29 de outubro de 2007

Vendilhões

"E entrou Jesus no templo de Deus e expulsou todos os que vendiam e compravam no templo, e derrubou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombas. E disse-lhes: Está escrito que a minha casa será chamada casa de oração. Mas vós a tende convertido em covil de ladrões". Mateus 21:12 e 13.

Vendo sangue, vendo pus
Vendo o cego que toca blues
Vendo o sol, me lembro
E te vendo a luz
Por trinta dinheiros vendo
Jesus
E, por último, te vendo a cruz

Vendo cargo, vendo voto
Vendo a semente que gera broto
Vendo o Alvorada, me lembro
E te vendo o Torto
Por muito pouco te vendo
O corpo
E, por último, me vendo morto

Vendo alívio, vendo pânico
Vendo o escarro que causa vômito
Vendo o Pacífico, me lembro
E te vendo o Atlântico
Por um riso vendo
O cômico
E, por último, me vejo atônito

Vendo o excesso, vendo a falta
Vendo as luzes da ribalta
Vendo a manchete, me lembro
E te vendo a pauta
Por ganância vendo
Ações em alta
E, por último, vivo à flauta

Vendo por baixo, me vendo por cima
Vendo o sexo da menina
Vendo o texto, me lembro
E te vendo a rima
Por mais ouro vendo
A mina
E, por último, bebo urina

Velho, me vejo
E, no espelho, eu de joelhos
Cansado, exausto, manco, todo enfermo
Vendo um olho que vê a esmo
Vendo o amigo, me lembro
Roubo e vendo a mim mesmo
Vendo a calça, a casa, o terno
Vendo a lembrança do momento mais terno
Vendo a tempestade para esfriar o inferno

Vendo, me vejo
E, no varejo, me vendo inteiro
Baço, fígado, rim... qualquer dinheiro
Vendo um pênis cheio de desejo
Vendo a boca, me lembro
Lambo, invejo e vendo o beijo
Vendo um olhar certeiro
Um dente de ouro, o beiço, o queixo
E, por último, vendo o primeiro

2006

25 de outubro de 2007

Pude te amar

Em que cais, em que porto, que barco, que mar
Com que bote, que bóia, que remo e nadar
Mergulhar não deixar nosso amor naufragar
Ancorar em teu corpo seguro e de amor me afogar
Com que corda, corrente e que laço irá me salvar
Se amarrar os teus passos eu sei que não dá

Em que rua, que praça, que casa, que lar
Devo entrar sem bater pro teu corpo encontrar
Com que chave, que toque e que senha usar
Desvendar seu segredo sem medo já sei não vai dar

De que modo, que braço e que força fazer prá abraçar
O teu peito apertar para então nunca mais te soltar
Com que cara de culpa, desculpa, que culpa imputar
Se um cara e de cara mais nova ao seu lado deitar

Com que fome, que sede, vontade e saudade te amar
Te agarrar e beber dessa fonte defronte pro mar
E que urro, que berro, gemido, que grito vou dar
E gozar na certeza de um tempo que não vai voltar

Com que tinta, em que tela, que quadro pintar
Essa história tão linda de amor que nasceu prá apagar
E que prova, que gesto, que jura mais pura eu podia te dar
Eu te dei minha vida, querida, e agora você sei que vai me deixar

De joelhos, cansado, suado, chorando pedir prá você só ficar
Só me dar mais um pouco, uma noite, um minuto, um olhar
Prá que o tempo não possa nos ver e fingir não passar
Prá que eu tenha amanhã, pelo menos, mais tempo a contar
Prá que o tempo futuro o passado possa recontar
E lembrar que você já foi minha e que um dia eu pude te amar

2007

Quem sou eu

Minha foto
Niterói, Rio de Janeiro, Brazil
Nasci em 1962, sou casado, tenho dois filhos e adoro simplicidade. Formado em Jornalismo, sempre gostei de brincar com as palavras, de tirar delas o som, o sentido não exposto, o sentimento.