21 de dezembro de 2008

Devorar

Dilacerar carnes
Revirar tripas
Ossos triturar
Devorar

Pedir perdão
Rosto no pó
De joelhos chorar
Devo orar

2007

Gênesis

“No princípio, a terra estava informe e vazia.
E, após ter criado toda a natureza terrestre, então Deus disse: ‘Façamos o homem nossa imagem e semelhança. Que ele reine sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos e sobre toda a terra, e sobre todos os répteis que se arrastam sobre a terra’. Deus contemplou a sua obra e viu que tudo era muito bom.”


E o homem agora é quem cria
E creia, cria, incrédulo, um meio de matar sua cria
Sem crime, sem choro, sem som
Eva, expulsa do Jardim
pulsa num vistoso cetim
e exibe novo batom

Inventa o pecado do colarinho branco
Enxerga Eva só de tamanco
e sente o maior frisson
De Deus não é mais a imagem
Descobre a malandragem
a gafieira e o pistom

Não mais come com o suor do rosto
Mas se vê nele o desgosto
que segreda ao garçom
Inventa Neys Matogrosso
Diferente esse moço
Bandido corazon

Deixa a multidão atônita
quando descobre a bomba atômica
e remete “via aérea par avion
Gutenberg cria a Imprensa
Alguém o imprensa
e a faz marrom

Dança não mais conforme o maestro
Decide tudo num gesto
e valsa fora do tom

1986

Tão mais bonito

Tudo seria assim tão mais bonito
se eu te parasse antes dos trilhos
Bem antes dos quinze anos
Antes dos filhos
Por que você não me encontrou?
Eu tava por aí, pela vida,
colecionando ferida

Tudo seria assim tão mais bonito
se eu te topasse antes do cruzamento
Bem antes da abertura
Antes do casamento
Por que a gente não se cruzou?
Eu tava por aí, pelas esquinas,
colecionando meninas

Tudo seria assim tão mais bonito
se eu te encontrasse vindo em contramão
Bem antes da besteira feita
Antes de tanta desilusão
Por que a gente não se topou?
Eu tava por aí, pelos corredores,
colecionando amores

* * *

Mas tudo pode ser assim também bonito
se eu reverter o tempo, se eu brigar com Deus
Bem antes que desabe o que foi dito
Antes que desabe ou que se apague os olhos meus
Por que a gente ainda não terminou?
Eu acho que vou ficar por aí, pela vizinhança,
colecionando esperança

1986

Bruxas

Vou dar um vôo na gaiola
me arrebentando às grades de ferro
Quebraram minha viola
e estão abafando o meu berro

Vou montar meu cavalo
e percorrer esse chão
Se me permitem, eu falo
ou faço um poema-canção

Vou construir alicerces
com bases firmes no amor
Enquanto muita gente enriquece
censurando a voz do cantor


Vou vencer essa luta
prá dividir esse pão
Sei que Deus tá escuta
mas pede cambio e diz não

Vou lançar a semente
e depois recolher os bons frutos
Prá exorcizar num repente
as bruxas dos brutos

Vou ver o dia raiar
e a liberdade nascer
A quarta estrela apagar
e dos ombros dele descer

Ver nossa bandeira de novo
em seu mastro a voar
E na dianteira do povo
um maestro macho a cantar

1979

20 de dezembro de 2008

Ele

Ele tinha um claro medo do escuro
E uma vez naufragou num porto seguro
E tinha um crédito que pagava com juros
E seu tempo passado conjugou no futuro

Ele tinha a coragem carregada de medo
E a melhor das manchetes guardou em segredo
E tinha um gozo tardio que chegava bem cedo
E um membro viril na cabeça do dedo

Ele era um cego que via bem longe
Era um pecador travestido de monge
Recordista que foi, nunca levou nem um bronze
Ficou na reserva, mas jogava nas onze

Ele tinha diploma de trabalho braçal
Sabia ser delicado como coice animal
Fantasiou a vida inteira sem desfilar no carnaval
Morreu muito cedo, prá se tornar imortal

2008

Feito viciada

“... de novo e sempre, feito viciada, eu vou voltar...” Chico Buarque

Eu sei o momento exato
em que você vai voltar
Sei quando a saudade aperta
Você é feito menstruação:
vem depois da febre, da dor
E em espasmos convulsos
quando eu já me rasgo os pulsos...
_ Ai, amor, oh!
Mas também sei o movimento ingrato
que você vai usar
Sei, pois o sorriso entrega
Você é feito ditadura militar:
joga duro e depois afrouxa
E entre gritinhos de tortura
quando chego aos picos da loucura
Eis você arrumando as trouxas

Eu sei o momento certo
em que você vai voltar
Sei quando o meu vulto te persegue
Você é feito o vaivém do mar:
beija rápido a areia e vai embora
E entre espumas flutuantes
quando eu já procuro outra amante...
_ Vem amor, rebola!
Mas também sei o movimento esperto
que você vai fazer
Sei, pois está tudo dentro
Você é feito viúva-negra, mulher aranha:
suga o macho até a morte
E entre veias e teias e cama
quando levanto de novo a chama...
Eis você voando embora pro Norte

