13 de setembro de 2008

Senhora

Quando me amar
preserve as juras
pise a flor
prefira as surras
Pois desconfio delas
e detesto flores
Já que amar é sofrimento
é circo de horrores

Quando me bater
preserve a cara
encoste o taco
prefira o tapa
Pois inda guardo nela
todos os seus beijos
que disparastes rijo
e cheio de desejo

Quando me morder
preserve a aorta
embanhe a faca
não me fure morta
Pois correm por ela
todos os seus vírus
que me passas teso
quando me viro

Quando me chutar
preserve o ventre
recolha as botas
me quebre os dentes
Pois carrego nele
sua mais nova semente
que plantaste bêbado
e com olhar demente

Quando me humilhar
seja bem perverso
me inspire sempre
a escrever mais versos
Pois coloco neles
todo o amor, dor e prazer
Para inverter na cama
e só ali, dominar você

2005

Sexta-feira

Há um cheiro de sêmen pelo ar
Esquecidos gemem pelo bar
pondo em falência a geladeira
Há desculpas de plantão
O velho golpe da reunião
e uma aventura passageira
Porque hoje é sexta-feira

Há uma adolescente que se despe
Um capitalista que investe
e a mulata desce a ladeira
Há um novo amigo que chegou
Um velho amor que se acabou
e um suicídio na pedreira
Porque hoje é sexta-feira

Há um gigante que se ergue
Uma mocinha que se perde
e sempre uma vez que foi primeira
Há pelos becos muito som
Muitas bocas e batom
e o zumzumzum parece feira
Porque hoje é sexta-feira

Há frases sem sentido
Línguas loucas pelo ouvido
Papos sérios e bobeira
Há um vulto, um gemido e alguém sua
Adultério... uma esposa quase nua
Margarida, Dália, Rosa, trepadeira...
Porque hoje é sexta-feira

Há no olhar dessa morena aqui na mesa
promessa de refeição completa e sobremesa
Morena-jambo, filé ao ponto estalando na frigideira
Há muita afinidade em nosso olhar
Poesias iguais prá se trocar
e muita loira fria e saideira
Porque hoje é sexta-feira

Há alguém que escreve um verso
Em cada colo um réu confesso
e uma carícia bem ligeira
Há tanta coisa assim sem nexo
Nas palavras muito sexo
nos corações muita geleira
Pois, invariavelmente, é sexta-feira

1990

De graça não

Se eu tivesse um buraco
Se tu tivesses um buraco
A gente já tinha emburacado tanto
Olha meu taco!

Se eu tivesse uma toca
Se tu tivesses toca
A gente já tinha se tocado tanto
Que troca-troca!

Se eu tivesse um canto
Se tu tivesses canto
A gente já tinha encantado
esse desencanto

Se eu tivesse um quarto
Se tu tivesses quarto
A gente poria de quatro tanto
E o parto?

Se eu tivesse um teto
Se tu tivesses teto
A gente já tinha atentado tanto
Olha o feto!

Se eu tivesse casa
Se tu tivesses casa
A gente já tinha acasalado tanto
Que brasa!

Se eu tivesse um ap
Se tu tivesses um ap
A gente já tinha se apertado tanto
Mais um bebê!

Mas, talvez
Se eu ti desse abrigo
Se tu quisesses abrigo
A gente já teria brigado tanto
... e adeus, amigo

Mas, depois
Que eu te construí um lar
E que você não me quis por lá
Eu te devolvi pro bar
Vamos, mas vou te pagar!

1986

Uns e outros

Há pessoas que são tristes
outras teimam na alegria
Umas se drogam
outras fazem poesia
Há pessoas felizes
outras insistem em ser tristes
Umas vivem
outras não existem

Há muito fantasma
sangue e plasma
Milhões de duendes
inválidos e doentes

Há homens miseráveis
outros fingem ser ricos
À umas, algumas doses
A outros, muitos picos
Há homens que são mitos
outros são infláveis
Uns aspiram
outros só injetáveis

Há muito viajante
esquecido e errante
Milhões de infelizes
atores e atrizes

Há os que vieram só por vir
outros para viver
Uns são
outros querem ser
Há os que amam sem parar
a outros só resta sofrer
Uns possuem
outros querem ter

Há muita dor
ódio e horror
Milhões de sussurros
gritos, urros

1976

Quem sou eu

Minha foto
Niterói, Rio de Janeiro, Brazil
Nasci em 1962, sou casado, tenho dois filhos e adoro simplicidade. Formado em Jornalismo, sempre gostei de brincar com as palavras, de tirar delas o som, o sentido não exposto, o sentimento.