ensino
com tempo se torna rotina e obrigatório?
E ele, por fim, transforma o menino
em poeta ou caçador predatório?

1985

2 de fevereiro de 2009

Como quem

Nas lutas com gente sempre tive em mente
o bom combate pela frente
E, como quem sem forças, me vi frustrado
Como quem se obriga, me vi forçado
Como quem sem moças, me vi castrado
Como quem se intriga, me vi falado

Nos embates da vida com o tempo
lutei só todo momento
E, como quem exausto, me vi cansado
Como quem se apaga, me vi sedado
Como quem é claustro, vivi fechado
Como quem se afaga, me senti tocado

Nas guerras urbanas
e com o sangue em chamas
Como quem amansa, me vi domado
Como quem se enruga, me vi passado
Como quem descansa, adormeci sentado
Como quem enxuga, acordei molhado

Nas discussões do amor ganhei, perdi...
Mais chorei do que sorri
E, como quem se trai, me vi beijado
Como quem se engana, tive você lado a lado
Mas como alguém que cai e é pisoteado
só mesmo quem não ama pode andar desarmado

2009

Faz de conta

São coisas do passado
que embrulham o presente
São juras irrestritas,
irreais...

Dilacerando o meu peito
Confundindo os meus passos
Me apertando em abraços
que me roubam a paz

E que me soltam em abismos
Em abismos prá nunca mais

* * *

São coisas que vêm à tona
e que detonam bombas
Humilhas, fustigas,
zombas...

Vê o que sobrou de mim
Vê que pobre molambo
Nesse boteco dançando um tango
no reino do faz de conta

E agora é tarde meu bem
Meu olho em outro desconta

1986

24 de janeiro de 2009

Até o final

Inunda, escorre e vibra
Prenhe, explode em vida
Imunda em porre eterno
Preenche, mas sempre terno

Exausto, acolhe o outro
Preso, implode morto
Enxuto, enfermo e crente
É vazio, mas morre gente

Motivado, recolhe os cacos
Amado, amanhece intacto
Bruto, esmaga as flores
De luto, se retorce em dores

Se o início é triste
seu olhar insiste
o pavor persiste
mas o amor resiste

2007

23 de janeiro de 2009

Cabeças gêmeas

Você quer me desnudar? Eu permito
Ateio-te fogo, incendeio-te sem ser palito
Sou geminiano dos pés à cabeça
Se você pede que’u cresça
eu me enterro na terra
E se você disser apareça
ela mais se enterra
Cabeça dura que somente mente e erra
mas que prezo, pois só me fizeram com essa

Você quer me conhecer? Eu deixo
Eu falo muito sem mexer o queixo
Sou inconstante demais
Se um passo a mais
eu não consigo dar
dar um passo atrás
nem pensar
Pois se não me aventuro no mar
também não morro no cais

Você quer me desbravar? Então vem
Eu esbanjo riquezas sem nem ter um vintém
Sou agora o que não sou depois
Na vida vivida a dois
O difícil é serem um só
Muito, muito tempo pros dois
e o laço não vira nó
Se hoje quero estar só
é pra não chorar no depois

1984

Por amor

Algo no ar
Algo no vento
Algo na lua...
e que em meu pensamento
é uma mulher seminua

Algo no sol
Algo no mar
Algo no céu...
e que em meu jeito de olhar
é arrependimento de réu

Algo nas águas
Algo no rio a correr
Algo nas algas...
Que salga todo meu ser
Que me condena e me salva

Algo nos olhos
Algo nas flores
Algo no ser humano...
e que em todos os meus amores
tem um certo “q” de engano

Algo que queima
Algo que adere
Algo que brilha...
e que em meu peito me fere
e que desconhece partilha

Algo no som dos poetas
Algo no andar da morena
Algo que vira todas as setas...
Que em meu peito envenena
e que só com outro amor se conserta

Algo que abre os corações
Algo que desabrocha em flor
Algo que cria mil ilusões...
E que, por fim, leva a marionete do amor
sem amor, por amor, a se enforcar nos cordões

1978

7 de janeiro de 2009

Quem disse?

Num mundo de amor te envolvi
e no mesmo instante da dor me esqueci
Ver teus olhos brilhando assim
foi prá mim
a recompensa que tanto pedi

Numa redoma de vida a você me prendi
e no exato momento o ex-amor vi partir
Ver teu peito arfando assim
foi prá mim
a esperada alegria de paz prá dormir

Num cenário de cores tão vivas vivi
e então nesse instante, feliz, aprendi
a ouvir o teu corpo chamando por mim
Foi assim
que te vi como a estrela que guia a seguir

Quem que disse que a paz não se pode atingir?
Quem te disse que o amor não está nem aí?
Se eu mesmo ao teu lado uma noite dormi
É, foi sim...
E é pena que o sol já vem vindo e que você tem partir

2008

Rimas

Rimo o guri e canivete
A Nascimento Silva com Elizete
Rimo São Paulo e bóia fria
Geral e pancadaria
Bulhões com correção
Judeu com alemão
Mulata, rimo com português
e pacotão com economês

Rimo o travesti e a Lapa
Lãs Vegas com Sinatra
Rimo o Rio com fio dental
Bateria e carnaval
Delfim com inflação
Russo com afegão
Lourinha, rimo com africano
e cara a cara com mano a mano

Rimo a Marrecas com meretriz
O Beco com Elis
Rimo Bahia com povo na rua
Geral, carnaval e gente nua
Roberto Campos com aflição
Coréia com Japão
Índia, rimo com espanhol
e bola no pé com futebol

Rimo polícia com ladrão
A Mangueira com Jamelão
Rimo um Brasil inteiro, meu irmão
sem terra, sem teto e sem pão
Funaro com ilusão
Americano com mete a mão
Mulheres, rimo à costela de Adão
e o verso assim, feito grão, se alastra no chão

1986

21 de dezembro de 2008

Devorar

Dilacerar carnes
Revirar tripas
Ossos triturar
Devorar

Pedir perdão
Rosto no pó
De joelhos chorar
Devo orar

2007

Gênesis

“No princípio, a terra estava informe e vazia.
E, após ter criado toda a natureza terrestre, então Deus disse: ‘Façamos o homem nossa imagem e semelhança. Que ele reine sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos e sobre toda a terra, e sobre todos os répteis que se arrastam sobre a terra’. Deus contemplou a sua obra e viu que tudo era muito bom.”


E o homem agora é quem cria
E creia, cria, incrédulo, um meio de matar sua cria
Sem crime, sem choro, sem som
Eva, expulsa do Jardim
pulsa num vistoso cetim
e exibe novo batom

Inventa o pecado do colarinho branco
Enxerga Eva só de tamanco
e sente o maior frisson
De Deus não é mais a imagem
Descobre a malandragem
a gafieira e o pistom

Não mais come com o suor do rosto
Mas se vê nele o desgosto
que segreda ao garçom
Inventa Neys Matogrosso
Diferente esse moço
Bandido corazon

Deixa a multidão atônita
quando descobre a bomba atômica
e remete “via aérea par avion
Gutenberg cria a Imprensa
Alguém o imprensa
e a faz marrom

Dança não mais conforme o maestro
Decide tudo num gesto
e valsa fora do tom

1986

Tão mais bonito

Tudo seria assim tão mais bonito
se eu te parasse antes dos trilhos
Bem antes dos quinze anos
Antes dos filhos
Por que você não me encontrou?
Eu tava por aí, pela vida,
colecionando ferida

Tudo seria assim tão mais bonito
se eu te topasse antes do cruzamento
Bem antes da abertura
Antes do casamento
Por que a gente não se cruzou?
Eu tava por aí, pelas esquinas,
colecionando meninas

Tudo seria assim tão mais bonito
se eu te encontrasse vindo em contramão
Bem antes da besteira feita
Antes de tanta desilusão
Por que a gente não se topou?
Eu tava por aí, pelos corredores,
colecionando amores

