8 de outubro de 2009

Conserto em si

Conserte Deus o que, por acaso, tenha mau cheiro
e aos olhos do homem seja apenas simples argueiro
o que não lhe pareça tão puro ou tão verdadeiro
Conserte o prédio e antes o traço do engenheiro
Conserte o prumo e acerte a mão de todo pedreiro
Conserte os gastos de todo aquele que ama o dinheiro
Conserte o último para que chegue sempre primeiro
Conserte o rumo e refaça a rota do timoneiro
Conserte o espinho e o amargo do limoeiro
Conserte o resto do que um dia já foi inteiro
Conserte o pinto para que o jato ache o banheiro
Conserte o cágado e o faça agora muito ligeiro
Conserte o que fiz no carnaval e acabe com o mês de fevereiro
Conserte a virgem em quem um dia entrei por primeiro
Conserte o chute e que não encontre grande goleiro
Conserte o povo e que ele seja bem mais brasileiro
retire a placa onde está escrito grande puteiro
Conserte a rima e que não se acabe somente em eiro
Conserte esse texto e conserve a tinta de meu tinteiro

* * *
Conserto com certa pressa, conserto na vida uma só peça
Conserto o concerto do maestro, conserto o canhoto e o torno destro
Conserto o sonho de ser feliz, conserto o que o que nunca fiz
Conserto o certo só por capricho
como a terra conserta os ossos
depois que aterra e entrega aos bichos
Conserto e estou certo que nunca acerto
Conserto o acerto, o assento, refaço o texto
Conserto a partida, revejo o contexto
para o primeiro chegar em sexto
Conserto e ponho no altar a meretriz
Conserto a lição com pó de giz
Conserto com amor quem me fez feitiço
Como a lágrima conserta os olhos
quando peço a Deus que me livre disso
Conserte o amor que já foi desfeito
Conserte até sem achar defeito
Conserte a alma, conserte o peito
Conserte o eleitor para consertar o pleito
Conserte o que está eleito
Conserto, confesso, com certa descrença
Conserto a traição com indiferença
Pai, conserte a mente de quem não pensa
e conserte o nascer na renascença
Conserte em ti o que há de melhor
Conserte por dentro a si, menor
pois o concerto, maestro, só em si maior
Deus, só não conserte a mulher que a noite comigo passa
Se não a vida não me terá mais graça

2009

Um cântico

E que se lavem as mãos sujas
E que me troquem por um ladrão
E que atirem pedras como atiram nas cujas
inda assim lhes estendo a mão

E que riam eles de mim
E que me malhem feito um judas
E que aproximem o meu fim
mas deixarei na terra muitas mudas

E que me coloquem à roda dos escarnecedores
E que leiloem minhas vestes
E que me crucifiquem entre dois pecadores
inda assim perdoarei estas pestes

E que me depositem uma coroa de espinhos
E que me transpassem o corpo
E que se espantem os vizinhos
pois ressuscitarei inda que morto

1986

Tantos enganos

Tantos enganos
que eu cometi
através desses anos
que não vivi
Quantos foram os corações
que feri?
Não contei
Tantos risos
que engoli
engasgados em sorrisos
que não sorri
Quantas foram as ações
que vendi?
Não numerei

Tantas mentiras
me obrigaram a mentir
Tive momentos de ira
Tive a cabeça a zunir
Quantos foram os mendigos
que me deram esmolas?
Não sei
Tantas noites de choro
atravessei sem dormir
Tão pouco consolo
ninguém, ninguém prá me ouvir
Quantos foram os amigos
que se foram embora?
Não sei

Tantas tardes tristes
Tanta noite vazia
Tantos dedos em riste
Tão pouca poesia
Quantos beijos guardei
Quanto choro abafei
Só eu sei
Tanta vida passando
e eu nem percebia
Tanta gente se amando
e eu sozinha bebia
Quantas lutas com o rei
Quanto a Deus blasfemei
Só eu sei

Tantas festas e encontros
Tanto por ti procurei
Tantos poemas e contos
Tanto, tanto sonhei
Quantos textos rasguei
Quanta palavra inventei
Quanto amor sufoquei

1985

26 de agosto de 2009

Só você me diz

Sou inexato e vago
e o que pego bom estrago
Sou nefasto e cago
no pouco bom que trago

Sou ineficaz e torto
e se pego vivo entrego morto
Sou inexperiente e tolo
madeira podre que parece ouro

Sou insano e louco
e se tenho muito acho que é pouco
Sou nojento e mocho
firme feito laço frouxo

