27 de junho de 2008

Jesus Nazareno

Galileo
Trinta e três anos
Pele queimada pelo sol que seu pai lhe deu
Barba e cabelos compridos
De origem humilde
Calça sandálias e anda com mendigos e leprosos
Traz as mãos e os pés tatuados
Tatuados pela tortura dos homens
Se faz acompanhar de agitadores
De agitadores da fé
Assombra o mundo com frases revolucionárias
Com idéias revolucionárias
Tão revolucionárias como:
“Amai-vos uns aos outros”
“Perdoa os teus inimigos”
“Não vos conformeis com este mundo, transforma-o”
Disse Ele certa vez:
“Faça-se louco para ser sábio”
Por tudo isso, se o encontrar pelos bares
Senta-te à tua mesa
E beba com ele

Autor desconhecido
Adaptação de Eduardo Garnier
1984

Feliz Natal prá todos


Aos que já velhos na veia ainda injetam
Aos que vivem a vida dos que vegetam
À menina que não sabe e vai ser mãe
E ao meu amor que, talvez, se embriague com champanhe
Feliz Natal

Ao soldado do Choque que ontem me bateu
Ao mais novo mendigo que nasceu
Ao peão sozinho lá na obra
E ao meu amor que, talvez, caminhe feito cobra
Feliz Natal

A todos os medíocres nos seus lares
Aos que pernoitam pelos bares
Ao conselheiro que não sabe o que dizer
E ao meu amor que, talvez, morda os lábios de prazer
Feliz Natal

Ao pai carente distante do seu filho
Ao menino sozinho e maltrapilho
Ao bêbado que tropeça nos meus passos
Ao meu amor que, talvez, se embale n'outros braços
Feliz Natal

Ao que tenta se enforcar usando um cinto
Ao que fez da vida um eterno labirinto
Aos loucos feito porcos comendo lama
Ao meu amor que, talvez, agonize n'outra cama
Feliz Natal

Ao governante que não fez e muito prometeu
Ao doente crônico que a família já esqueceu
À que sendo moça quer ser homem
Ao meu amor que, talvez, grite na hora o meu nome
Feliz Natal

À toda espécie de mulher
Ao convento, ao presídio, ao cabaré
Ao que mantêm acesa a chama
Ao meu amor que, talvez, diga que já não me ama
Feliz Natal

Ao que está sozinho agora
Ao que pede perdão e chora
À vadia que se abre prá que'u entre
Ao meu amor que, talvez, veja meu vulto num repente
Feliz Natal

A todos os malditos
De todos os credos, todos os ritos
A todo canto, enfim, onde a saudade me levar
E ao meu amor que em meio a tudo não esquece o meu olhar
Feliz Natal

1980

23 de junho de 2008

O bêbado e o poeta

Há nos cascos um asco itinerante
Há no líquido um híbrido de amante
Há nos bares pares de errantes
Nos olhos do bêbado
pétalas em flor, cacos de vidro
Pois para o mau bebedor
qualquer gota é um litro

Há nas palavras larvas canibais
Há nas frases gases mortais
Há no texto incestos imorais
Nos olhos do poeta
sangue vermelho, tinta preta
Pois para o bom contador
qualquer pingo é letra

Há nos cascos e nas palavras algo indecifrável
Há nos líquidos e nas frases algo nada amável
Há em nós dois um deserto interminável
Nos olhos de ambos
desencontro e solidão
Nas garrafas e nas letras
a gota fatal da ilusão

1987

15 de junho de 2008

Ledo engano

A despeito de tudo
eu ainda te amo
Apesar de cego e mudo
dormindo sei que te chamo
Em respeito à fome
quando sobra eu como
Por confiar no homem
sempre e só me dano

A despeito da fraude
minha rainha eu te proclamo
Apesar de despejado e nômade
nunca fui pra ti cigano
Em respeito ao nome
não me chame assim... fulano
Por tanta noite insone
envelheci mais dois durante um ano

A despeito do passado
não refiz os planos
Adormeci amado
mas foi ledo engano
Lhe estender a mão
é sempre um ato insano
Que fazer, então
se é a você que amo?