* * *

Mas tudo pode ser assim também bonito
se eu reverter o tempo, se eu brigar com Deus
Bem antes que desabe o que foi dito
Antes que desabe ou que se apague os olhos meus
Por que a gente ainda não terminou?
Eu acho que vou ficar por aí, pela vizinhança,
colecionando esperança

1986

Bruxas

Vou dar um vôo na gaiola
me arrebentando às grades de ferro
Quebraram minha viola
e estão abafando o meu berro

Vou montar meu cavalo
e percorrer esse chão
Se me permitem, eu falo
ou faço um poema-canção

Vou construir alicerces
com bases firmes no amor
Enquanto muita gente enriquece
censurando a voz do cantor


Vou vencer essa luta
prá dividir esse pão
Sei que Deus tá escuta
mas pede cambio e diz não

Vou lançar a semente
e depois recolher os bons frutos
Prá exorcizar num repente
as bruxas dos brutos

Vou ver o dia raiar
e a liberdade nascer
A quarta estrela apagar
e dos ombros dele descer

Ver nossa bandeira de novo
em seu mastro a voar
E na dianteira do povo
um maestro macho a cantar

1979

20 de dezembro de 2008

Ele

Ele tinha um claro medo do escuro
E uma vez naufragou num porto seguro
E tinha um crédito que pagava com juros
E seu tempo passado conjugou no futuro

Ele tinha a coragem carregada de medo
E a melhor das manchetes guardou em segredo
E tinha um gozo tardio que chegava bem cedo
E um membro viril na cabeça do dedo

Ele era um cego que via bem longe
Era um pecador travestido de monge
Recordista que foi, nunca levou nem um bronze
Ficou na reserva, mas jogava nas onze

Ele tinha diploma de trabalho braçal
Sabia ser delicado como coice animal
Fantasiou a vida inteira sem desfilar no carnaval
Morreu muito cedo, prá se tornar imortal

2008

Feito viciada

“... de novo e sempre, feito viciada, eu vou voltar...” Chico Buarque

Eu sei o momento exato
em que você vai voltar
Sei quando a saudade aperta
Você é feito menstruação:
vem depois da febre, da dor
E em espasmos convulsos
quando eu já me rasgo os pulsos...
_ Ai, amor, oh!
Mas também sei o movimento ingrato
que você vai usar
Sei, pois o sorriso entrega
Você é feito ditadura militar:
joga duro e depois afrouxa
E entre gritinhos de tortura
quando chego aos picos da loucura
Eis você arrumando as trouxas

Eu sei o momento certo
em que você vai voltar
Sei quando o meu vulto te persegue
Você é feito o vaivém do mar:
beija rápido a areia e vai embora
E entre espumas flutuantes
quando eu já procuro outra amante...
_ Vem amor, rebola!
Mas também sei o movimento esperto
que você vai fazer
Sei, pois está tudo dentro
Você é feito viúva-negra, mulher aranha:
suga o macho até a morte
E entre veias e teias e cama
quando levanto de novo a chama...
Eis você voando embora pro Norte

Eu sei o momento preciso
em que você vai voltar
Sei quando o meu corpo te faz falta
Você é feito ave de arribação:
desafia os ventos, as tempestades, a pororoca
E entre plumas e penas
quando já bambeio das pernas...
_ Vai amor, coloca!
E aprendi o movimento próximo
que você vai repetir
A intensidade, a posição, o ângulo
Você é feito o peito largo da máfia:
quem adentra em teus braços não se desprega jamais
E entre luxúria e devassidão
quando já se derrama o amor pelo chão
_ Ai amor..., aí..., quero mais!

1987

Morto de viver

Eu não sei mais o que faço
prá que veja que te amo
O seu amor me prendeu num laço
e por ele hoje clamo

Você é o sol que me aquece
A lua que à noite me ilumina
Seu coração não me merece
Porém seu corpo me alucina

Nos seus cabelos eu me perco
Nos seus olhos eu me encontro
Minhas mãos te fazem cerco
e toco você num só ponto

Toco o ponto do amor
Você contorce, se retorce...
Pela dor, pelo ardor
em despudor de meu amor

Eu te abraço, te enlaço
E, enfim, ocupo o seu espaço
Você me nega, me renega
Mas aí você se entrega

Por você, meu amor
o meu sangue se esquenta
Estou te amando e é grande o calor
Meu coração não se agüenta
Estou te amando... e morro de amor

1978

18 de dezembro de 2008

Misericórdia

Vi num espelho um homem, rugas, marcas no joelho
Ar sombrio, pele curtida, olhos vermelhos
Vi no espelho o rosto de um velho
Ao ver os furos dos cravos às mãos, pedi conselhos
Pôs sobre à mesa um surrado evangelho

Vi num sonho uma mulher e manchas no braço
Andar esguio, pele queimada, olhos de laço
Vi no seu passo o gosto do abraço
Ao mirar os seus olhos notei o inchaço
Era a mãe de Jesus, de quem falo onde passo

2007

Foge

Foge prá longe da luz
e se amoita no beco escuro
Que a vida é o retrato
das trevas
Que a vida é o ópio, o mato
as ervas

Foge prá longe da vida
e se entoca no espaço infinito
Que você é a cobaia
dos home
Que você é o fogo, a paia
e consome

Foge prá longe de ti
e se recolhe à redoma de vidro
Que tudo é insano
e podre
Que tudo é engano, é cano
e te cobre

Foge prá longe de tudo
e se perde na fuga louca
Que tudo mais é o resto
das sobras
Que tudo mais é a toca, o ninho
as cobras

1991

Maldita guria

Silenciosamente seco era o seu olhar
e maliciosamente sexy o seu andar
Secamente silencioso era seu beijo
E assim eram meus finais de semana
Já não são mais
Beijando e sendo linguado
Minguando ao ser sugado
Apanhando e acanhado
Abocanhando com a barba a arranhar

Me unia aos seus lábios
sem a beijar
A tinha nos braços
sem abraçar
Olhava para ela e não a via
Mostrava os dentes à ela
mas não sorria

Bendita agonia, pai
Maldita guria, vai
A danada gemia, ai
Deitava e se abria... faz
Chorava e pedia... mais
Por instantes sentia...paz
A maldita até me queria... bem

Uma triste poesia...vem

1984

Antes que chegue amanhã

Hoje
falei com ela
e tomei sua mão
Olhei fundo no fundo imundo dos olhos dela
Senti bater o seu cá no meu coração

Hoje
afaguei seus cabelos
e beijei sua boca
Em pelo, eriçei os seus pelos
A deixei quase louca

Hoje
ouvi sua voz
queimar de tão quente
Desandei e falei e falei sobre nós
Sonhei prá gente

Hoje
parei de beber
e deixei de fumar
Prá não ficar só e ficar só com você
não vou mais sambar

Hoje
piso firme e correto
Acertei meu passo manco
Agora, sim, estou certo e decerto
meu peito eu não mais tranco

Hoje
o imenso mar é pequeno
O sol parece tão frio
O seu beijo é bálsamo e veneno
e prá ele versos eu crio

Hoje
Sou o mais feliz entre os tolos
Sou o que do sonho não acordou
Então espalho prá todos
que um dia a gente se amou

Hoje
e antes que cesse entre nós o afã
Antes que bata à porta o amanhã
Antes que nosso amor bata as asas em vôo
... em vão... antes, bem antes te amar eu vou

1978

6 de novembro de 2008

Heranças

De meu avô um testamento
De minha mãe só sofrimento
De meu pai toda a ternura
Dum primo gay toda a frescura

De outro avô força e fé
Duma prima o gosto por mulher
De meu tio a paixão pelo Flamengo
E de toda a vida só lamento

De uma tia aversão
De vovó só compaixão
De outra avó roubei o amém
De um irmão nada me vem

