15 de março de 2008

Guinha

Que palavras encontrar
para expressar todo o sentimento
das lembranças, do momento
do maravilhoso tormento que é amar?
Tu já és para mim água cristalina
e luz que guia na neblina
Deu-me certeza de ser homem
Deu-me vontade de ter fome

Que verso tolo escrever
só prá dizer do encantamento
das lambanças, dos rebentos
do genial delírio que é te ter?
Tu já és certeza de alegria
e a mais pura poesia
Você, que roubou meu sobrenome
da beleza és um clone

Que inspiração devo buscar
se és tudo o que preciso
minha lágrima, meu riso
e meu mais lascivo olhar?
Você chegou a mim feito um ciclone
Não deixou nome ou telefone
Mas em tua festa penetrei
Fiz-me em tua vida um cicerone

Que poesia posso ter
se és do universo o próprio centro
o mais real dos pensamentos
e até razão de meu viver?
Tu já és o bálsamo que cura
e minha única não fingida jura
Eu, no prazer da noite insone
em teu colo caio em si, Moni

2008

Painel

Desfolhando à bíblia:
Desacordado está Deus
Demarca as terras
Deságua os mares
Descobre Adão
Descobre Eva
descostelando Adão
Desviados pela serpente
deportados são

Desfolhando à história:
Desaforados navegantes
descobrindo o Brasil
Devassando as ocas
Desvirginando as virgens
Degolando guerreiros
Desbravando as terras
Desmatando as matas
Desrespeitando as feras

Desfolhando à memória:
Destituído o regime militar
Desenvolvida a nação
Desnutrida a criança
Descontente o povo
Dado o golpe de novo
Desesperançada a esperança
Desativado o Congresso
Decretados os decretos
Duvidoso o progresso

Desfolhando òs jornais:
Despatriado Brizola
Decretada intervenção
Desburocratizada a desburocratização
Desvalorizado dentro dum dia dez dúzias de vezes o dinheiro
Desacreditado o milagre brasileiro
Desclassificado o Brasil nas oitavas-de-final
Desenterrado Baungarthen
Debatida a sucessão presidencial

Desfolhando ò futuro:
Desolados os povos
Desgarradas as ovelhas
Desfeitos os tratados
Deflagradas as guerras
Desarmados os homens
Defloradas as mulheres
Detonados os botões
Descaracterizados os caracteres

Desfolhando ò meu ego:
Desinteressante texto
De desinformado autor
Denso desencontro de idéias
Dentro de ódio e amor
Desajeitadas frases
Desiludidas como eu
Desacertadas são as crases
Desmiolado demais sou eu

1984

4 de março de 2008

Pode

Pode um homem dizer sim dizendo não
numa terra em que a Justiça anda cega de paixão?
Pode o rico mendigar o próprio pão
se o cenário não tem nada de ilusão?

Vi um santo duvidar da própria fé
Vi um bêbado sambando num só pé
Pode a vida não surgir d’uma mulher?
Pode João Batista perdoando a Salomé?

Se o cordeiro tem a força de um leão
então pode a borboleta aniquilar o escorpião
Pode o touro cavalgar sobre o peão?
Pode na bolsa o ouro valer menos que latão?

Se pode nosso amor abrir fendas pelo chão
transformando seu olhar num farol na escuridão
Então posso te ter na umidade do porão
e me enfiar pelo teu sexo só pra voltar num embrião

2007

Como morto

Em que oceano me afogar?
Com que novo coração me iludir?
Com que punhal me apunhalar?
Em que barco posso partir
só para esquecer que te amo?

Em que buraco me enterrar?
Que nova droga consumir?
Com que corpo me deitar
Só como morto posso fingir
então reviver e dizer te amo

1977

I Tessalonicenses 5:18

“Em tudo dai graças; porque esta é a vontade de Deus, em Cristo Jesus, para convosco”.

Obrigado Senhor
Pelo estômago vazio que ronca
Pela gestante abandonada que anda tonta
Obrigado
Pelo canivete do pivete em pleno ventre
Pela vadia que se abre prá que’u entre

Obrigado Senhor
Pela manchete sangrenta que se agiganta dia-a-dia
Pela lágrima que brota no olhar de quem sorria
Obrigado
Pelo cachorro louco vagando na avenida
Por essa terra assim mal dividida

Obrigado Senhor
Por ter palavras sem tamanho à vomitar
Por me sentir um estranho em meu próprio lar
Obrigado
Pelo presente grego que me destes em forma de mulher
E pelas correntes liberais que ataram no meu pé

Obrigado Senhor
Pelo beijo traído da mulher aranha
E pelas venenosas unhas da gata que me arranha
Obrigado
Pelo mandamento não cumprido
E pela infertilidade que vem num comprimido

