28 de novembro de 2007

Damas e dramas

Por entre calhas e canos
desembocando em esgotos medonhos
mergulhado em sonhos
fiz pontos e planos
Por entre pernas e panos
abocanhando bocas risonhas
enfronhado em fronhas
por anos fiz danos

Por entre acnes e carne
carnívoro e sedento
vivi o meu tempo
fiz crack e charme
Por entre chambre e charque
seco e salgado
solteiro e casado
fiz crash e fui craque

Por entre peles e pelos
com línguas e dentes
lúcido e demente
cuspi cabaço e cabelos
Por entre poros e zeros
cavalguei sem ter selas
das tenebrosas e belas
violei seios e selos

Por entre costas e coxas
entre marcas e estrias
mornas, quentes e frias
desfiz camas e colchas
Por entre loucas e louças
vendi ilusões, fiz enxovais
comprei alianças, menti muito mais
despi moços e moças

Por entre poças e poços
bandas profundas
cheirosas e imundas
transpus gozos bem grossos
Por entre nervos e ossos
nervoso e trêmulo
liberei meu pêndulo
sem retorno ou remorsos

Por entre camas em chamas
entre copos e corpos
bem vivos e mortos
em lençóis e na lama
Por entre toalhas, pijamas
despindo frestas em festa
sadias e infectas
vi damas, vivi dramas

1984

19 de novembro de 2007

Amor da vida

Nosso olhar procura e acha
Brilha, incendeia
O amor invadi, fere
adora e odeia

A morena vem e olha
Pisca e vai
O amor penetra, queima
entra e sai

O coração bate e canta
Ri e chora
O amor deságua, inunda
empalidece e cora

O poema surge e cresce
Entristece e alegra
O amor enlouquece, endoida
e quem ama não empresta, entrega

A maré desce e sobe
Vai e vem
O amor modifica, transforma
é doce e amargo também

A vida passa e marca
Chicoteia e arde
O amor transborda, enche
e em silêncio faz alarde

A solidão chega e fica
Definha e mata
O amor cega, encanta
porém é laço e se desata

A saudade águia queima e não morre
É cruel à-toa
O amor fênix ressuscita, corre
e então bate asas e voa

O tempo apaga e afasta
Relembra e esquece
O amor sacode, anima
Quem ama é feliz, mas padece

A gente nasce e cresce
Reproduz e morre
O amor dá vida e mata
e se traduz num porre

1980

15 de novembro de 2007

Madrugada urbana

De madrugada
um vira-lata perambula
e lambe a pata machucada
De madrugada
a própria moita se move camuflada
De madrugada
Jack estrangula
e ri da moça estrangulada
De madrugada
o supersticioso dorme debaixo duma escada

De madrugada
alguém vira pro lado
e diz não à sua amada
De madrugada
a própria cobra morre envenenada
De madrugada
um bêbedo drogado
agoniza na calçada
De madrugada
a beata entre a cruz e a cabeça de uma espada

De madrugada
um brutamontes se imagina
quer ser boneca meiga e delicada
De madrugada
a própria bruxa se vê enfeitiçada
De madrugada
a varanda se ilumina
e surge um vulto na sacada
De madrugada
um corpo se esmigalha no asfalto duma estrada

De madrugada
o rato se move no porão
e vai pro quarto da empregada
De madrugada
a própria fogueira é por vezes congelada
De madrugada
o mato toma conta de um coração
e Cupido caçador entra empunhando uma espingarda
De madrugada
a saudade vem comigo me ajudar nessa caçada

1984

Madrugada latina

De madrugada
mais um verso é rabiscado
O papel se perde, a poesia é censurada
De madrugada
alguém caleja a mão calado ao cabo de uma enxada
De madrugada
outro perverso é libertado
Tem ombro largo, costa quente e veste farda
De madrugada
suicidaram Allende com dez minutos de rajada

De madrugada
a bandeira americana
na América Central foi desfraldada
De madrugada
fundou-se a ditadura aos nossos olhos disfarçada
De madrugada
de novo a saga mexicana
de novo a prata espoliada
De madrugada
Castro no governo e tropas invadem Granada