Da saudade uma ilusão
De você só traição
Do amor boas lembranças
De ser feliz só esperanças

Da lucidez herdei loucura
De meu padrinho a sepultura
Da desgraça herdei o riso
Já do palhaço, herdei,
bem mais que o guizo

Da claridade herdei a noite escura
Da meretriz a parte pura
Do inferno herdei o paraíso
Já de Deus , herdei,
bem mais do que preciso

2008

Éden

O mundo não é feito de flores
No entanto é um jardim
que exala maus odores
O mundo é uma ferida
cheia de pus
O mundo é o reinado
dos urubus
Vivemos num labirinto de grutas
e somos um exército de prostitutas

O mundo não é feito de amores
É somente um leproso
que se contorce em dores
O mundo é um calvário cheio de cruz
O mundo é um cego
que toca blues
Vivemos num poço cheio de cobras
e somos o resto das sobras

O mundo não é feito prá nós
É apenas uma corda no pescoço
e cheia de nós
O mundo é o esgoto feio e fétido
O mundo é um verso podre
e cético
Vivemos num mar de sangue
e somos o lixo do mangue

O mundo não é feito de sóis
No entanto é a mancha do amor
nos lençóis
O mundo é um errante tétrico
O mundo é um verso triste
e métrico
Vivemos num desfiladeiro de tanques
e somos o excremento ianque

O mundo não é feito de poesia
É um faminto canibal
que devora a própria cria
O mundo é um parto prematuro
Um aborto solitário
feito no escuro
Vivemos numa metamorfose de almas
e somos os atores sem palmas

O mundo não é feito como eu queria
No entanto ele existe
e me espia
O mundo é um nojento dedo-duro
O mundo é a praga, a chaga
a hera no muro
Vivo a dominar minha calma
e sou o mutante do trauma

1990

Tropeços

Vidas, tantas vidas
num deserto
de carinho
Pedras, tantas pedras
que puseram
no caminho
Vinho, tanto vinho
nos botecos
e eu sozinho

Pelos, loiros pelos
Tantos dedos
e outro bebê no carrinho
Peles, loiras peles
Tantas mãos
que escorregam no linho
Pestes, loiras pestes
Tantos dentistas
Tanto rico vizinho

Rosa, muitas Rosas
Pouco perfume
Muito espinho
Galhos, muitos galhos
com seus gravetos tão secos
que incendeiam o ninho
Pétalas, muitas pétalas
Malmequer...
e meu bem me quer sozinho

Gente, quanta gente
que me passa voando
que tira fininho
Beijos, quantos beijos
Quanta boca sadia
Nenhum batom no colarinho
Pernas, quantas pernas
Pernas pra que te quero?
Deixa eu tropeçar sozinho

1986

Cê sabe?

Cê sabe o que é andar
sem saber aonde ir?
Sabe o que é ir
sem saber se vai voltar?
Sabe o que é tentar voltar
e nunca mais se encontrar?
Cê sabe o que é encontrar
e não saber o que fazer?
Sabe o que é fazer
sem sequer sentir prazer?
Cê sabe o que é o prazer?

Cê sabe o que é dormir
e não querer acordar?
Sabe o que é acordar
e de novo da vida apanhar?
Sabe o que é apanhar
e não poder gritar?
Cê sabe o que é gritar
e ninguém te ouvir?
Sabe o que é ouvir
mesmo sem querer?
Cê sabe o que é o querer?

Cê sabe o que é amar
sem querer se machucar?
Sabe o que é machucar
sem fazer sofrer?
Sabe o que é sofrer
e nunca mais se curar?
Cê sabe o que é curar
e a ferida de novo se abrir?
Sabe o que é abrir
e nunca mais fechar?
Se sabe, sabe o que é amar

1979

31 de outubro de 2008

Negra

Pode um homem viver só
em meio a tantos?
Pode um homem não pecar
em meio a santos?
Pode se despir
mantendo o manto
e bravo guerrear
em meio a prantos?

Pode um homem se esconder
por todo canto?
Pode um homem só
viver só por todo tempo
ou somente por enquanto?

Pode um homem reviver
voltando ao pó?
Pode o homem desfazer
mais esse nó?
Pode andar ereto
sendo manco
e feliz rodopiar
dançando um tango?

Pode um homem ocultar
o pensamento?
Pode, enfim, um homem
ser criança todo tempo
e se perder no encantamento?

Você pensa que sou manso
sendo eu bravo, nêga
Você ordena e eu te lavo, negra
e quando suplico feito santo você nega
pois me fez de ti escravo, negra
só pra lembrar que sou o branco

2007

Luxúria

Na garganta o grito contido
querendo dizer vem
Me lança o olhar perdido
que só você tem, bem
Me despe inteira
e bate com força
Arromba minhas portas
quebra minha louça

Na garganta esse nó cego
querendo implorar me crucifica
Me finca teu prego
qu’esse amor quando bate fica
Me quebra os ossos
com teu abraço
Puxa meus cabelos
me lança seu laço

Na garganta esse desespero
querendo pedir sempre mais
Desbrava minhas matas
atraca em meu cais, ai
Me vira e depois desvira
Diz mais besteira
Me puxa prá beira
Me pira

1991

Falso azul

Vejo aqui na Terra
e na América do Sul
um céu de brigadeiro
de um falso azul
Onde poetas e mendigos
perambulam dementes
Aflitos e famintos
criam teias nos dentes

Vejo aqui na Terra
e em todo o continente
um paraíso verde-oliva
que vai de cabo a tenente
Onde grávidas e meninos
batem co’a mão
Doentes e franzinos
acenam em vão

Vejo aqui na Terra
e em todo o mundo terceiro
a miséria em cada esquina
feito um imenso sertão brasileiro
Onde velhos e moços
se igualam ao gado
É pele só e só osso
Povo pobre coitado

1985

Sobrecarta

Niterói,
Ai como dói!
15 de janeiro
Que pena eu não ter sido o primeiro.
de 1986.
aqui no velho boteco outra vez.

O motivo desta
Fui amarrado a alguém que me detesta.
é tentar assassinar um pouco a saudade,
Como é difícil pisar os pés na realidade.
pois você nunca mais telefonou,
Eu não sei onde parar esse meu vôo.
nunca mais vi teu sorriso.
Ely, desce outra que beber é preciso.
Como estão as coisas? Muita novidade?
Olha aí de novo a saudade...
Você passou no vestibular?
Olha só cara: que jeito, que cara, que olhar...
Eu burlei, a rigor. Não era prá vestiburlar?
Será que tá desacompanhada? Sei lá não sei, sei lá.

Às vezes sempre eu me lembro dos nossos papos.
Põe teu telefone aqui, no guardanapo.
Nossos sonhos eram quase iguais,
Eles estão me olhando feito canibais...
E acho que os descaminhos também.
Deixa eu só acabar essa cartinha, meu bem.
Me lembro que, por vezes, te flechava com olhos cheios de maldade.
Não, não, infelizmente é só amizade
Vê se você não me esquece não.
Olha quem tá em pé, lá no balcão.
Apareça, mande notícias!
Ai que gostoso, faz de novo essa carícia.

Tenho muita boa nova prá te contar.
É, já vi que escrever aqui não vai dar.
Vamos marcar um encontro, uma cerveja...
Agora sim, vem... me beija...
Espero uma resposta rapidinha, tá?
Escuta... e você... você mora... mora... sozinha?
Então, vai dá?