2008

Nas entrelinhas

Eu preciso que você entenda
o que não vem escrito nas folhas
E que, afinal, compreendas
que ouvidos não ouvem com rolhas

Eu procuro uma desvairada demais
Infelizmente você não é louca
Quero muito mais que o demais
E, no entanto, você é pouca

Rogo por uma arrogante e rouca
por isso te aceno
Desejo beijos obscenos
mas você não tem boca

Quero mudar de ares
Bebericar pelos bares
Invadir botequins e tabernas
Pena você não ter pernas

Quero achar o tempo perdido
Distorcer o fato torcido
e ao levantar o amor já caído
dizer do amor não duvido

Quero mandar prá longe essa dor
e não ser na vida um ator
Prá não guardar tanto rancor
não basta escrever
muito menos se ler
É preciso entender
o que diz a palavra amor

Quero trazer-te prá perto de mim
e ser na sua vida um plim-plim
O mágico, que não chora no fim
E prá isso basta esquecer
o que não da prá esquecer
que irás logo saber
o que restou da palavra sim

1985

Na Lapa

Na Lapa
tudo se amoita e tudo se comenta
Um exército de fracos
se agüenta
Um libertino à solta
se acorrenta
Na Lapa, todo mundo se senta
E tudo, tudo acaba em sêmen
na placenta

Na Lapa
tudo é quieto e se move
Um pelotão de solitários
se envolve
Um gatuno aos berros
pede que se prove
Na Lapa, todo olhar comove
E tudo, tudo num quarto escuro
se resolve

Na Lapa
todo o sangue se esvai, todo corpo grita
E um batalhão de samangos
se prontifica
Um puritano de cuecas
vomita
Na Lapa, todo mundo pratica
E todo, todo o prazer depois jorra
em bicas

1986

Bonecas

Vejo-te emoldurada nos Arcos
e aterrorizada no Aterro praticas
Indiferente aos embargos, os bagos
oferece pacífica na Atlântica

Nas ruelas escuras
refugiam-se então
Por amor tu procuras
pois ninguém quer solidão

Uns, aproximam-se nervosos
e vão direto ao assunto
Examinam todos os ossos
explicam que é festa em conjunto
Há os que pechincham
o seu carinho
e em teus ouvidos cochicham
falando baixinho

Acompanho-te da Terra do Fogo
às galerias do Alasca
Muitas mulheres fazem teu jogo
só não têm sua casca

De algumas damas
brota inveja e despeito
Outras, com os olhos em chamas
elogiam o quase perfeito
Adolescentes se aproximam
tímidos e curiosos
E entre quatro paredes eliminam
instintos furiosos
Pelos dotes do freguês
estipulas teu preço
e aos que te alugam por mês
viras o corpo do avesso

Vejo-te com naturalidade
em meio a formas artificiais
Pois onde reina a moralidade
residem os imorais

1985

Serpentes no divã

Pai, o teu mundo rola sobre bilhas de rolimã
Esmagando no asfalto as nossas filhas
Desvirtuando a nossa irmã

Enquanto crescemos sonhando com o amanhã
o dia-a-dia vai nos roubando
todo o arfar do afã

Fala-se de guerras no Oriente, Ocidente, em Israel, no Irã
Onde está todo o leite e a promessa do mel?
Desce mestre das nuvens, sai das escrituras, dos templos, do Islã

Não é justo, só por ter Adão comido a maça
eu, que nem o conhecia, ter que por ele gemer
e viver assim nessa vida tão vã

Engolindo sapo, comendo rã
Enquanto as serpentes se deitam ao vento
se espreguiçam, se amoitam no meu divã

Já segurei crucifixo, beijei talismã
Deitei os joelhos por terra e mil vezes rezei
Mas continuo pelas noites vagando com minh’alma pagã

Vou acabar ficando cansada de ser cristã
Tendo que lutar sozinha nessa cruzada
com tanto falso titã

É meu pai, eu só queria voltar pro Paraíso e levar uma vida sã
O que preciso?
Será que tenho que ser um Deus, Zeus, Buda ou Tupã?