Sou impuro ao mesmo tempo casto
e o que ganho hoje eu gasto
Sou excremento que largaram ao pasto
Bandeira que voou do mastro

E é só você que diz
que sou insuperável e máximo
Que sou seu distante próximo
que não sou bastante ácido
que tenho um olhar tão plácido
capaz até de lhe fazer feliz

2009

Amigo urso

Deixa-me ser teu amigo
o amigo urso polar
Receba os meus braços
e esse abraço da tamanduá

Quero ser teu melhor presente
em embalagem grega e de luxo
Ser tua capa-de-filé
encapuzada de bucho

Vem prá minha cidade sorriso
que sorri cariado
Sou o espantalho do campo
que te espanta espantado

Sou a luz que surge
ao fim do túnel escuro
e venho à frente da locomotiva
que descarrila o futuro

1985

Conversa ao pé da cama

Essa relação vem de berço
De muitos anos atrás
Vovó dava nosso endereço...
e assim se comprava o gás

Hoje, envolta em lençóis finos
nesse quarto de hotel
E todos esses granfinos
me abrindo e abrindo as portas do céu

Foram tantos falsos gemidos
gerando contas-corrente
Tantos tantos maridos
tanto amor, tanta dor, que horror, tanta gente

Agora deixa eu caminhar
com meus próprios pés
E só então comandar
de meu próprio convés

* * *

Teus pés são bonitos
De madeira de lei
Porém os meus são aflitos
e me mostram que errei

As ripas de teu estrado
parecem que moldam um catafalco
Onde um corpo estirado
jura, atura e mistura sujeira com talco

Teu balançar me relaxa
mas o meu vaivém me indispôs
Na hora do gozo me achas
e usa, abusa, acusa e esquece logo depois

Vou unir minhas coxas aos seus colchões
pela derradeira última vez
Quero sentir prazer nas paixões
e amar a um homem por vez sem ter que chamar de freguês

1985

25 de agosto de 2009

José

Sou José do Nascimento
José desde o nascimento
Fui José todo o momento
Sou José por todo tempo

Sou José desde pequeno
José que vive indo
Fui José sempre terreno
Agora sou José que está subindo

Sou José desde garoto
e nunca soube o que dizer
Nasci José, cresci no esgoto
Sou José não sei do que

Sou José magro e franzino
José surdo e calado
Fui José desde menino
Sou José e estou cansado

Descendo o Nilo, sou José do Egito
Aos pés da cruz de madeira, carpinteiro
Sou José de Arimatéia
Como Jesus, a vida inteira, inteiro
Sou José da Galiléia

Zé disso, José daquilo, sou José do grito
Zé do trem, Zé nordestino, Zé de Natal, Zé de Belém
Zé com fome, Zé com medo, Zé aflito
Zé rico e sem vintém, Zé da Velha, Zé Neném
Zé da vida sem ninguém

Sou José, mas não pedi
e como José sempre vivi
De outro José eu sei que vim
e como José quero partir
Fui José a vida inteira
Sou José, sou Eduardo, Garnier e sou Teixeira

2009

Bêbadas vigílias

Em tuas bêbadas vigílias
você é loira e o olho não pisca
Mas me sinto sua caça
e me exponho feito isca

Em tuas bêbadas vigílias
não és mulher, pois és pura
E se embriaga e também se estilhaça
És a bêbada do curso que inveja os bem vividos

Em minhas bêbadas vigílias
me sinto um teu vigia
e te persigo com o olhar
E em nossas bêbadas vigílias
Trocamos poesia
bebemos de bar em bar

Sim, sou o bêbado da corte
e és a bêbada que furto

* * *

Em tuas bêbadas vigílias
você é a loira que o olho não pisca
Não me dá uma pista
mas olhares doces arrisca

Em tuas bêbadas vigílias
a loira suada é quem te possui
E te sufoca, e te corrói, e te polui
És a bêbada do corte que dilacera os meus sentidos

Em minhas bêbadas vigílias
sonho com os meus dedos
se degelando nos seus ossos
E em nossas bêbadas vigílias
trocamos sons, quase segredos
encharcados de remorsos

Enfim, sou o bêbado-da-corte
e és a bêbada que curto

1985

Verso infinito

Pelas ilhotas do mar
Pelos confins dessa terra
Pelas mesas de um bar
e pela boca do que berra
solto meus gritos
No peito dos ricos
Na cabeça dos tolos
Nos altos, nos picos
em novelos e rolos
enrolo conflitos