1977

26 de outubro de 2008

Boneca

Peço, escolho, é fria e viva não é
E o treco, inflável, em pé
tem até um jeito amável de mulher

Pego, esfrego, é vício, não nego
E trepo, ereto, em cio, e quieto
penetro em teu corpo
e só me entrego morto

Peco, espeto, é feio e não é certo
É prego. Acerto em cheio e, cego
penetro o que sobrou com ar
Exausto e só, te entrego para nunca mais te amar

2008

Melancólico olhar

Fundo, muito fundo é o fundo
de meu fundo, profundo e profano olhar
Mar!
Imundo, muito imundo é o imundo
mundo do mundo que inundo a chorar
Buá!
Triste, muito triste é o triste
melancólico olhar
de um homem que sonha que sonha, e sonha
e sonha até mesmo depois de acordar

Úmido, muito úmido é o úmido
do útero do único e último homem que tem esse olhar
Bar!
Tímido, muito tímido é o tímido
temido destino que teimo em traçar
Não dá!
Triste, muito triste é o triste
melancólico olhar
de um homem que apenas apanha, e apanha
e apanha e apanha sem querer revidar

1991

Punhais

Fiz do canto, de pronto, um lindo choro
e do choro, em pranto, um novo riso
Somado a tantos fiz um coro
E cantei, pois cantar é preciso

Fiz do olhar que anima lâmina cortante
e dos olhos da menina um novo guizo
Feito Vinícius, fiz da vida uma aventura errante
Como Francis Drake, o navegante
vivi, pois viver é preciso

Fiz dos bares meus mares para refúgio aos descaminhos
e indo a caminho dos males fiquei firme feito fruto verde
Feito Baby Doc fugi sozinho
Sozinho feito John Rambo
lutei como um boina-verde

Fiz do amor que peca peça de um quebra-cabeça
e, pecador, a cabeça em Meca arremeçei contra a parede
Feito Figueiredo pedi me esqueça
Como Cartola pediu naquele samba
O mestre da rosa e verde

Fiz dos versos, confesso, um certeiro punhal
Punhal afiado, de aço, que cravei em seu peito
E feito um Clóvis saí anônimo e feliz no carnaval
Como um pierrô apaixonado, mascarado
ligado e livre, em plena Avenida Central

1986

Sei lá

Um homem gritando “acertei no milhar”
Um paraíba e sua nova TV
Moça dourada saindo do mar
Mulher cheirosa e seu pequeno bebê
Uma criança faminta mendigando pão
Um homem gritando “pega ladrão”
O nordestino assaltado e “levaram a TV”
Mocinha solteira e seu pequeno bebê
O marido chegando e encontrando você
Outra moça solteira abortando um bebê
Um amante traído querendo beber
Um marido sabendo e querendo bater
Ela querendo e ele vendo TV
Três da manhã, você explicando
mas ela não vai entender

1976

Alfabeto brasileiro

A do agiota
B de baleado
C de corrupto
D do deputado
E de estelionato

F de fuzilaria
G da ganância
H de histeria
I do inferninho
J do jeitinho

K de compaixão
L do ladrão
M de maldade
N do nomeado
O de obrigado
P de peculato

Q de quem indica
R do rabecão
S do que suplica
T de traição
U de usurpação

V de vadiagem
W de honradez
X do xadrez
Y de poesia
Z de zombaria

2008

Busca

Correr o mundo e procurar alguém
Tropeçar nas pernas
e cair bem mais além

Subir o morro e procurar quem tem
Tropeçar nas pedras
Desafiar um trem

Desfilar os olhos pela noite
e não ver ninguém
Tropeçar nos copos
Dizer amém

Cair feito um defunto procurando luz
Acender as velas
e estancar o pus

Levantar feito Cristo e carregar de novo a cruz
Escrever um verso
Tocar um blues

Desafiar o inferno pela boca
e fazer jus
Tropeçar nos corpos
Reconhecer Jesus

Acordar de um sonho louco a dar risada
Pensar na vida
Em tudo, em nada

Lavar a alma e o que ficou da estrada
A poeira, o suor
O sangue da espada

Desatar o nó pelo pescoço
e desistir da vida
Tropeçar nos ossos
Reabrir feridas

1984

É madrugada

É madrugada
e tudo se move com lentidão
O Diabo é quem faz a chamada
De madrugada
chove muito, tudo alaga, tudo nada
De madrugada
Rio, 40 graus em pleno calçadão
Um homem passou com a mão virada
De madrugada
Cinelândia, Estação, próxima parada

1979

E por falar em amor

Sem fundo musical, por favor,
que eu vou falar de amor
Que o amor é indispensável
e sempre faz muito mal
Sal

Eu era santo
e você quebrou meu andor
Tinha orgulho em ser Banto
e você roubou minha cor

* * *

Sem fundo musical, por favor,
que eu vou falar de amor
Que o amor que dá vida
põe na UTI do hospital
Cal

Eu amava tanto
e você, no entanto,
o que fez?
Me magoou outra vez

* * *

Sem fundo musical, por favor,
que eu vou falar de amor
Que o amor, que é pura emoção,
é também irracional
Animal

Eu era selvagem
e só você me domou
Depois partiu em viagem
e nunca mais voltou

1991

25 de outubro de 2008

Bares diversos

Por cidades do mundo
existem bares diversos
Reparo olhares profundos
nos cantores de versos

Por prateleiras brilhantes
contendo garrafas diversas
se confundem amantes
e gente que canta e que versa

Pelos balcões curtidos
por cachaças diversas
mexem bocas de aflitos
fingindo conversas

Pelos salões há fumaça
de palhas diversas
que não esconde quem passa
para outros promessas

E pelas mesas de mármore
pousam mulheres diversas
Parecem troncos de árvore
que mulheres são essas?

E pelos cantos do toalete
elas rabiscam versos diversos
Reparo no sangue, no corpo e na gilete
o drama, o motivo adverso

1984

No meio

É que no meio das pernas
dessa gente
adormece um vulcão
Uma coisa quente

É que no branco dos olhos
desse povo
se esconde um brilho
Algo de novo

É que no fundo do útero
dessa mulher
brota a semente
de um momento de fé

1976

13 de setembro de 2008

Senhora

Quando me amar
preserve as juras
pise a flor
prefira as surras
Pois desconfio delas
e detesto flores
Já que amar é sofrimento
é circo de horrores

Quando me bater
preserve a cara
encoste o taco
prefira o tapa
Pois inda guardo nela
todos os seus beijos
que disparastes rijo
e cheio de desejo

Quando me morder
preserve a aorta
embanhe a faca
não me fure morta
Pois correm por ela
todos os seus vírus
que me passas teso
quando me viro

Quando me chutar
preserve o ventre
recolha as botas
me quebre os dentes
Pois carrego nele
sua mais nova semente
que plantaste bêbado
e com olhar demente

Quando me humilhar
seja bem perverso
me inspire sempre
a escrever mais versos
Pois coloco neles
todo o amor, dor e prazer
Para inverter na cama
e só ali, dominar você

2005

Sexta-feira

Há um cheiro de sêmen pelo ar
Esquecidos gemem pelo bar
pondo em falência a geladeira
Há desculpas de plantão
O velho golpe da reunião
e uma aventura passageira
Porque hoje é sexta-feira

Há uma adolescente que se despe
Um capitalista que investe
e a mulata desce a ladeira
Há um novo amigo que chegou
Um velho amor que se acabou
e um suicídio na pedreira
Porque hoje é sexta-feira

Há um gigante que se ergue
Uma mocinha que se perde
e sempre uma vez que foi primeira
Há pelos becos muito som
Muitas bocas e batom
e o zumzumzum parece feira
Porque hoje é sexta-feira

Há frases sem sentido
Línguas loucas pelo ouvido
Papos sérios e bobeira
Há um vulto, um gemido e alguém sua
Adultério... uma esposa quase nua
Margarida, Dália, Rosa, trepadeira...
Porque hoje é sexta-feira

Há no olhar dessa morena aqui na mesa
promessa de refeição completa e sobremesa
Morena-jambo, filé ao ponto estalando na frigideira
Há muita afinidade em nosso olhar
Poesias iguais prá se trocar
e muita loira fria e saideira
Porque hoje é sexta-feira

Há alguém que escreve um verso
Em cada colo um réu confesso
e uma carícia bem ligeira
Há tanta coisa assim sem nexo
Nas palavras muito sexo
nos corações muita geleira
Pois, invariavelmente, é sexta-feira

1990

De graça não

Se eu tivesse um buraco
Se tu tivesses um buraco
A gente já tinha emburacado tanto
Olha meu taco!