Obrigado Senhor
Por dar a César tudo o que não é de César por direito
Pela mãe que nega ao filho o próprio peito
Obrigado
Pelas falsas juras de amor de suas Evas
Pelo efeito alucinógeno contido em tuas ervas

Obrigado Senhor
Pelo dirigente não eleito que rouba o meu destino
Pela fera enlouquecida que fizeram do menino
Obrigado
Pelo bronze, a prata e o ouro dessa igreja e do teu sino
E por ser miseravelmente pobre o meu destino

Obrigado, enfim, Senhor
Por poder dizer obrigado mesmo encharcado de ironia
E pelo anjo do mal germinar meu peito assim com poesia

1985

Soneto às palavras

Soletro, pulso e conjugo
sofrimento com alegria.
Incansável, carrego esse meu jugo,
que idiotas chamam poesia

Em cada vírgula reticente
o flashback de uma vida,
passada a limpo num repente
e sem vitória adquirida.

Que prazer mais masoquista e infame,
se palavras não redimem esse homem,
que apenas cai no poço e entra em pane.

Nessa dor a corda enrosca o abdome
e já me corta os pulsos o arame.
Pontos, vírgulas, vermes... todos já me comem.

2005

1 de março de 2008

Como?

Como se portar?
Como se importar mais
com os animais?
Como entender a mediocridade
dos mortais?
De onde importar a paz?
Como se transportar
pro nunca mais?
Como se embriagar
na beleza dos postais?
Como emoldurar a Deus
nesses portais?
E mais...

Como me encontrar?
Como se contar mais
com os nossos pais?
Como entender a mediunidade
e os cardeais?
De onde contar um a mais?
Como contornar
os grilos do rapaz?
Como se encantar
com o canto dos pardais?
Como encaixilhar você
nesses meus ais?
E mais...

1986

Me esqueça

Não me deixo levar
porque não há tempo
Quero assim flutuar
ao sabor do vento

Sou hoje um rio fora do curso
que não retorna jamais
Sou o amigo urso
que traz sempre palavra de paz

Não me deixo sangrar
porque não há sangue
Quero assim desatar
minhas amarras do mangue

Águas passadas por todos os tolos
não movem mais este moinho
Mas moverão outros
adiante do caminho

Não me deixo viver
porque não há mais jeito
Quero assim morrer
de paixão no peito

Por isso me esqueça!
Pois eu firo como lança
e me lanço feito bálsamo
por sobre sua cabeça

1985

Pelas Cruzadas

Mulheres criadas em nome do amor
Amadas, frágeis, pernas cruzadas
Belas, moldadas em barro nas costelas
Mortas pelas Cruzadas

Mutiladas em nome de Deus
Acuadas pelas Cruzadas
Punidas em nome da Cruz
Prostradas à joelhadas

Mortas em nome da vida
Acorrentadas pelas Cruzadas
Feridas em nome do perdão
Pancadas, castradas

Manchadas em nome da salvação
Armadas pelas Cruzadas
Temidas em nome da purificação
Porradas, violadas

Machadadas em nome do Criador
Amedrontadas pelas Cruzadas
Tolhidas em nome da fé
Podadas, queimadas

Machucadas em nome do sacrifício
Amaldiçoadas pelas Cruzadas, pelo Sagrado Manto
Ungidas com sangue em nome do Pai, do Filho
e do Espírito Santo

2007

Submundo

Dos becos, dos guetos imundos
do submundo
saem os rebentos nojentos
os vagabundos

Do canto escuro, detrás do muro
as meretrizes
De algum furo além do futuro
os infelizes

Dos botecos, das biroscas, os bêbados
e seus filhos
Dos viadutos, das pontes, nus nas fontes
os maltrapilhos

* * *

Da Rua das Bichas, nos cantos do antro
Por debaixo das camas, insanas
taradas, caladas, as faladas
moças
Geradas à noite, debaixo de açoite
Em meio a coices, cóccix, coitos, biscoitos
Por entre trouxas, louças, colchas
nas coxas

* * *

Dos prontos socorro, do morro, do mofo
os bandidos
Dos sanatórios, dos nosocômios, do manicômio
os desvalidos

Dos cabarés, dos bares, da vida, do cais, das grutas
as prostitutas
E carcomidos pelos bichos, nas latas de lixo, os fetos
os filhos das cujas

Dos hereges templos, do blasfemo tempo
os falsos profetas
E das infundadas teses, das fedidas fezes
nós... os poetas

1986

Quem sou eu

Minha foto
Niterói, Rio de Janeiro, Brazil
Nasci em 1962, sou casado, tenho dois filhos e adoro simplicidade. Formado em Jornalismo, sempre gostei de brincar com as palavras, de tirar delas o som, o sentido não exposto, o sentimento.