6 de novembro de 2008

Heranças

De meu avô um testamento
De minha mãe só sofrimento
De meu pai toda a ternura
Dum primo gay toda a frescura

De outro avô força e fé
Duma prima o gosto por mulher
De meu tio a paixão pelo Flamengo
E de toda a vida só lamento

De uma tia aversão
De vovó só compaixão
De outra avó roubei o amém
De um irmão nada me vem

Da saudade uma ilusão
De você só traição
Do amor boas lembranças
De ser feliz só esperanças

Da lucidez herdei loucura
De meu padrinho a sepultura
Da desgraça herdei o riso
Já do palhaço, herdei,
bem mais que o guizo

Da claridade herdei a noite escura
Da meretriz a parte pura
Do inferno herdei o paraíso
Já de Deus , herdei,
bem mais do que preciso

2008

Éden

O mundo não é feito de flores
No entanto é um jardim
que exala maus odores
O mundo é uma ferida
cheia de pus
O mundo é o reinado
dos urubus
Vivemos num labirinto de grutas
e somos um exército de prostitutas

O mundo não é feito de amores
É somente um leproso
que se contorce em dores
O mundo é um calvário cheio de cruz
O mundo é um cego
que toca blues
Vivemos num poço cheio de cobras
e somos o resto das sobras

O mundo não é feito prá nós
É apenas uma corda no pescoço
e cheia de nós
O mundo é o esgoto feio e fétido
O mundo é um verso podre
e cético
Vivemos num mar de sangue
e somos o lixo do mangue

O mundo não é feito de sóis
No entanto é a mancha do amor
nos lençóis
O mundo é um errante tétrico
O mundo é um verso triste
e métrico
Vivemos num desfiladeiro de tanques
e somos o excremento ianque

O mundo não é feito de poesia
É um faminto canibal
que devora a própria cria
O mundo é um parto prematuro
Um aborto solitário
feito no escuro
Vivemos numa metamorfose de almas
e somos os atores sem palmas

O mundo não é feito como eu queria
No entanto ele existe
e me espia
O mundo é um nojento dedo-duro
O mundo é a praga, a chaga
a hera no muro
Vivo a dominar minha calma
e sou o mutante do trauma

1990

Tropeços

Vidas, tantas vidas
num deserto
de carinho
Pedras, tantas pedras
que puseram
no caminho
Vinho, tanto vinho
nos botecos
e eu sozinho

Pelos, loiros pelos
Tantos dedos
e outro bebê no carrinho
Peles, loiras peles
Tantas mãos
que escorregam no linho
Pestes, loiras pestes
Tantos dentistas
Tanto rico vizinho

Rosa, muitas Rosas
Pouco perfume
Muito espinho
Galhos, muitos galhos
com seus gravetos tão secos
que incendeiam o ninho
Pétalas, muitas pétalas
Malmequer...
e meu bem me quer sozinho

Gente, quanta gente
que me passa voando
que tira fininho
Beijos, quantos beijos
Quanta boca sadia
Nenhum batom no colarinho
Pernas, quantas pernas
Pernas pra que te quero?
Deixa eu tropeçar sozinho

1986

Cê sabe?

Cê sabe o que é andar
sem saber aonde ir?
Sabe o que é ir
sem saber se vai voltar?
Sabe o que é tentar voltar
e nunca mais se encontrar?
Cê sabe o que é encontrar
e não saber o que fazer?
Sabe o que é fazer
sem sequer sentir prazer?
Cê sabe o que é o prazer?

Cê sabe o que é dormir
e não querer acordar?
Sabe o que é acordar
e de novo da vida apanhar?
Sabe o que é apanhar
e não poder gritar?
Cê sabe o que é gritar
e ninguém te ouvir?
Sabe o que é ouvir
mesmo sem querer?
Cê sabe o que é o querer?

Cê sabe o que é amar
sem querer se machucar?
Sabe o que é machucar
sem fazer sofrer?
Sabe o que é sofrer
e nunca mais se curar?
Cê sabe o que é curar
e a ferida de novo se abrir?
Sabe o que é abrir
e nunca mais fechar?
Se sabe, sabe o que é amar

1979

Quem sou eu

Minha foto
Niterói, Rio de Janeiro, Brazil
Nasci em 1962, sou casado, tenho dois filhos e adoro simplicidade. Formado em Jornalismo, sempre gostei de brincar com as palavras, de tirar delas o som, o sentido não exposto, o sentimento.