6 de fevereiro de 2009

Somorra

Enquanto homo ereto
é certo: como, enxerto
E, culpado, aborto o feto
e espanto como inseto
o neto que fizeste olhando o teto
Que após sugado é morto e infecto

Engano, engodo, lodo...
Não me vejo de outro modo
E austero e tímido
esbanjo e escarro outro gemido
Insano, encanto o lobo
E não me vejo como louco
Rápido e leve
espanto e escarro em quem me deve

Luto em desacordo
e acordo preguiçoso e gordo
Em desvario até lhe mordo
Chuto prá escanteio
E, receio, presunçoso e feio
que em cio lhe deflore o meio

Em Sodoma espero
que ninguém me coma
só que me libertem da redoma
e me acordem o corpo desse coma
Em Gomorra, cuidado:
não corra, não mate, só morra
Não me livre do pecado
só não deixe que me afogue em porra

Gomorra, pecado, masmorra...
Tortura de novo, que porra
Não viva, não morra
Não pare, não corra

Sodoma, pecado, redoma...
Frescura de novo, que zona
Não trepe, não toma
Não fode, não coma

2009

Fiz um samba

Fiz um samba
Fiz mais um
Que não falava de dor
mas falava de amor algum

Fiz um samba sincopado
Com o verso rebuscado
Coisa assim bem comum
Quem sabe imitando o Paulinho
Ou talvez invejando o Buarque
Fiz um sambinha de araque
que evapora feito um pum

* * *

Eu já tentei ser um bamba
mas confesso que desisti
Pois ser bamba não é fácil
é mais difícil que parir

Fiz um samba meio tolo
Que se enrola e faz um rolo
Coisa bem incomum
Quem sabe imitando a vida
Talvez invejando os felizes
Fiz um samba em mil matizes
prá ser sucesso em dois mil e um

1986

Farpas

Eu não quero mamar nas tetas
da solidão
Por isso vou à guerra
de arco e farpa na mão

Também não quero um amor
gerado nas coxas da ingratidão
Por isso vou deflorar o sexo dos anjos
co’a minha mão

Eu não quero me afogar num mar
só por ele ser feito de prazer
Por isso vou nadar próximo à praia
agarrado à saia
de meu bem-querer

Também não quero que me chamem covarde
só por ter pensado em correr
Por isso vou correr com as pernas bambas
vestindo trocado as tangas
trocadas na hora “h” do prazer

Eu não quero esmolas do amor
Viu, quero não
Quero uma conta-corrente nos bancos de areia
de teu coração

Eu não quero sacolas da vida
para encher de saudades não
Que eu já de saco cheio
com tamanha recordação

1985

Teu colo

Teu colo tem jeito de leito
Teu colo tem cheiro de berço
Nele, o abrigo perfeito
Teu colo... será que mereço?

Teu colo tem balanço de mar
Em teu colo um menino eu pareço
Nele, todo o encanto do amar
Teu colo... será que mereço?

Teu colo tem gosto de leite
Teu colo vou virar pelo avesso
Nele, o mais lindo enfeite
Teu colo... será que mereço?

Teu colo tem aconchego de rede
Em teu colo sorrindo eu padeço
Nele, quero afogar minha sede
Teu colo... será que mereço?

Teu colo estrada sem retorno
Teu colo é teu melhor endereço
Nele, o mais perfeito contorno
Teu colo... será que tem preço?

1986

Mestre em sala

Todo dia ele chega
prá cumprir sua missão
Esquece o pequeno e a nega
e se dá todo à profissão
Por entre mapas brilhantes
e a crueldade da história
esquadros gigantes
traçam derrota e vitória
Será que o tablado em que pisa
na verdade não é um cenário
em que todo dia reprisa
o cotidiano diário?

Todo semestre ele fala
que ser mestre é um dom
E a sala toda se cala
mudando o trajeto do som
Por entre forças opostas
e formas gramaticais
há muita moça disposta
a se perder com ele no cais
Será que o mestre sabe o que diz
ou é apenas mais um fingidor?
A vida não é feita de giz
e não se passa o apagador

Todo ano ele passa
o que guardou pelos anos
e a classe toda é comparsa
de seus sonhos e planos
Por entre números inteiros
e células vivas
perguntadores brejeiros
recebem respostas esquivas
Será que quando escreve
o mestre então não descreve
o quadro-negro de seu dia-a-dia
por rimas ricas sem poesia?

Todo professor guarda um resto
da segunda época da vida
pois a união do saber é um incesto
que o mundo inteiro engravida
Por entre letras e versos
giram átomos velozes
Unindo caminhos inversos
e tornando uma só nossas vozes
Será que quando reprova
não reprovou a si mesmo?
E se o seu ensinar não se renova
o mestre não fala a esmo?

Será que passou a borracha
em todos os erros da classe
ou será então que ele acha
que dos erros o acerto nasce?
Será que usou o giz colorido
no quadro-negro da História
ou será que o seu telhado de vidro
é de transparência ilusória?
Será que o prazer do ensino
com tempo se torna rotina e obrigatório?
E ele, por fim, transforma o menino
em poeta ou caçador predatório?

1985

2 de fevereiro de 2009

Como quem

Nas lutas com gente sempre tive em mente
o bom combate pela frente
E, como quem sem forças, me vi frustrado
Como quem se obriga, me vi forçado
Como quem sem moças, me vi castrado
Como quem se intriga, me vi falado

Nos embates da vida com o tempo
lutei só todo momento
E, como quem exausto, me vi cansado
Como quem se apaga, me vi sedado
Como quem é claustro, vivi fechado
Como quem se afaga, me senti tocado

Nas guerras urbanas
e com o sangue em chamas
Como quem amansa, me vi domado
Como quem se enruga, me vi passado
Como quem descansa, adormeci sentado
Como quem enxuga, acordei molhado

Nas discussões do amor ganhei, perdi...
Mais chorei do que sorri
E, como quem se trai, me vi beijado
Como quem se engana, tive você lado a lado
Mas como alguém que cai e é pisoteado
só mesmo quem não ama pode andar desarmado

2009

Faz de conta

São coisas do passado
que embrulham o presente
São juras irrestritas,
irreais...

Dilacerando o meu peito
Confundindo os meus passos
Me apertando em abraços
que me roubam a paz

E que me soltam em abismos
Em abismos prá nunca mais

* * *

São coisas que vêm à tona
e que detonam bombas
Humilhas, fustigas,
zombas...

Vê o que sobrou de mim
Vê que pobre molambo
Nesse boteco dançando um tango
no reino do faz de conta

E agora é tarde meu bem
Meu olho em outro desconta

1986

Quem sou eu

Minha foto
Niterói, Rio de Janeiro, Brazil
Nasci em 1962, sou casado, tenho dois filhos e adoro simplicidade. Formado em Jornalismo, sempre gostei de brincar com as palavras, de tirar delas o som, o sentido não exposto, o sentimento.