Se eu tivesse uma toca
Se tu tivesses toca
A gente já tinha se tocado tanto
Que troca-troca!

Se eu tivesse um canto
Se tu tivesses canto
A gente já tinha encantado
esse desencanto

Se eu tivesse um quarto
Se tu tivesses quarto
A gente poria de quatro tanto
E o parto?

Se eu tivesse um teto
Se tu tivesses teto
A gente já tinha atentado tanto
Olha o feto!

Se eu tivesse casa
Se tu tivesses casa
A gente já tinha acasalado tanto
Que brasa!

Se eu tivesse um ap
Se tu tivesses um ap
A gente já tinha se apertado tanto
Mais um bebê!

Mas, talvez
Se eu ti desse abrigo
Se tu quisesses abrigo
A gente já teria brigado tanto
... e adeus, amigo

Mas, depois
Que eu te construí um lar
E que você não me quis por lá
Eu te devolvi pro bar
Vamos, mas vou te pagar!

1986

Uns e outros

Há pessoas que são tristes
outras teimam na alegria
Umas se drogam
outras fazem poesia
Há pessoas felizes
outras insistem em ser tristes
Umas vivem
outras não existem

Há muito fantasma
sangue e plasma
Milhões de duendes
inválidos e doentes

Há homens miseráveis
outros fingem ser ricos
À umas, algumas doses
A outros, muitos picos
Há homens que são mitos
outros são infláveis
Uns aspiram
outros só injetáveis

Há muito viajante
esquecido e errante
Milhões de infelizes
atores e atrizes

Há os que vieram só por vir
outros para viver
Uns são
outros querem ser
Há os que amam sem parar
a outros só resta sofrer
Uns possuem
outros querem ter

Há muita dor
ódio e horror
Milhões de sussurros
gritos, urros

1976

23 de agosto de 2008

Diário de dama

Dói, mas dou
Dou a quem me dá
Me dôo
a quem me doar
Mesmo que doa
tenho que dar

Dou de ré
Dou sem dó
Dou doída
mas doida prá dar
Mesmo que vá doer
dou sem amar

Dou demente
Dou drogada
Dou diferente
Dou dentada
Dou deitada
Dou obrigada

Deus, aos doze eu dei
Duvido quem não daria
O dinheiro não dava
Dario tava doente
Dei, Deus, eu o amava

Hoje sou Dadá
Dou pro Didi
Dei pro Dudu
Vou dar pro Dedé
Mas só pro Dodô
me dou como mulher

Me visto como deusa
Chego como drácula
Brilho feito Dalva
Deito como diva
Durmo como dama
Acordo como drama

2008

Como uma flecha

Faça silêncio
e o mundo então te ouvirá
Use a cor branca
pro vermelho apagar
Use a partida
prá poder sempre voltar
E derrame seu pranto
até a si próprio afogar

Não tema a morte
deixe-a frente à frente a você
Distribua veneno
prá mãe do bebê
Sinta saudades
que todos vão te esquecer
E se sozinho chorar
não deixe nunca ela ver

Se deite com ela
só por deitar
Faça amor com o seu corpo
como se a fosse matar
Corte o seu pulso
pro veneno estancar
Baixe então um decreto
e não deixe ninguém revogar

Cometa mil erros
para o alvo acertar
Repita o que eu digo
para não se enganar
Narre a verdade
e irás sempre mentir
E faça o que eu faço
se quiser resistir

Pensei pedir-lhe desculpa
mas já vi que não da
Você fez tudo errado
você foi de amargar
Quando ler o meu livro
pode até o rasgar
Que até lá já disse adeus
vou de você me soltar

Hoje, bem mais experiente
entro no mar quando o tempo se fecha
Disfarço a calvície
pinto essa mecha
Guardo esse texto
como se houvesse entre nós uma brecha
E firo a todas nos olhos
com olhos como uma flecha

1985

Faz um troço qualquer

Me faz um chamego
Me diz vem meu nego
que eu finco o meu prego
e satisfaço o meu ego

Me faz um denguinho
Me diz vem benzinho
que a gente faz um trenzinho
e trilha o próprio caminho

Me faz um gracejo
Me joga um bocejo
que eu retribuo com beijo
e reacendo o desejo

Me faz uma jura
Me diz vem que tem cura
que a solidão te procura
e acha a casa às escuras

Me faz um troço qualquer
Diz a mentira que quiser
Ceda os carinhos que puder
ou então me deixa ir pros braços
de outra mulher...

1985

Lembra?

Lembra do sertão
e de como era lindo o amanhecer?
Agora olha pr’esse chão
e pr’essa gente que paga prá morrer

Lembra do violão
e de como era lindo o anoitecer?
Agora escuta essa canção
com quase nada prá dizer

Lembra da ilusão
e de como eu sonhei te conhecer?
Agora larga a minha mão
qu’eu não quero mais você

1977

Ungidos

Não há nada mais
que mais possa parecer
comigo e com você
pois somos únicos

Não há nada demais
em querer te merecer
pois eu e você
nascemos unidos

Não há sinais
de que o amor não vá vencer
pois disse amo você
com olhos úmidos

Não há nos anais
e nenhum lugar vai ter
placa orientando a receber
em primeiro os últimos

E não há moça e nem rapaz
capaz do fogo derreter
ou que faça eu te perder
pois eu você fomos ungidos

2008

22 de agosto de 2008

Angústia

Ele não precisa saber
do meu amor por você
Prá que, talvez, não sinta ciúmes
ou, com raiva, me cause mais sofrer

Ele não precisa beber
eu é que bebo por não ter você
Prá que, talvez, embriagado sinta o teu perfume
ou, com saudades, veja no copo a imagem do teu ser

Ele não precisa nem pensar em morrer
eu é que morro de amores por você
Prá que, talvez, reviva em ti alguma chama
ou apague de vez esse meu triste amanhecer

Ele não precisa fazer força prá esquecer
nenhum beijo que roubou de você
E nem, talvez, jogar teu nome na lama
ou ver na cama tanto carinho apodrecer

1985

O amor no meu diário

O amor é um mercenário
Um franco atirador
Um falso missionário
em missões do interior

O amor é um dicionário
malfeito e sem tradutor
Luxuoso calendário
mas de mulher sem pudor

O amor é um imaginário
conto de mercador
Magnífico cenário
de um medíocre ator

O amor é crediário
de sujeito mau pagador
É salário de operário
e atrasa que é um horror

O amor é um canário
vistoso e cantador
que uma vez no aviário
não encontra comprador

O amor é o plenário
para o discurso do ditador
O pronunciamento diário
que só dita a dor

O amor é um operário
e nas vagas horas cantor
Mulher doente do ovário
que não quer ir ao doutor

Como eu é um funcionário
faltoso e não cumpridor
que está demissionário
e não é mais servidor

Mas também é o mostruário
de rara e bonita flor
fabricando o néctar necessário
ao alimento do beija-flor

O amor no meu diário
tem mil doentes, nenhum doutor
Só tem espinhos, nenhuma flor
Postal do Rio sem Redentor

O amor no meu diário
salta em páginas de dor
Amareladas e sem cor
escondendo rabiscos de um amador

1985

Não me desligue agora

Muito frio lá fora, me deito quieto
com os olhos parados no ar
Eu sei que estás de partida
para em outro porto aportar

Tento escrever prá esquecer um verso
e meu pranto borra o forte lápis 6-B
De fraco, me entrego à saudade
e choro feito um bebê

E acendo mais um cigarro
prá curtir mais um porre
Espanto o teu vulto
mas ele não corre

