31 de julho de 2008

A dois passos

A dois passos do abismo
lembrei do que deixei prá traz
O sorriso dos filhos
O olhar da amada querendo mais

A dois passos da eternidade
pensei no que perdi pelo caminho
A brisa do mar
Outro bebê no carrinho

A dois passos do fim
entendi o que valia a pena
Um raio de sol
Um requebro de morena

A dois passos de me perder
compreendi o que é o amor
Os mistérios do infinito
A simplicidade da flor

A dois passos de me encontrar
descobri o que realmente sou
Um pequeno detalhe
Uma gota que evaporou

A dois passos do que não sei
sei em que vou me transformar
Retrato sem cor
Adubo bom prá plantar

2008

Nós dois

Eu e ela somos um par
Um paralelo
Quem sabe a gente se vê no infinito
Quem sabe o paraíso é belo

Ela e eu somos um só
Um só descaminho
Mas quem sabe a gente bate de frente
Quem sabe tira um fininho

Eu e ela somos a parte da Via Láctea
que ninguém penetrou
Quem sabe a gente se descobre
Quem sabe Deus puxa o cobertor

Ela e eu fomos santificados
Mas vai devagar com o andor
Quem sabe o santo é de barro
Ou quem sabe é falso o pastor

Nós dois somos a peça
que o destino pregou
Quem sabe a gente se esquece
Quem sabe ela fica e eu vou

1986

30 de julho de 2008

Nossos ratos

Os ratos daqui têm patas grandes
Dedos longos, mãos gigantes
Vestem pelica em patas de elefante
Bons oradores, bem falantes

Os ratos daqui fecham negócios
Negociatas, acordos mirabolantes
Levam o futuro ao abismo
com mãos ao volante

Os ratos daqui depois de eleitos
mostram as unhas gigantes
São lebres, leves, livres
e adoram diamantes

Os ratos daqui dão mil presentes
Esposas, sobrinhas e amantes
Discursos históricos, manchetes
corpo-a-corpo ofegante

Os ratos daqui são imunes
e adoram palanques
Firmes em defesa dos fortes
Nacionais ou ianques

Os ratos daqui em nome da segurança
a qualquer hora chamam os tanques
E se a vida não anda, empurra
que ela pega no arranque

Cansado, arrumei um gato
e pus no mesmo palanque
Mas o gato, asno, surdo, distante
Coitado, tem orelhas de elefante

2008

Reeditando a vida

Rejuvenesci meu corpo
envelhecendo um pouco a mente
E me embriaguei feito louco
em tua lucidez demente

Reacendi a chama do amor
apagando de mim o teu fogo
E me embrenhei por outras matas
mudando as regras do jogo

Readquiri confiança
desconfiando de tudo
Fingir-se cego
Tornar-se mudo

Refiz todos os textos
com lápis colorido
Atirei pedras
em minhas telhas de vidro

Reinventei o tempo
invertendo a lógica
Vi com outros olhos
e de outra óptica

Reaprendi na cartilha da vida
a repartir as cartas na mesa
Mas a guardar os trunfos na manga
e roubar com sutileza

Retirei de meu peito o teu feitiço, viu?
E me rebelei contra você, feiticeira vil
Redescobri, desde então, meu melhor sorriso de anil
Pois você foi tempestade passageira cá nos céus do Brasil

1982

28 de julho de 2008

Sangue no sommier

Nas mil e uma noites mal dormidas
a coberta parece que acoberta formigas
É quando o inseto do amor vem morder
deixando os ferrões nos ferros do sommier

Luzes e estrelas na rua
e eu aqui quase nua
com o suor a escorrer
pelo corpo do sommier

Sensações estranhas
Alguém tocando as entranhas
Coisa gostosa assim de morrer
E sonhos adormecidos no sommier

Um dos dois se vira no quarto
Outro remexe com os quartos
Sente vontade de se perder
e de ter alguém por cima no sommier

A outra metade saiu prá se divertir
E talvez carinhos com outra vá dividir
Então não há como conter, quero ter
e ponho alguém ao meu lado no sommier

Que bom é sentir o que sinto agora
Pena que já está chegando a hora
da outra metade aparecer
e apagar de novo o fogo do meu sommier

Virou uma festa o meu solitário entardecer
Sussurros, suores, sons, soluços...
Momentos loucos de puro prazer
e eu virada de bruços no sommier

Por que ele tinha que a chave esquecer?
Gritos, tiros, sangue, correria de passos...
Momentos de insanidade e tudo, então, se perder
E eu morta de bruços nos braços do sommier

1985

1 de julho de 2008

Praga

Como Barrabás fugiu da cruz
Como o diabo evita Jesus
Feito náufrago em luta com urubus
Igual a quem se debate
contra um câncer
Como Guevara, inutilmente,
fugiu de Banzer

Como o pescador fugiu da tempestade
Como o louco evita a realidade
Feito o camponês correndo da cidade
Igual a quem diz sim
querendo dizer não
Como o gato, sempre,
foge do cão

Como Cristo fugiu da Galiléia
Como o cordeiro evita a alcatéia
Feito Glauce presenteada por Medeia
Igual ao condenado
confinado em Alcatraz
Como a virgem, em vão,
foge do rapaz

Como a presa fugiu do predador
Como a graça evita o pecador
Feito o solitário renegando outro amor
Como o negro escravo tentou
quebrar suas amarras
Você pensou, desesperadamente,
em se livrar das minhas garras

Mas como praga que devora a plantação
Como chaga crônica que nasceu de um arranhão
Feito sepse que leva à amputação
Como sombra ao meio dia
que persegue os próprios passos
Eu te prendi, apaixonadamente,
no mais estreito dos abraços

2008

Quantos de nós?

Na noite escura
segue um homem sozinho.
Ele busca o amor,
o afeto e o carinho.
Eu vejo em seu rosto
que ele tenta esquecer.
Bebe. Mas beber não resolve.
Melhor seria morrer.
Desilusão de amor?
Paixão recolhida?
Ninguém sabe o que é.
Mas é profunda a ferida.
Em qualquer canto ele dorme,
em qualquer bar ele entra.
O seu corpo cansado
em qualquer mesa ele senta.
Quantos deles vagueiam
perdidos na rua?
Em vão, vão procurando respostas
nas garrafas e na lua.
E dia após dia
a saudade aumenta.
Essa paixão não se esfria,
mesmo assim ele tenta:
_ O seu olhar era fogo
e sua voz tão macia.
E ele não consegue esquecê-la.
E isso dia após dia.
Se pergunta por quê
que o amor chega ao fim:
_ Ela foi-se embora
mas não morreu para mim.
Mais uma noite ele vai
tentar a amada esquecer.
E eu, ele e você
de amor, cirrose e paixão
vamos todos morrer.

1980

Quem sou eu

Minha foto
Niterói, Rio de Janeiro, Brazil
Nasci em 1962, sou casado, tenho dois filhos e adoro simplicidade. Formado em Jornalismo, sempre gostei de brincar com as palavras, de tirar delas o som, o sentido não exposto, o sentimento.