Eu sei o momento preciso
em que você vai voltar
Sei quando o meu corpo te faz falta
Você é feito ave de arribação:
desafia os ventos, as tempestades, a pororoca
E entre plumas e penas
quando já bambeio das pernas...
_ Vai amor, coloca!
E aprendi o movimento próximo
que você vai repetir
A intensidade, a posição, o ângulo
Você é feito o peito largo da máfia:
quem adentra em teus braços não se desprega jamais
E entre luxúria e devassidão
quando já se derrama o amor pelo chão
_ Ai amor..., aí..., quero mais!

1987

Morto de viver

Eu não sei mais o que faço
prá que veja que te amo
O seu amor me prendeu num laço
e por ele hoje clamo

Você é o sol que me aquece
A lua que à noite me ilumina
Seu coração não me merece
Porém seu corpo me alucina

Nos seus cabelos eu me perco
Nos seus olhos eu me encontro
Minhas mãos te fazem cerco
e toco você num só ponto

Toco o ponto do amor
Você contorce, se retorce...
Pela dor, pelo ardor
em despudor de meu amor

Eu te abraço, te enlaço
E, enfim, ocupo o seu espaço
Você me nega, me renega
Mas aí você se entrega

Por você, meu amor
o meu sangue se esquenta
Estou te amando e é grande o calor
Meu coração não se agüenta
Estou te amando... e morro de amor

1978

18 de dezembro de 2008

Misericórdia

Vi num espelho um homem, rugas, marcas no joelho
Ar sombrio, pele curtida, olhos vermelhos
Vi no espelho o rosto de um velho
Ao ver os furos dos cravos às mãos, pedi conselhos
Pôs sobre à mesa um surrado evangelho

Vi num sonho uma mulher e manchas no braço
Andar esguio, pele queimada, olhos de laço
Vi no seu passo o gosto do abraço
Ao mirar os seus olhos notei o inchaço
Era a mãe de Jesus, de quem falo onde passo

2007

Foge

Foge prá longe da luz
e se amoita no beco escuro
Que a vida é o retrato
das trevas
Que a vida é o ópio, o mato
as ervas

Foge prá longe da vida
e se entoca no espaço infinito
Que você é a cobaia
dos home
Que você é o fogo, a paia
e consome

Foge prá longe de ti
e se recolhe à redoma de vidro
Que tudo é insano
e podre
Que tudo é engano, é cano
e te cobre

Foge prá longe de tudo
e se perde na fuga louca
Que tudo mais é o resto
das sobras
Que tudo mais é a toca, o ninho
as cobras

1991

Maldita guria

Silenciosamente seco era o seu olhar
e maliciosamente sexy o seu andar
Secamente silencioso era seu beijo
E assim eram meus finais de semana
Já não são mais
Beijando e sendo linguado
Minguando ao ser sugado
Apanhando e acanhado
Abocanhando com a barba a arranhar

Me unia aos seus lábios
sem a beijar
A tinha nos braços
sem abraçar
Olhava para ela e não a via
Mostrava os dentes à ela
mas não sorria

Bendita agonia, pai
Maldita guria, vai
A danada gemia, ai
Deitava e se abria... faz
Chorava e pedia... mais
Por instantes sentia...paz
A maldita até me queria... bem

Uma triste poesia...vem

1984

Antes que chegue amanhã

Hoje
falei com ela
e tomei sua mão
Olhei fundo no fundo imundo dos olhos dela
Senti bater o seu cá no meu coração

Hoje
afaguei seus cabelos
e beijei sua boca
Em pelo, eriçei os seus pelos
A deixei quase louca

Hoje
ouvi sua voz
queimar de tão quente
Desandei e falei e falei sobre nós
Sonhei prá gente

Hoje
parei de beber
e deixei de fumar
Prá não ficar só e ficar só com você
não vou mais sambar

Hoje
piso firme e correto
Acertei meu passo manco
Agora, sim, estou certo e decerto
meu peito eu não mais tranco

Hoje
o imenso mar é pequeno
O sol parece tão frio
O seu beijo é bálsamo e veneno
e prá ele versos eu crio

Hoje
Sou o mais feliz entre os tolos
Sou o que do sonho não acordou
Então espalho prá todos
que um dia a gente se amou

Hoje
e antes que cesse entre nós o afã
Antes que bata à porta o amanhã
Antes que nosso amor bata as asas em vôo
... em vão... antes, bem antes te amar eu vou

1978

Quem sou eu

Minha foto
Niterói, Rio de Janeiro, Brazil
Nasci em 1962, sou casado, tenho dois filhos e adoro simplicidade. Formado em Jornalismo, sempre gostei de brincar com as palavras, de tirar delas o som, o sentido não exposto, o sentimento.