Folheio um livro
Ligo e desligo a TV
De nada adianta
e vejo em tudo você

Então meu peito dispara
as armas do amor prá matar
De novo as noites em claro
De novo as mesas de um bar

De novo a enorme procura
De novo quase morrer de paixão
Outra vez aventuras
Outra vez solidão

Ponho um disco na vitrola
e rola um bolero do Bosco
O olhar inundado
inunda o rosto

Amor, não me desligue agora
Deixa o prato girar até o final
e se o automático não funcionar
a gente aciona o manual

1985

2 de agosto de 2008

Mil olhares

Os olhos teus precisam viver
mas só um é seguro
Um vive o presente
e o outro sonha o futuro
Enquanto um filma em close
o outro é câmera aberta
Um erra o alvo
enquanto outro o acerta
Se um olho teu me quer
o outro me odeia
Um, de sofrer não tem medo
mas o outro receia
O esquerdo corre e disfarça
o que o direito não pode
Um, não dá de ombros
já o outro sacode

Os olhos teus penetram a poesia
mas só um a decora
Um não sente pudor
só o outro cora
Enquanto um é estéril
o outro me engravida
Um tem paixão e confia
enquanto o outro duvida
Se um olho teu me divide
o outro subtrai
Um, de tanto sofrer é fiel
mas o outro trai
O esquerdo mergulha e se afoga
enquanto o direito bóia
Um, finge não ver
mas o outro me óia

Os olhos teus procuram palavras
mas só um forma a frase correta
Um busca o homem
o outro o poeta
Enquanto um pousa na sala
o outro corre à janela
Em um vejo a fera
e noutro imagino a bela
Se um olho teu visa o amor
o outro cheira a sexo
Um, de tanto sofrer se supera
mas o outro guarda o complexo
O esquerdo é descrente e cruel
enquanto o direito tem fé
Em um vejo a moça
e nos dois a mulher

1985

31 de julho de 2008

A dois passos

A dois passos do abismo
lembrei do que deixei prá traz
O sorriso dos filhos
O olhar da amada querendo mais

A dois passos da eternidade
pensei no que perdi pelo caminho
A brisa do mar
Outro bebê no carrinho

A dois passos do fim
entendi o que valia a pena
Um raio de sol
Um requebro de morena

A dois passos de me perder
compreendi o que é o amor
Os mistérios do infinito
A simplicidade da flor

A dois passos de me encontrar
descobri o que realmente sou
Um pequeno detalhe
Uma gota que evaporou

A dois passos do que não sei
sei em que vou me transformar
Retrato sem cor
Adubo bom prá plantar

2008

Nós dois

Eu e ela somos um par
Um paralelo
Quem sabe a gente se vê no infinito
Quem sabe o paraíso é belo

Ela e eu somos um só
Um só descaminho
Mas quem sabe a gente bate de frente
Quem sabe tira um fininho

Eu e ela somos a parte da Via Láctea
que ninguém penetrou
Quem sabe a gente se descobre
Quem sabe Deus puxa o cobertor

Ela e eu fomos santificados
Mas vai devagar com o andor
Quem sabe o santo é de barro
Ou quem sabe é falso o pastor

Nós dois somos a peça
que o destino pregou
Quem sabe a gente se esquece
Quem sabe ela fica e eu vou

1986

30 de julho de 2008

Nossos ratos

Os ratos daqui têm patas grandes
Dedos longos, mãos gigantes
Vestem pelica em patas de elefante
Bons oradores, bem falantes

Os ratos daqui fecham negócios
Negociatas, acordos mirabolantes
Levam o futuro ao abismo
com mãos ao volante

Os ratos daqui depois de eleitos
mostram as unhas gigantes
São lebres, leves, livres
e adoram diamantes

Os ratos daqui dão mil presentes
Esposas, sobrinhas e amantes
Discursos históricos, manchetes
corpo-a-corpo ofegante

Os ratos daqui são imunes
e adoram palanques
Firmes em defesa dos fortes
Nacionais ou ianques

Os ratos daqui em nome da segurança
a qualquer hora chamam os tanques
E se a vida não anda, empurra
que ela pega no arranque

Cansado, arrumei um gato
e pus no mesmo palanque
Mas o gato, asno, surdo, distante
Coitado, tem orelhas de elefante

2008

Reeditando a vida

Rejuvenesci meu corpo
envelhecendo um pouco a mente
E me embriaguei feito louco
em tua lucidez demente

Reacendi a chama do amor
apagando de mim o teu fogo
E me embrenhei por outras matas
mudando as regras do jogo

Readquiri confiança
desconfiando de tudo
Fingir-se cego
Tornar-se mudo

Refiz todos os textos
com lápis colorido
Atirei pedras
em minhas telhas de vidro

Reinventei o tempo
invertendo a lógica
Vi com outros olhos
e de outra óptica

Reaprendi na cartilha da vida
a repartir as cartas na mesa
Mas a guardar os trunfos na manga
e roubar com sutileza

Retirei de meu peito o teu feitiço, viu?
E me rebelei contra você, feiticeira vil
Redescobri, desde então, meu melhor sorriso de anil
Pois você foi tempestade passageira cá nos céus do Brasil

1982

28 de julho de 2008

Sangue no sommier

Nas mil e uma noites mal dormidas
a coberta parece que acoberta formigas
É quando o inseto do amor vem morder
deixando os ferrões nos ferros do sommier

Luzes e estrelas na rua
e eu aqui quase nua
com o suor a escorrer
pelo corpo do sommier

Sensações estranhas
Alguém tocando as entranhas
Coisa gostosa assim de morrer
E sonhos adormecidos no sommier

Um dos dois se vira no quarto
Outro remexe com os quartos
Sente vontade de se perder
e de ter alguém por cima no sommier

A outra metade saiu prá se divertir
E talvez carinhos com outra vá dividir
Então não há como conter, quero ter
e ponho alguém ao meu lado no sommier

Que bom é sentir o que sinto agora
Pena que já está chegando a hora
da outra metade aparecer
e apagar de novo o fogo do meu sommier

Virou uma festa o meu solitário entardecer
Sussurros, suores, sons, soluços...
Momentos loucos de puro prazer
e eu virada de bruços no sommier

Por que ele tinha que a chave esquecer?
Gritos, tiros, sangue, correria de passos...
Momentos de insanidade e tudo, então, se perder
E eu morta de bruços nos braços do sommier

1985

1 de julho de 2008

Praga

Como Barrabás fugiu da cruz
Como o diabo evita Jesus
Feito náufrago em luta com urubus
Igual a quem se debate
contra um câncer
Como Guevara, inutilmente,
fugiu de Banzer

Como o pescador fugiu da tempestade
Como o louco evita a realidade
Feito o camponês correndo da cidade
Igual a quem diz sim
querendo dizer não
Como o gato, sempre,
foge do cão

Como Cristo fugiu da Galiléia
Como o cordeiro evita a alcatéia
Feito Glauce presenteada por Medeia
Igual ao condenado
confinado em Alcatraz
Como a virgem, em vão,
foge do rapaz

Como a presa fugiu do predador
Como a graça evita o pecador
Feito o solitário renegando outro amor
Como o negro escravo tentou
quebrar suas amarras
Você pensou, desesperadamente,
em se livrar das minhas garras

Mas como praga que devora a plantação
Como chaga crônica que nasceu de um arranhão
Feito sepse que leva à amputação
Como sombra ao meio dia
que persegue os próprios passos
Eu te prendi, apaixonadamente,
no mais estreito dos abraços

2008

Quantos de nós?