1985

13 de junho de 2008

No corredor

Não faz assim
Não maltrata
Sorri prá mim
Não seja ingrata
E lembra, meu bem
que um dia é da caça
o outro do caçador

Não faz piada
Não humilha
Não dá risada
Sua filha...
Mas lembra, meu bem
que hoje é de graça
amanhã tem cobrador

Não faz de tonta
Por favor
E agora conta
outro caso de amor
E lembra, meu bem
que um dia a gente se ama na praça
n’outro a gente se mata no corredor

1986

1 de junho de 2008

Bendita

Bendita a nação
cujo Deus
é o senhor

Maldita a razão
que em olhos teus
chama de amor
Acredita a ilusão
que a todo réu
inocentou
Repita a versão
a todo céu
quem decorou
Mal escrita a canção
que só de fel
se impregnou
Mas não excita a oração
que só do mel
se lambuzou

Maldita a nação
cujo Deus
crucificou

Bendita a razão
que os olhos teus
não enxergou
Acredita na aversão
que a todo réu
só condenou
Repita a ilusão
a todo céu
quem degolou
Mal escrita a oração
que só de fel
se amargou
Mas não excita a canção
que só do mel
sempre sugou

O que fazer se a maldita acredita
na bendita escrita que excita?
Então repita

2006

América

Quem não for oco por dentro
sai do centro e escolhe um canto
pois essa dor não agüento
só sai de dentro se eu canto

Quem tá comigo no barco
não tem porque se afogar
pois tenho a flecha e o arco
e tenho porque me afobar

Quem tá de beca num beco
tem que arregaçar
pois pra sair do cerco
cê tem que cercar

Quem tá vivo na vida
vive prá duvidar
sei que você duvida
mas eu vou revidar

Quem tá sozinho no escuro
arma el salto, traspassa el muro y se arma
hás usted el futuro
yo juro, la ditadura desarma


* * *
Quem brinca sempre com fogo
é fogo, vai se queimar
Mas faço sempre esse jogo
que é pra vida rimar

Quem rima certo ou errado
nas pobres e nas ricas
vou lhe mandar um recado
deixa o ódio esvair pelos poros em bicas
Rimo gado com gado, fogo com fogo
E de recado em recado
sem estar mascarado
trapaceio no jogo

Rimo governo com capataz
rimo povo com gado
Só não rimo força com paz
e não vou me deixar ser levado

Quem tá profundo no mundo
tem que vagamundar
Pois quem no mar vai pro fundo
é porque sabe nadar

Quem não berra na guerra
tiene que guerrear
Pues quem pisa los pies em lá tierra
no va de dejar pisar


1984

Minhas palavras

Sou dionisíaco, eu sei
Mas meus verbetes
são como os traços de Apolo
Perfeitos, sóbrios
...e chora em seu colo

Sou incrédulo, eu sei
Mas minha letra
é como a magia de Tupã
Irradia uma aurora infinita
...e anuncia o amanhã

Sou bandido, eu sei
Mas minhas falas
são como as balas do xerife
Abalam as bases dos audazes
...e solta o patife

Sou desafinado, eu sei
Mas minha voz
é como canto de sereia
Naufraga você que é viajante
... e molha a areia

Sou parvo, eu sei
Mas minha escrita
é como o sábio Salomão
Parte ao meio os inocentes
...e perde a razão

Sou injusto, eu sei
Mas meus versos
são como a justiça de Pilatos
Lava as mãos
...e livra os insensatos

Sou pequeno, eu sei
Mas minhas palavras
são como a funda de David
Afundam a fronte do gigante
...e olha ele ali

1986

Conto de horror

O amor é um encantador
que a serpente não despertou
É cantador
que prá mim nunca bisou

O amor encanta a dor
e a muito tolo matou
E canta a flor
que nunca desabrochou

O amor num canto esmagou
quem do amor debochou
É um conto de horror
qu’essa mulher me contou

2007

Quem sou eu

Minha foto
Niterói, Rio de Janeiro, Brazil
Nasci em 1962, sou casado, tenho dois filhos e adoro simplicidade. Formado em Jornalismo, sempre gostei de brincar com as palavras, de tirar delas o som, o sentido não exposto, o sentimento.