De madrugada
Banzer pegou Guevara
e acabou-se a guerrilha armada
De madrugada
outra eleição se fez fraudada
De madrugada
preparam o pau-de-arara
e torturam o camarada
De madrugada
mães na Praça de Maio e a Argentina ensangüentada

De madrugada
Menguele, Stroessner, Somoza...
bebem vinho na amurada
É madrugada
e alguém ensaia uma virada
De madrugada
e que aqui ninguém nos ouça
a terra sempre foi, foi por eles loteada
De madrugada
alguém respira um pouco e logo vem outra porrada

De madrugada
Jango decola prá nunca mais
Nunca mais pompa, pampas, nunca mais pátria amada
De madrugada
e olha a UNE incendiada
De madrugada
e a noite acampa no cais
Nunca mais poesia, nunca mais batucada
De madrugada
tanques ganham as ruas, não resta mais nada

1984

Soneto à boceta

Porque és tão pusilânime?
Infame! És somente boceta!
E, como tal, és em mim unânime
até que em gozo me converta.

Rosada, pálida, desgrenhada e fétida.
Por ti irmão mata irmão e, então,
és retorno ao começo da vida
e dádiva solitária ao toque de mão.

Ah, boceta! Como és difícil,
às vezes, quando não encantas a serpente
que te canta e que por ti se fez viril.

És sempre igual, soberba e diferente.
Indiferente, amada, reles, maldita, intacta e vil.
Sou só mais um, em meio a mil, e me acabo assim, tão de repente.

2005

13 de novembro de 2007

Todos iguais

Somos todos insanos
dia-a-dia, ano a ano
Planejando um futuro
sem qualquer plano
Ajoelhados a deuses
de barro e pano

Sou quase todo burguês
dia-a-dia, mês a mês
Com toda a certeza
do quem sabe e do talvez
Vestido como santo
em plena nudez

Somos todos da lama
dia-a-dia, semana a semana
Como viúva velha
com saudade da cama
Virgem, casta, pura
e com o sexo em chamas

Sou quase nada poesia
hora a hora, dia-a-dia
Feito brisa do mar
que só traz maresia
Como estar sozinho
em má companhia

Somos todos de fora
dia-a-dia, hora a hora
Como quem chega correndo
só prá poder ir embora
Feito quem só se pergunta
o que faço agora

Somos todos uns putos
dia-a-dia, minuto a minuto
Como quem entra no mar
prá manter-se enxuto
Como quem trai o amor
ainda vestido de luto

Somos todos imundos
dia-a-dia, segundo a segundo
Como o que foge do mar
mergulhando no fundo
Feito o que acorda pensando
ser o centro do mundo

Somos todos iguais
traçando o rumo da vida
com as regiões genitais
Queremos sempre bem mais
Feito você, querida
Pois somos todos iguais

2007

Jogo cênico

Existe um jogo cênico
entre o teu corpo e o cobertor
Persiste o beijo cínico
dado por favor
Abriram a ducha fria
Vê como esfria o nosso amor
Anda, espia
Vê como murcha a flor

Existe um nojo crônico
entre o leão e o domador
E ecoa um riso cômico
que vem do corredor
Abriram nossas portas
e nos mostram sem pudor
Por debaixo das cobertas
mil descobertas
Um perdido e um perdedor

Existe um jeito angélico
no olhar do meu amor
Porém seu peito é gélido
feito olhar de caçador
Abriram nossos olhos
e veja o que restou
Por debaixo das carícias
muita malícia
Mas nenhum resto de amor

1984

9 de novembro de 2007

Manuscrito

Apenas um manuscrito
que liberte aos ventos
os meus gritos
Aos quatro cantos do mundo
feito um raio
esse rabisco

Apenas um manuscrito
que liberte os homens
os aflitos
Aos quatro bares que mais gosto
feito um paio
esse petisco