Na noite escura
segue um homem sozinho.
Ele busca o amor,
o afeto e o carinho.
Eu vejo em seu rosto
que ele tenta esquecer.
Bebe. Mas beber não resolve.
Melhor seria morrer.
Desilusão de amor?
Paixão recolhida?
Ninguém sabe o que é.
Mas é profunda a ferida.
Em qualquer canto ele dorme,
em qualquer bar ele entra.
O seu corpo cansado
em qualquer mesa ele senta.
Quantos deles vagueiam
perdidos na rua?
Em vão, vão procurando respostas
nas garrafas e na lua.
E dia após dia
a saudade aumenta.
Essa paixão não se esfria,
mesmo assim ele tenta:
_ O seu olhar era fogo
e sua voz tão macia.
E ele não consegue esquecê-la.
E isso dia após dia.
Se pergunta por quê
que o amor chega ao fim:
_ Ela foi-se embora
mas não morreu para mim.
Mais uma noite ele vai
tentar a amada esquecer.
E eu, ele e você
de amor, cirrose e paixão
vamos todos morrer.

1980

27 de junho de 2008

Jesus Nazareno

Galileo
Trinta e três anos
Pele queimada pelo sol que seu pai lhe deu
Barba e cabelos compridos
De origem humilde
Calça sandálias e anda com mendigos e leprosos
Traz as mãos e os pés tatuados
Tatuados pela tortura dos homens
Se faz acompanhar de agitadores
De agitadores da fé
Assombra o mundo com frases revolucionárias
Com idéias revolucionárias
Tão revolucionárias como:
“Amai-vos uns aos outros”
“Perdoa os teus inimigos”
“Não vos conformeis com este mundo, transforma-o”
Disse Ele certa vez:
“Faça-se louco para ser sábio”
Por tudo isso, se o encontrar pelos bares
Senta-te à tua mesa
E beba com ele

Autor desconhecido
Adaptação de Eduardo Garnier
1984

Feliz Natal prá todos


Aos que já velhos na veia ainda injetam
Aos que vivem a vida dos que vegetam
À menina que não sabe e vai ser mãe
E ao meu amor que, talvez, se embriague com champanhe
Feliz Natal

Ao soldado do Choque que ontem me bateu
Ao mais novo mendigo que nasceu
Ao peão sozinho lá na obra
E ao meu amor que, talvez, caminhe feito cobra
Feliz Natal

A todos os medíocres nos seus lares
Aos que pernoitam pelos bares
Ao conselheiro que não sabe o que dizer
E ao meu amor que, talvez, morda os lábios de prazer
Feliz Natal

Ao pai carente distante do seu filho
Ao menino sozinho e maltrapilho
Ao bêbado que tropeça nos meus passos
Ao meu amor que, talvez, se embale n'outros braços
Feliz Natal

Ao que tenta se enforcar usando um cinto
Ao que fez da vida um eterno labirinto
Aos loucos feito porcos comendo lama
Ao meu amor que, talvez, agonize n'outra cama
Feliz Natal

Ao governante que não fez e muito prometeu
Ao doente crônico que a família já esqueceu
À que sendo moça quer ser homem
Ao meu amor que, talvez, grite na hora o meu nome
Feliz Natal

À toda espécie de mulher
Ao convento, ao presídio, ao cabaré
Ao que mantêm acesa a chama
Ao meu amor que, talvez, diga que já não me ama
Feliz Natal

Ao que está sozinho agora
Ao que pede perdão e chora
À vadia que se abre prá que'u entre
Ao meu amor que, talvez, veja meu vulto num repente
Feliz Natal

A todos os malditos
De todos os credos, todos os ritos
A todo canto, enfim, onde a saudade me levar
E ao meu amor que em meio a tudo não esquece o meu olhar
Feliz Natal

1980

23 de junho de 2008

O bêbado e o poeta

Há nos cascos um asco itinerante
Há no líquido um híbrido de amante
Há nos bares pares de errantes
Nos olhos do bêbado
pétalas em flor, cacos de vidro
Pois para o mau bebedor
qualquer gota é um litro

Há nas palavras larvas canibais
Há nas frases gases mortais
Há no texto incestos imorais
Nos olhos do poeta
sangue vermelho, tinta preta
Pois para o bom contador
qualquer pingo é letra

Há nos cascos e nas palavras algo indecifrável
Há nos líquidos e nas frases algo nada amável
Há em nós dois um deserto interminável
Nos olhos de ambos
desencontro e solidão
Nas garrafas e nas letras
a gota fatal da ilusão

1987

15 de junho de 2008

Ledo engano

A despeito de tudo
eu ainda te amo
Apesar de cego e mudo
dormindo sei que te chamo
Em respeito à fome
quando sobra eu como
Por confiar no homem
sempre e só me dano

A despeito da fraude
minha rainha eu te proclamo
Apesar de despejado e nômade
nunca fui pra ti cigano
Em respeito ao nome
não me chame assim... fulano
Por tanta noite insone
envelheci mais dois durante um ano

A despeito do passado
não refiz os planos
Adormeci amado
mas foi ledo engano
Lhe estender a mão
é sempre um ato insano
Que fazer, então
se é a você que amo?

2008

Nas entrelinhas

Eu preciso que você entenda
o que não vem escrito nas folhas
E que, afinal, compreendas
que ouvidos não ouvem com rolhas

Eu procuro uma desvairada demais
Infelizmente você não é louca
Quero muito mais que o demais
E, no entanto, você é pouca

Rogo por uma arrogante e rouca
por isso te aceno
Desejo beijos obscenos
mas você não tem boca

Quero mudar de ares
Bebericar pelos bares
Invadir botequins e tabernas
Pena você não ter pernas

Quero achar o tempo perdido
Distorcer o fato torcido
e ao levantar o amor já caído
dizer do amor não duvido

Quero mandar prá longe essa dor
e não ser na vida um ator
Prá não guardar tanto rancor
não basta escrever
muito menos se ler
É preciso entender
o que diz a palavra amor

Quero trazer-te prá perto de mim
e ser na sua vida um plim-plim
O mágico, que não chora no fim
E prá isso basta esquecer
o que não da prá esquecer
que irás logo saber
o que restou da palavra sim

1985

Na Lapa

Na Lapa
tudo se amoita e tudo se comenta
Um exército de fracos
se agüenta
Um libertino à solta
se acorrenta
Na Lapa, todo mundo se senta
E tudo, tudo acaba em sêmen
na placenta

Na Lapa
tudo é quieto e se move
Um pelotão de solitários
se envolve
Um gatuno aos berros
pede que se prove
Na Lapa, todo olhar comove
E tudo, tudo num quarto escuro
se resolve

Na Lapa
todo o sangue se esvai, todo corpo grita
E um batalhão de samangos
se prontifica
Um puritano de cuecas
vomita
Na Lapa, todo mundo pratica
E todo, todo o prazer depois jorra
em bicas

1986

Bonecas

Vejo-te emoldurada nos Arcos
e aterrorizada no Aterro praticas
Indiferente aos embargos, os bagos
oferece pacífica na Atlântica

Nas ruelas escuras
refugiam-se então
Por amor tu procuras
pois ninguém quer solidão

Uns, aproximam-se nervosos
e vão direto ao assunto
Examinam todos os ossos
explicam que é festa em conjunto
Há os que pechincham
o seu carinho
e em teus ouvidos cochicham
falando baixinho

Acompanho-te da Terra do Fogo
às galerias do Alasca
Muitas mulheres fazem teu jogo
só não têm sua casca

De algumas damas
brota inveja e despeito
Outras, com os olhos em chamas
elogiam o quase perfeito
Adolescentes se aproximam
tímidos e curiosos
E entre quatro paredes eliminam
instintos furiosos
Pelos dotes do freguês
estipulas teu preço
e aos que te alugam por mês
viras o corpo do avesso

Vejo-te com naturalidade
em meio a formas artificiais
Pois onde reina a moralidade
residem os imorais

1985

Serpentes no divã

Pai, o teu mundo rola sobre bilhas de rolimã
Esmagando no asfalto as nossas filhas
Desvirtuando a nossa irmã

Enquanto crescemos sonhando com o amanhã
o dia-a-dia vai nos roubando
todo o arfar do afã

Fala-se de guerras no Oriente, Ocidente, em Israel, no Irã
Onde está todo o leite e a promessa do mel?
Desce mestre das nuvens, sai das escrituras, dos templos, do Islã

Não é justo, só por ter Adão comido a maça
eu, que nem o conhecia, ter que por ele gemer
e viver assim nessa vida tão vã

Engolindo sapo, comendo rã
Enquanto as serpentes se deitam ao vento
se espreguiçam, se amoitam no meu divã

Já segurei crucifixo, beijei talismã
Deitei os joelhos por terra e mil vezes rezei
Mas continuo pelas noites vagando com minh’alma pagã

Vou acabar ficando cansada de ser cristã
Tendo que lutar sozinha nessa cruzada
com tanto falso titã

É meu pai, eu só queria voltar pro Paraíso e levar uma vida sã
O que preciso?
Será que tenho que ser um Deus, Zeus, Buda ou Tupã?