Pelos bancos das praças
Pelos botecos da avenida
Pelo passo manco das massas
e os bonecos da vida
é que escrevo aflito
Pelos amigos de sempre
e os inimigos do dia-a-dia
Pela raça da gente
Por não ter pão e ter poesia
meu universo é infinito

1984

23 de agosto de 2009

Bom demais

Ontem tudo
Hoje exagero
Amanhã nem tanto
Despedida, abraço em pranto

Ontem enorme
Hoje grande
Amanhã só cacos
Mentiras, versão dos fatos

Inda que fosse verdade
eu negaria
E se sentisse saudades
não voltaria

Inda que fosse veneno
eu beberia
Mas se mostrasses a língua
não beijaria

Só mais uma frase
Um sorriso e nada mais
Amar você, confesso
era bom demais

2008

Borboleta noturna

Vestiu meu vestido
Passou meu batido batom
Fez um passo esquisito
Mudou compasso e tom

Pintou a boca em coração
Usou salto alto e cetim
Esqueceu da combinação
e esqueceu-se de mim

Minha menina se foi
levar a vida que quis
Seu homem vai ser boi
e ela vaca feliz

Lapa, Praça XV, Mauá...
Caberá em qualquer cabaré
E em qualquer mafuá
minha menina será mulher

Com olheiras roxas
e exalando horrível odor
Com marcas nas coxas
na Comarca do doutor

Fará amor sem amor
Sentirá prazer sem prazer
Sem asco ou pudor
mudará de “A” para “Z”

Até que carente gerente
ou bem sucedido doutor de escritório
financie vida decente
e casamento em cartório

A noiva da cidade
agora é dondoca
Na fina flor da sociedade
ela hoje se entoca

De vinhos bons se entope
De lindos tons se veste
Pros velhos amigos um choque
pois só pro marido se despe

Não come ovo, nem bucho
Põe no bucho o gostoso do bicho
Da Boca do Lixo
pro bafo de luxo

Das manchas de “O Dia”
prás manchetes do Ibrahim
Quem prosa posa à fotografia
já foi verso e prosa em botequim

Já pode trazer a família do Norte
e já não quer maldizer o destino e a sorte
O passado do corpo é página virada
desde a chegada ao topo da escada

As colunas estão cheias
de “divinas cocadinhas nota dez”
que já foram deusas feias
e que se vendiam por cem mil réis

1984

6 de fevereiro de 2009

Somorra

Enquanto homo ereto
é certo: como, enxerto
E, culpado, aborto o feto
e espanto como inseto
o neto que fizeste olhando o teto
Que após sugado é morto e infecto

Engano, engodo, lodo...
Não me vejo de outro modo
E austero e tímido
esbanjo e escarro outro gemido
Insano, encanto o lobo
E não me vejo como louco
Rápido e leve
espanto e escarro em quem me deve

Luto em desacordo
e acordo preguiçoso e gordo
Em desvario até lhe mordo
Chuto prá escanteio
E, receio, presunçoso e feio
que em cio lhe deflore o meio

Em Sodoma espero
que ninguém me coma
só que me libertem da redoma
e me acordem o corpo desse coma
Em Gomorra, cuidado:
não corra, não mate, só morra
Não me livre do pecado
só não deixe que me afogue em porra

Gomorra, pecado, masmorra...
Tortura de novo, que porra
Não viva, não morra
Não pare, não corra

Sodoma, pecado, redoma...
Frescura de novo, que zona
Não trepe, não toma
Não fode, não coma

2009

Fiz um samba

Fiz um samba
Fiz mais um
Que não falava de dor
mas falava de amor algum

Fiz um samba sincopado
Com o verso rebuscado
Coisa assim bem comum
Quem sabe imitando o Paulinho
Ou talvez invejando o Buarque
Fiz um sambinha de araque
que evapora feito um pum

* * *

Eu já tentei ser um bamba
mas confesso que desisti
Pois ser bamba não é fácil
é mais difícil que parir

Fiz um samba meio tolo
Que se enrola e faz um rolo
Coisa bem incomum
Quem sabe imitando a vida
Talvez invejando os felizes
Fiz um samba em mil matizes
prá ser sucesso em dois mil e um

1986

Farpas

Eu não quero mamar nas tetas
da solidão
Por isso vou à guerra
de arco e farpa na mão

Também não quero um amor
gerado nas coxas da ingratidão
Por isso vou deflorar o sexo dos anjos
co’a minha mão

Eu não quero me afogar num mar
só por ele ser feito de prazer
Por isso vou nadar próximo à praia
agarrado à saia
de meu bem-querer

Também não quero que me chamem covarde
só por ter pensado em correr
Por isso vou correr com as pernas bambas
vestindo trocado as tangas
trocadas na hora “h” do prazer

Eu não quero esmolas do amor
Viu, quero não
Quero uma conta-corrente nos bancos de areia
de teu coração

Eu não quero sacolas da vida
para encher de saudades não
Que eu já de saco cheio
com tamanha recordação

1985

Teu colo

Teu colo tem jeito de leito
Teu colo tem cheiro de berço
Nele, o abrigo perfeito
Teu colo... será que mereço?

