8 de fevereiro de 2008

Vendo

Vendo tudo, por qualquer dinheiro
Um balde de obra, cimento, uma colher de pedreiro
Quatro ferraduras, o cavalo, um velho ferreiro
A mulher, duas amantes seminovas, o cunhado...
E a sogra leva quem chegar primeiro

Vendo um índio, um casal português e todo o Congresso Brasileiro
O Amazonas, São Paulo, o Piauí e um crivado Rio de Janeiro
Um cafetão, quinze putas e um bem situado pardieiro
Um galo de briga, dois pintinhos, milho picado...
E, por fim, todo o galinheiro

A filha virgem, minha jóia mais cara, vendo ao mais rico joalheiro
Sete pecados capitais, um altar, dois perdões, o pastor e o obreiro
Vendo três horas, um domingo, o ano quase todo, mas só de março a janeiro
Dois versos de Vinícius, um acorde do Tom e, do Jackson, o pandeiro
Um rolo de papel, sabão líquido, a torneira e esses versos que fiz nu no banheiro

2007

Por detrás do esparadrapo

Por detrás do esparadrapo
resta o que sobrou de ti:
um molambo, um velho trapo

Por detrás do esparadrapo
se esconde a jura que não fez,
a saudade do amor ingrato

Por detrás do esparadrapo
a vontade de morrer,
de gritar, de se perder no mato

Por detrás do esparadrapo
adormece a ferida,
a lama, o esgoto, o rato

Por detrás do esparadrapo
a poesia mais bonita,
o bote... e a cobra come o sapo

Por detrás do esparadrapo
avisto os teus cacos,
varro, junto e cato

Por detrás do esparadrapo
o deserto imenso,
o abutre, o cacto

Por detrás do esparadrapo
existem mãos amigas:
a aliança, o pacto

Por detrás do esparadrapo
seu coração em sinuca:
o pano verde, o taco

Por detrás do esparadrapo
dois olhos te fulminam:
o bêbado, o vulgar, o chato

1985

Na hélice do teto

Na hélice do teto
meu mundo gira
embriagado, calmo, inquieto
Na hélice do teto
meu mundo pira
sedento, excitado, ereto

Na hélice do teto
o amigo mais constante
e o inimigo, o desafeto
Na hélice do teto
saudades da amante
desejo de estar perto

Na hélice do teto
a vontade de retroceder
Japão, ventre, feto
Na hélice do teto
pensamentos de morrer
contaminado, sujo, infecto

Na hélice do teto
minha tese pelos poros
língua, pênis e reto
Na hélice do teto
me vejo e coro
senhor, Deus, rei, cetro

Na hélice do teto
crônicas de uma vida
tratados, filosofia, poema concreto
Na hélice do teto
sei que você duvida
mas digo te amo em dialeto

Na hélice do teto
minha cabeça em guilhotina
entregue, me enfio, penetro
Na hélice do teto
sonhos de menina
mulher, filhos, neto

Na hélice do teto
Alice Cooper, guitarras, drogas
Alice, país, ma-ra-vi-lhas... soletro
Na hélice do teto
réus, sentenças, juízes, togas
grades, ferros, umidade, insetos

Na hélice do teto
devaneios, confusão
Chico, Roberto, Frei Beto
Na hélice do teto
despedidas, solidão
embriagado, calmo, quieto

Na hélice do teto
o vôo por instrumentos
cego, tempestade, sem teto
Na hélice do teto
todo sentimento em movimentos
sem-terras, sem pão, sem-teto

Na hélice do teto
tudo é solidão
coisa, lixo, objeto
Na hélice do teto
tudo é nada e não
fogo, explosão, fujo, ejeto

* * *

Do vértice do teto
vertem-se paralelas
curvas, pontos, ângulo reto
No vértice da hélice
divertem-se elas
Nice, Eunice, Alice
No vértice delas
tudo o que não disse
e agora são elas por elas

Na hélice do teto
a poesia de um irmão
com o verso milimetro
Na hélice do teto
nem tudo é sim e não
errado ou certo
Eu sei, não sei, cansei
mas o certo é que se errei
foi por culpa da paixão

2005

1 de fevereiro de 2008

Soneto ao amor

Preso, atado, clausuro.
Ilhado, sozinho, perdido.
Surdo, mudo, cego no escuro.
Recluso, em regime fechado, escondido.

Banido, tocado, expulso, exilado.
Náufrago, prisioneiro, detido.
Trancado, algemado, à deriva, engessado.
Parado, ancorado, amarrado, retido.

Com fome, com sede, com frio.
Com náusea, com febre, com dor.
Com sangue, com marcas, em calafrio.

Sombrio, sem forças, sem voz, sem pudor.
Senhor sem escravos, sem rosto, sem ego, sem cio.
Espio, é ele, sem passado ou memória, mas cheio de amor.

2005

Devolve

Devolve todos os meus discos
Devolve o brilho pros meus olhos com todos os seus ciscos
Devolve “Erótica”, a revista
e o manifesto do Partidão Comunista
Devolve, devolve, devolve. Vai devolvendo tudo!
Ah, devolve minha foto que tá sobre o criado-mudo
Devolve todos os meus poemas
e junto com eles traz todos os meus problemas
Anda, resolve!

Devolve o meu corpo de novo pros botequins
Chega de me embrulhar! Me embrulha e me manda pros confins
Me devolve pro fundo das minhas garrafas
Me solta da malha de suas tarrafas
Me devolve prá noite pr’eu curtir minhas ressacas
Devolve a amidalite que te passei com todas as suas placas
Me devolve prá cidade grande, pro monóxido de carbono, pro corre-corre
Devolve a inspiração que eu tinha quando tava de porre
Manda a caixa de Engov!

Devolve o sobrenome que feito tolo lhe emprestei
Devolve todas as madrugadas que contigo varei
Por favor, devolve toda a tralha!
Devolve em forma de aliança o final dessa batalha
Copia e devolve a fórmula do molho inglês
Diz que é cafona, mas manda o meu terno de xadrez
Devolve a receita do exercício prá seio flácido
Devolve as dicas que dei prum suicídio bem rápido
e traz num lenço o revolver

Devolve assim, assi, ass, as... cada carícia que te passei
Devolve cada momento de gozo que lhe dei
Devolve o feto que há dois meses te fiz
e cada gargalhada de mulher feliz
Devolve com juros cada jura de amor, sua louca!
Devolve todos os vírus que roubou da minha boca
Devolve gota a gota cada gota de meu sêmen
Me liberta que serás também
Me envolve

Devolve aquelas surras
me curra
Me corta com os cascos de champanhe
Depois amarra de novo o cordão
larga a minha mão
E me devolve ao ventre escuro da minha mãe

1986

Quem sou eu

Minha foto
Niterói, Rio de Janeiro, Brazil
Nasci em 1962, sou casado, tenho dois filhos e adoro simplicidade. Formado em Jornalismo, sempre gostei de brincar com as palavras, de tirar delas o som, o sentido não exposto, o sentimento.