Apenas um manuscrito
que liberte os sonhos
os mitos
Aos quatro Cavaleiros do Apocalipse
feito um baio
esse corisco

1986

8 de novembro de 2007

Parto após o parto

Do desencontro de nosso amor
que se encontrou num botequim
restou cicatrizes e marcas
e garrafas e garrafas
de Gin

Do encontro de nosso amor
que se desencontrou num carnaval
sobrou confetes e cartas
e discos e discos
da Gal

No descaso de nosso amor
a paixão não existe mais
pois foi-se embora pra longe
feito balões e balões
de gás

De nosso caso de amor
que foi triste e feliz
guardei teu sorriso branco
feito bastões e bastões
de giz

Com o desalento de nosso amor
o juiz Cupido apitou
sufocando a festa
e os gritos e gritos
de gol

Do alento de nosso amor
o que ficou de bonito meu bem
foi teu parto sem dor
premiando um amor que termina
num gen

1985

7 de novembro de 2007

Aquela mulher

Se danem todos os credos
Profanem todos os templos
Esqueçam todos os medos
Provoquem todos os ventos
Quebrem todos os santos
Rasguem todos os livros
Cuspam em todos os cantos
Derretam todos os discos
Façam tudo em mil cacos
Ateiem fogo ao altar da fé
Estilhacem os meus olhos...
Mas me deixe intacta
aquela mulher

1986

6 de novembro de 2007

Frases soltas pelo ar

Sou multinacional americana: Ltda., S.A. e C&A
Contrabando e pirataria
Sou colegial gazeando geografia
Relevo, solo e hidrografia
Sou o que foi à Lapa ver se havia
Corre-corre, porre e pancadaria
Sou pagador de promessas subindo a escadaria
e também cacetete, polícia e cavalaria

Sou pistom de gafieira em surdina
Dominó, sueca, ronda, bate-papo de esquina
Sou meretriz, beata e sou menina
Geni, Januária e Carolina
Sou guerrilha armada nas colinas
Havana, Manágua e Filipinas
Sou a pedra mais vistosa da mina
e merda que o corpo elimina

Sou quem deflora as páginas com o lápis ereto
Esqueço a inocência e vou direto
Sou o entulho autoritário que deu certo
O democrata do decreto
Sou bala perdida que passou perto
Roleta-russa, tiro incerto
Sou na pirâmide social o lá do teto
mas de lama estou coberto

Sou frases soltas pelo ar
Arrumadinhas prá rimar
Sou o poeta bêbado do bar
A esperança cantada em “Vai passar”
Sou tudo aquilo que não dá prá segurar
Substantivos comuns e verbo amar
Sou poesia tola de um vulgar
dum momento, duma pátria, dum lugar

1986

2 de novembro de 2007

Mais nada

Não há mais nada a dizer
que já não tenha dito
Nada mais a escrever
que não esteja escrito
Amor maldito!

Não há mais nada a ouvir
quando advêm de um grito
Nada sobrou do testemunho
que não seja um mito
Amor bandido!

Não há nada a esmolar
no portão de um rico
Separe meu bem dos tolos
e diga ao povo: eu fico
Amor perdido!

Não há boas sementes
entre o joio e o trigo
Nem um pêssego, uma uva, um figo
Se não há mais perdão
entre pai e filho
Se não há mais vida
entre o suicida e o trilho
Se não há mais luz
que emane brilho
Se já morreu na cruz
o bastardo e o filho
Se já não há mais rimas
nesse estribilho

Não se faz pipocas
sem explodir o milho
Não se dorme bem
sem esmagar os grilos
Não se arruma um bem
sem se perder dez quilos
Não se pisca um olho
sem mexer os cílios
Não se tem fartura
sem lotar os silos
Não conheço estrela
brilhando mais que cirrus
Não se chega a nada
andando em círculos

Então melhor desistir
ir para casa, comer sucrilhos
Amar a própria esposa
brincar com os filhos
Semear o joio
pensando ser o trigo
Comer bananas
pensando em figo
Empobrecer as rimas
e os estribilhos
Vou deixar que outro
descarrile os trilhos

2005

29 de outubro de 2007

Vendilhões

"E entrou Jesus no templo de Deus e expulsou todos os que vendiam e compravam no templo, e derrubou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombas. E disse-lhes: Está escrito que a minha casa será chamada casa de oração. Mas vós a tende convertido em covil de ladrões". Mateus 21:12 e 13.