Teu colo tem balanço de mar
Em teu colo um menino eu pareço
Nele, todo o encanto do amar
Teu colo... será que mereço?

Teu colo tem gosto de leite
Teu colo vou virar pelo avesso
Nele, o mais lindo enfeite
Teu colo... será que mereço?

Teu colo tem aconchego de rede
Em teu colo sorrindo eu padeço
Nele, quero afogar minha sede
Teu colo... será que mereço?

Teu colo estrada sem retorno
Teu colo é teu melhor endereço
Nele, o mais perfeito contorno
Teu colo... será que tem preço?

1986

Mestre em sala

Todo dia ele chega
prá cumprir sua missão
Esquece o pequeno e a nega
e se dá todo à profissão
Por entre mapas brilhantes
e a crueldade da história
esquadros gigantes
traçam derrota e vitória
Será que o tablado em que pisa
na verdade não é um cenário
em que todo dia reprisa
o cotidiano diário?

Todo semestre ele fala
que ser mestre é um dom
E a sala toda se cala
mudando o trajeto do som
Por entre forças opostas
e formas gramaticais
há muita moça disposta
a se perder com ele no cais
Será que o mestre sabe o que diz
ou é apenas mais um fingidor?
A vida não é feita de giz
e não se passa o apagador

Todo ano ele passa
o que guardou pelos anos
e a classe toda é comparsa
de seus sonhos e planos
Por entre números inteiros
e células vivas
perguntadores brejeiros
recebem respostas esquivas
Será que quando escreve
o mestre então não descreve
o quadro-negro de seu dia-a-dia
por rimas ricas sem poesia?

Todo professor guarda um resto
da segunda época da vida
pois a união do saber é um incesto
que o mundo inteiro engravida
Por entre letras e versos
giram átomos velozes
Unindo caminhos inversos
e tornando uma só nossas vozes
Será que quando reprova
não reprovou a si mesmo?
E se o seu ensinar não se renova
o mestre não fala a esmo?

Será que passou a borracha
em todos os erros da classe
ou será então que ele acha
que dos erros o acerto nasce?
Será que usou o giz colorido
no quadro-negro da História
ou será que o seu telhado de vidro
é de transparência ilusória?
Será que o prazer do ensino
com tempo se torna rotina e obrigatório?
E ele, por fim, transforma o menino
em poeta ou caçador predatório?

1985

2 de fevereiro de 2009

Como quem

Nas lutas com gente sempre tive em mente
o bom combate pela frente
E, como quem sem forças, me vi frustrado
Como quem se obriga, me vi forçado
Como quem sem moças, me vi castrado
Como quem se intriga, me vi falado

Nos embates da vida com o tempo
lutei só todo momento
E, como quem exausto, me vi cansado
Como quem se apaga, me vi sedado
Como quem é claustro, vivi fechado
Como quem se afaga, me senti tocado

Nas guerras urbanas
e com o sangue em chamas
Como quem amansa, me vi domado
Como quem se enruga, me vi passado
Como quem descansa, adormeci sentado
Como quem enxuga, acordei molhado

Nas discussões do amor ganhei, perdi...
Mais chorei do que sorri
E, como quem se trai, me vi beijado
Como quem se engana, tive você lado a lado
Mas como alguém que cai e é pisoteado
só mesmo quem não ama pode andar desarmado

2009

Faz de conta

São coisas do passado
que embrulham o presente
São juras irrestritas,
irreais...

Dilacerando o meu peito
Confundindo os meus passos
Me apertando em abraços
que me roubam a paz

E que me soltam em abismos
Em abismos prá nunca mais

* * *

São coisas que vêm à tona
e que detonam bombas
Humilhas, fustigas,
zombas...

