30 de maio de 2008

Pela Internet

Talvez eu seja belo, teso e tecle enter
Ou quem sabe eu seja o Belo e esteja preso na Polinter
Talvez eu seja um porco chamurdado em lama
Ou quem sabe um louco fornicando em cama
Quem sabe eu seja culto e pelo mundo viajando
Ou apenas vulto, vagabundo ou tô cagando

Talvez eu seja jovem, esportista e livre
Ou quem sabe nuvem, ativista em greve
Quem sabe seja rápido, precoce, breve
Ou apenas parasita que em outro corpo vive
Quem sabe eu seja puro, com espinhas e chiclete
Ou quem sabe no escuro eu aperte o delete

Talvez quem sabe um pedófilo navegando na Internet
Quem sabe se sou Carlos, Creusa, Marcos ou Janete?
Talvez quem sabe sou um velho traficando pela Europa
Ou quem sabe um nazista que dizimou a própria tropa
Talvez quem sabe um índio cibernético na oca
Quem sabe estou em Londres, num morro, na maloca

2005

Te amo

Não sei se te beijo
ou se te mordo as carnes
Não sei se te aliso
ou se te parto a cara
Não sei se te compro um vestido
ou se te rasgo inteira
Não sei se te envolvo na cama
ou se te chuto na esteira
Não sei se te afago os pelos
ou se te raspo os cabelos
Não sei se te conservo intacta
ou se te defloro os selos
Não sei se te chamo de anjo
ou se te exorcizo feito um capeta
Não sei se te dou guarida
ou se te devolvo, nua, à sua sarjeta
Não sei!

Já sei...
Te bato com arte
Te mordo as partes
Te chuto o seio
Te rasgo no meio
Te arranco os olhos
Te trituro os ossos
Te exorcizo, então
Te escorraço, cão
Mas, tudo é em vão
...Saudade, amor, tesão...

1987

Falsas centelhas

Um me bate, quase estupra e
vai embora
Outro se ajoelha, pede perdão
e quase chora
Mas quando os dois se cruzam no corredor
trocam olhares quase iguais
Como caçadores febris
eles se despem das máscaras
Os animais

Um me cospe, me bate na cara
e simula partir
Outro engole seco, me oferece a face
e agora sorri
Mas quando os dois se esbarram no portão
trocam gestos bem reais
Como guerreiros melanésios
eles planejam chupar meus ossos
Os canibais

Um me ilude, quase acredito
Mas é mentira
Outro me jura, fala em suicídio
e quase atira
Mas quando os dois apertam as mãos
se entregam demais
Pensam ser as centelhas
que me incendeiam por dentro
que explodem o cais
que me queimam na cama
Como, se esquecem o melaço da cana
nos canaviais?

1986

Estudante brasileiro

Sou o retrato, sou o espelho
Sou o rascunho primeiro
Sem sexo, sou o desconexo
estudante brasileiro

Sou correnteza de rio
que não corre pro mar
Sou cadela no cio
que não quer se casar

Sou pivete com frio
e bêbado sem bar
Sou menino do Rio
com parafina no olhar

Sou tartaruga sem casco
que não tem onde viver
Prostituta sem asco
que tudo faz sem prazer

Sou sol sem calor
que não aquece teu corpo
Sou menino moço com dor...
Dor do primeiro aborto

Decompondo feroz as bases
sou o primeiro entre as larvas
Dependente das frases
Prisioneiro das palavras

Quero ser só amanhã uma luz
Que cega por ser tamanho o clarão
Quero ter nos olhos azuis
o mar, o amor e a imensidão

Quero ver brotar
de meu céu-da-boca
estrelas mil
Quero ser com você moça louca
a esperada esperança
do desesperançado Brasil

1984

Quem sou eu

Minha foto
Niterói, Rio de Janeiro, Brazil
Nasci em 1962, sou casado, tenho dois filhos e adoro simplicidade. Formado em Jornalismo, sempre gostei de brincar com as palavras, de tirar delas o som, o sentido não exposto, o sentimento.