Vendo sangue, vendo pus
Vendo o cego que toca blues
Vendo o sol, me lembro
E te vendo a luz
Por trinta dinheiros vendo
Jesus
E, por último, te vendo a cruz

Vendo cargo, vendo voto
Vendo a semente que gera broto
Vendo o Alvorada, me lembro
E te vendo o Torto
Por muito pouco te vendo
O corpo
E, por último, me vendo morto

Vendo alívio, vendo pânico
Vendo o escarro que causa vômito
Vendo o Pacífico, me lembro
E te vendo o Atlântico
Por um riso vendo
O cômico
E, por último, me vejo atônito

Vendo o excesso, vendo a falta
Vendo as luzes da ribalta
Vendo a manchete, me lembro
E te vendo a pauta
Por ganância vendo
Ações em alta
E, por último, vivo à flauta

Vendo por baixo, me vendo por cima
Vendo o sexo da menina
Vendo o texto, me lembro
E te vendo a rima
Por mais ouro vendo
A mina
E, por último, bebo urina

Velho, me vejo
E, no espelho, eu de joelhos
Cansado, exausto, manco, todo enfermo
Vendo um olho que vê a esmo
Vendo o amigo, me lembro
Roubo e vendo a mim mesmo
Vendo a calça, a casa, o terno
Vendo a lembrança do momento mais terno
Vendo a tempestade para esfriar o inferno

Vendo, me vejo
E, no varejo, me vendo inteiro
Baço, fígado, rim... qualquer dinheiro
Vendo um pênis cheio de desejo
Vendo a boca, me lembro
Lambo, invejo e vendo o beijo
Vendo um olhar certeiro
Um dente de ouro, o beiço, o queixo
E, por último, vendo o primeiro

2006

25 de outubro de 2007

Pude te amar

Em que cais, em que porto, que barco, que mar
Com que bote, que bóia, que remo e nadar
Mergulhar não deixar nosso amor naufragar
Ancorar em teu corpo seguro e de amor me afogar
Com que corda, corrente e que laço irá me salvar
Se amarrar os teus passos eu sei que não dá

Em que rua, que praça, que casa, que lar
Devo entrar sem bater pro teu corpo encontrar
Com que chave, que toque e que senha usar
Desvendar seu segredo sem medo já sei não vai dar

De que modo, que braço e que força fazer prá abraçar
O teu peito apertar para então nunca mais te soltar
Com que cara de culpa, desculpa, que culpa imputar
Se um cara e de cara mais nova ao seu lado deitar

Com que fome, que sede, vontade e saudade te amar
Te agarrar e beber dessa fonte defronte pro mar
E que urro, que berro, gemido, que grito vou dar
E gozar na certeza de um tempo que não vai voltar

Com que tinta, em que tela, que quadro pintar
Essa história tão linda de amor que nasceu prá apagar
E que prova, que gesto, que jura mais pura eu podia te dar
Eu te dei minha vida, querida, e agora você sei que vai me deixar

De joelhos, cansado, suado, chorando pedir prá você só ficar
Só me dar mais um pouco, uma noite, um minuto, um olhar
Prá que o tempo não possa nos ver e fingir não passar
Prá que eu tenha amanhã, pelo menos, mais tempo a contar
Prá que o tempo futuro o passado possa recontar
E lembrar que você já foi minha e que um dia eu pude te amar

2007

Quem sou eu

Minha foto
Niterói, Rio de Janeiro, Brazil
Nasci em 1962, sou casado, tenho dois filhos e adoro simplicidade. Formado em Jornalismo, sempre gostei de brincar com as palavras, de tirar delas o som, o sentido não exposto, o sentimento.