Vê o que sobrou de mim
Vê que pobre molambo
Nesse boteco dançando um tango
no reino do faz de conta

E agora é tarde meu bem
Meu olho em outro desconta

1986

24 de janeiro de 2009

Até o final

Inunda, escorre e vibra
Prenhe, explode em vida
Imunda em porre eterno
Preenche, mas sempre terno

Exausto, acolhe o outro
Preso, implode morto
Enxuto, enfermo e crente
É vazio, mas morre gente

Motivado, recolhe os cacos
Amado, amanhece intacto
Bruto, esmaga as flores
De luto, se retorce em dores

Se o início é triste
seu olhar insiste
o pavor persiste
mas o amor resiste

2007

23 de janeiro de 2009

Cabeças gêmeas

Você quer me desnudar? Eu permito
Ateio-te fogo, incendeio-te sem ser palito
Sou geminiano dos pés à cabeça
Se você pede que’u cresça
eu me enterro na terra
E se você disser apareça
ela mais se enterra
Cabeça dura que somente mente e erra
mas que prezo, pois só me fizeram com essa

Você quer me conhecer? Eu deixo
Eu falo muito sem mexer o queixo
Sou inconstante demais
Se um passo a mais
eu não consigo dar
dar um passo atrás
nem pensar
Pois se não me aventuro no mar
também não morro no cais

Você quer me desbravar? Então vem
Eu esbanjo riquezas sem nem ter um vintém
Sou agora o que não sou depois
Na vida vivida a dois
O difícil é serem um só
Muito, muito tempo pros dois
e o laço não vira nó
Se hoje quero estar só
é pra não chorar no depois

1984

Por amor

Algo no ar
Algo no vento
Algo na lua...
e que em meu pensamento
é uma mulher seminua

Algo no sol
Algo no mar
Algo no céu...
e que em meu jeito de olhar
é arrependimento de réu

Algo nas águas
Algo no rio a correr
Algo nas algas...
Que salga todo meu ser
Que me condena e me salva

Algo nos olhos
Algo nas flores
Algo no ser humano...
e que em todos os meus amores
tem um certo “q” de engano

Algo que queima
Algo que adere
Algo que brilha...
e que em meu peito me fere
e que desconhece partilha

Algo no som dos poetas
Algo no andar da morena
Algo que vira todas as setas...
Que em meu peito envenena
e que só com outro amor se conserta

Algo que abre os corações
Algo que desabrocha em flor
Algo que cria mil ilusões...
E que, por fim, leva a marionete do amor
sem amor, por amor, a se enforcar nos cordões

1978

7 de janeiro de 2009

Quem disse?

Num mundo de amor te envolvi
e no mesmo instante da dor me esqueci
Ver teus olhos brilhando assim
foi prá mim
a recompensa que tanto pedi

Numa redoma de vida a você me prendi
e no exato momento o ex-amor vi partir
Ver teu peito arfando assim
foi prá mim
a esperada alegria de paz prá dormir

Num cenário de cores tão vivas vivi
e então nesse instante, feliz, aprendi
a ouvir o teu corpo chamando por mim
Foi assim
que te vi como a estrela que guia a seguir

Quem que disse que a paz não se pode atingir?
Quem te disse que o amor não está nem aí?
Se eu mesmo ao teu lado uma noite dormi
É, foi sim...
E é pena que o sol já vem vindo e que você tem partir

2008

Rimas

Rimo o guri e canivete
A Nascimento Silva com Elizete
Rimo São Paulo e bóia fria
Geral e pancadaria
Bulhões com correção
Judeu com alemão
Mulata, rimo com português
e pacotão com economês

Rimo o travesti e a Lapa
Lãs Vegas com Sinatra
Rimo o Rio com fio dental
Bateria e carnaval
Delfim com inflação
Russo com afegão
Lourinha, rimo com africano
e cara a cara com mano a mano

Rimo a Marrecas com meretriz
O Beco com Elis
Rimo Bahia com povo na rua
Geral, carnaval e gente nua
Roberto Campos com aflição
Coréia com Japão
Índia, rimo com espanhol
e bola no pé com futebol

Rimo polícia com ladrão
A Mangueira com Jamelão
Rimo um Brasil inteiro, meu irmão
sem terra, sem teto e sem pão
Funaro com ilusão
Americano com mete a mão
Mulheres, rimo à costela de Adão
e o verso assim, feito grão, se alastra no chão

1986

Quem sou eu

Minha foto
Niterói, Rio de Janeiro, Brazil
Nasci em 1962, sou casado, tenho dois filhos e adoro simplicidade. Formado em Jornalismo, sempre gostei de brincar com as palavras, de tirar delas o som, o sentido não exposto, o sentimento.