1985

13 de junho de 2008

No corredor

Não faz assim
Não maltrata
Sorri prá mim
Não seja ingrata
E lembra, meu bem
que um dia é da caça
o outro do caçador

Não faz piada
Não humilha
Não dá risada
Sua filha...
Mas lembra, meu bem
que hoje é de graça
amanhã tem cobrador

Não faz de tonta
Por favor
E agora conta
outro caso de amor
E lembra, meu bem
que um dia a gente se ama na praça
n’outro a gente se mata no corredor

1986

1 de junho de 2008

Bendita

Bendita a nação
cujo Deus
é o senhor

Maldita a razão
que em olhos teus
chama de amor
Acredita a ilusão
que a todo réu
inocentou
Repita a versão
a todo céu
quem decorou
Mal escrita a canção
que só de fel
se impregnou
Mas não excita a oração
que só do mel
se lambuzou

Maldita a nação
cujo Deus
crucificou

Bendita a razão
que os olhos teus
não enxergou
Acredita na aversão
que a todo réu
só condenou
Repita a ilusão
a todo céu
quem degolou
Mal escrita a oração
que só de fel
se amargou
Mas não excita a canção
que só do mel
sempre sugou

O que fazer se a maldita acredita
na bendita escrita que excita?
Então repita

2006

América

Quem não for oco por dentro
sai do centro e escolhe um canto
pois essa dor não agüento
só sai de dentro se eu canto

Quem tá comigo no barco
não tem porque se afogar
pois tenho a flecha e o arco
e tenho porque me afobar

Quem tá de beca num beco
tem que arregaçar
pois pra sair do cerco
cê tem que cercar

Quem tá vivo na vida
vive prá duvidar
sei que você duvida
mas eu vou revidar

Quem tá sozinho no escuro
arma el salto, traspassa el muro y se arma
hás usted el futuro
yo juro, la ditadura desarma


* * *
Quem brinca sempre com fogo
é fogo, vai se queimar
Mas faço sempre esse jogo
que é pra vida rimar

Quem rima certo ou errado
nas pobres e nas ricas
vou lhe mandar um recado
deixa o ódio esvair pelos poros em bicas
Rimo gado com gado, fogo com fogo
E de recado em recado
sem estar mascarado
trapaceio no jogo

Rimo governo com capataz
rimo povo com gado
Só não rimo força com paz
e não vou me deixar ser levado

Quem tá profundo no mundo
tem que vagamundar
Pois quem no mar vai pro fundo
é porque sabe nadar

Quem não berra na guerra
tiene que guerrear
Pues quem pisa los pies em lá tierra
no va de dejar pisar


1984

Minhas palavras

Sou dionisíaco, eu sei
Mas meus verbetes
são como os traços de Apolo
Perfeitos, sóbrios
...e chora em seu colo

Sou incrédulo, eu sei
Mas minha letra
é como a magia de Tupã
Irradia uma aurora infinita
...e anuncia o amanhã

Sou bandido, eu sei
Mas minhas falas
são como as balas do xerife
Abalam as bases dos audazes
...e solta o patife

Sou desafinado, eu sei
Mas minha voz
é como canto de sereia
Naufraga você que é viajante
... e molha a areia

Sou parvo, eu sei
Mas minha escrita
é como o sábio Salomão
Parte ao meio os inocentes
...e perde a razão

Sou injusto, eu sei
Mas meus versos
são como a justiça de Pilatos
Lava as mãos
...e livra os insensatos

Sou pequeno, eu sei
Mas minhas palavras
são como a funda de David
Afundam a fronte do gigante
...e olha ele ali

1986

Conto de horror

O amor é um encantador
que a serpente não despertou
É cantador
que prá mim nunca bisou

O amor encanta a dor
e a muito tolo matou
E canta a flor
que nunca desabrochou

O amor num canto esmagou
quem do amor debochou
É um conto de horror
qu’essa mulher me contou

2007

30 de maio de 2008

Pela Internet

Talvez eu seja belo, teso e tecle enter
Ou quem sabe eu seja o Belo e esteja preso na Polinter
Talvez eu seja um porco chamurdado em lama
Ou quem sabe um louco fornicando em cama
Quem sabe eu seja culto e pelo mundo viajando
Ou apenas vulto, vagabundo ou tô cagando

Talvez eu seja jovem, esportista e livre
Ou quem sabe nuvem, ativista em greve
Quem sabe seja rápido, precoce, breve
Ou apenas parasita que em outro corpo vive
Quem sabe eu seja puro, com espinhas e chiclete
Ou quem sabe no escuro eu aperte o delete

Talvez quem sabe um pedófilo navegando na Internet
Quem sabe se sou Carlos, Creusa, Marcos ou Janete?
Talvez quem sabe sou um velho traficando pela Europa
Ou quem sabe um nazista que dizimou a própria tropa
Talvez quem sabe um índio cibernético na oca
Quem sabe estou em Londres, num morro, na maloca

2005

Te amo

Não sei se te beijo
ou se te mordo as carnes
Não sei se te aliso
ou se te parto a cara
Não sei se te compro um vestido
ou se te rasgo inteira
Não sei se te envolvo na cama
ou se te chuto na esteira
Não sei se te afago os pelos
ou se te raspo os cabelos
Não sei se te conservo intacta
ou se te defloro os selos
Não sei se te chamo de anjo
ou se te exorcizo feito um capeta
Não sei se te dou guarida
ou se te devolvo, nua, à sua sarjeta
Não sei!

Já sei...
Te bato com arte
Te mordo as partes
Te chuto o seio
Te rasgo no meio
Te arranco os olhos
Te trituro os ossos
Te exorcizo, então
Te escorraço, cão
Mas, tudo é em vão
...Saudade, amor, tesão...

1987

Falsas centelhas

Um me bate, quase estupra e
vai embora
Outro se ajoelha, pede perdão
e quase chora
Mas quando os dois se cruzam no corredor
trocam olhares quase iguais
Como caçadores febris
eles se despem das máscaras
Os animais

Um me cospe, me bate na cara
e simula partir
Outro engole seco, me oferece a face
e agora sorri
Mas quando os dois se esbarram no portão
trocam gestos bem reais
Como guerreiros melanésios
eles planejam chupar meus ossos
Os canibais

Um me ilude, quase acredito
Mas é mentira
Outro me jura, fala em suicídio
e quase atira
Mas quando os dois apertam as mãos
se entregam demais
Pensam ser as centelhas
que me incendeiam por dentro
que explodem o cais
que me queimam na cama
Como, se esquecem o melaço da cana
nos canaviais?

1986

Quem sou eu

Minha foto
Niterói, Rio de Janeiro, Brazil
Nasci em 1962, sou casado, tenho dois filhos e adoro simplicidade. Formado em Jornalismo, sempre gostei de brincar com as palavras, de tirar delas o som, o sentido não exposto, o sentimento.