"E entrou Jesus no templo de Deus e expulsou todos os que vendiam e compravam no templo, e derrubou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombas. E disse-lhes: Está escrito que a minha casa será chamada casa de oração. Mas vós a tende convertido em covil de ladrões". Mateus 21:12 e 13.
Vendo sangue, vendo pus
Vendo o cego que toca blues
Vendo o sol, me lembro
E te vendo a luz
Por trinta dinheiros vendo
Jesus
E, por último, te vendo a cruz
Vendo cargo, vendo voto
Vendo a semente que gera broto
Vendo o Alvorada, me lembro
E te vendo o Torto
Por muito pouco te vendo
O corpo
E, por último, me vendo morto
Vendo alívio, vendo pânico
Vendo o escarro que causa vômito
Vendo o Pacífico, me lembro
E te vendo o Atlântico
Por um riso vendo
O cômico
E, por último, me vejo atônito
Vendo o excesso, vendo a falta
Vendo as luzes da ribalta
Vendo a manchete, me lembro
E te vendo a pauta
Por ganância vendo
Ações em alta
E, por último, vivo à flauta
Vendo por baixo, me vendo por cima
Vendo o sexo da menina
Vendo o texto, me lembro
E te vendo a rima
Por mais ouro vendo
A mina
E, por último, bebo urina
Velho, me vejo
E, no espelho, eu de joelhos
Cansado, exausto, manco, todo enfermo
Vendo um olho que vê a esmo
Vendo o amigo, me lembro
Roubo e vendo a mim mesmo
Vendo a calça, a casa, o terno
Vendo a lembrança do momento mais terno
Vendo a tempestade para esfriar o inferno
Vendo, me vejo
E, no varejo, me vendo inteiro
Baço, fígado, rim... qualquer dinheiro
Vendo um pênis cheio de desejo
Vendo a boca, me lembro
Lambo, invejo e vendo o beijo
Vendo um olhar certeiro
Um dente de ouro, o beiço, o queixo
E, por último, vendo o primeiro
2006
2006
