18 de abril de 2008

Nem sempre

É que na noite os gatos
nem sempre são pardos
Assim como os machos
sem gestos de machos
Como todos os golpes
que quase sempre são baixos

É que em verdade os padres
nem sempre são castos
Assim como as freiras
que sabem onde ficam os mastros
Como todos os meios
que não justificam os atos

É que nem todas as uvas
se sustentam no cacho
Assim como a vulva
após perder o cabaço
é que toda viúva
nem sempre espera por macho

Como a vida nem sempre
põe tesão lá embaixo
é que a luz de repente
se transforma num facho
e o prazer dá na gente
irritação e cansaço

2007

Desenlace

Não há mais dentes brancos
prá sorrir
Nem pernas
prá partir
Nem há mentiras
prá mentir
Se quer esmolas
vá pedir

Não há mais momentos
prá curtir
Nem luz nos olhos
prá luzir
Nem há desculpas
prá pedir
Se fez promessas
vá cumprir

Não há mais encontros
por aí
Nem disfarces
no tossir
Nem há frutos maduros
por cair
Se quer ser falsa
é só sorrir

Hoje há dentes amarelos
a cuspir
Há momentos tristes
a me partir
Há encontros tolos
sem porvir
E olhares, muitos olhos
prá ferir

1985

Txukarramãe

Não assino papéis
e não faço contrato
Nunca freqüentei academia
prá ter músculo exato
Jamais ofereço a outra face
revido no ato
E não cultivo patrulhas
prá fechar sindicato

Eu sou txukarramãe
Me deixa morrer no mato

* * *

Não aplicava torturas
e não usava chibatas
Pois o que dizia era lei
e não artigos de atas
Não cobrava tributos
de uma vida sensata
Homem branco é leão
que esmaga nas patas

Eu era txukarramãe
Me leva a morrer nas matas

1985

Soneto à rotina

A solidão a dois existe
e em meio a multidão sinto-me só
Mas a corda bamba do amor insiste
em tecer em meu peito um nó

Estou cheio da vida
e vazio por dentro
Supurou na ferida
Não sei mais se agüento

Meu bem, é preciso mentir muito bem
Não diga nunca o que mereço ouvir
É cruel demais, melhor mentir

E eu também repito frases e juras iguais, mais de cem
E não é bom repetir mais e mais
Veja só nossos pais

1985

2 de abril de 2008

Ácidos

Subo o Everest e me sinto ínfimo
Não te procuro e me sinto íntimo
Chego em último, feliz como o primeiro
Fantasiado em julho como se fosse fevereiro

Levanto vôo para me sentir em terra
Te busco como anjo travestido em fera
Corro, prá chegar em último
Se sou ruim sinto-me ótimo

Vivo, sinto-me póstumo
Longe, sei que sou próximo
Privado quando em público
Bebo prá ficar lúcido

Te amo às claras, como um mágico
Duro, como um membro flácido
Gentil com olhos ácidos
Te venero com versos trágicos

2007

Olhos de mel

Nossa, como você foi cruel!
Nos lábios muito mel
Muita luz e muito fogo
mas muito inferno e pouco céu
Nos discursos muito mel
Faz promessas ao posseiro
depois o entrega ao coronel
Nas carinhas inocentes muito mel
Nos carinhos que lhe roubam
és prostituta de bordel
Como você me fez cruel!
Fez atirar pedras em ti
como atirou Jezabel
Nos Jardins de Babilônia me perdi
seu demônio infiel

Por Deus, como pôde ser tão cruel?
Na sinopse muito mel
e na verdade água e açúcar
Muita novela, Capricho e Sétimo Céu
Nas palavras muito mel
Depois só saudades
...porres, versos, poesias de cordel
Nos teus quartos muito mel
Solidão nos corredores
e eu perdido nesse hotel
Como você me fez cruel!
Confundi todas as falas
Cantei nas torres de Babel
E atravessei por entre balas
os desertos de Israel

Olha como você é cruel
Tuas ações esbanjam mel
Dá esmolas pré’u mendigo
depois rouba o meu chapéu
Detrás das lentes muito mel
Dentro do carro um anjo azul, feliz
atrás da máscara uma atriz e seu papel
Nos teus seios muito mel
Muito bálsamo benigno
mas no olhar veneno e fel
Prometestes a Terra Prometida
onde jorra leite e mel
e eu agora sem saída
no inferno e em frente ao céu

1982

Pirralhas

Garrafas, cascos pelo chão
Marafas, asco e solidão
Litros, rótulos pelo ar
Mitos, túmulos, vomitar

Copos, doses pelo balcão
Copas, amor, cartas na mão
Mesas, toalhas pelo bar
Tesas, pirralhas para amar

Cachaça, veneno pelo corpo
Desgraça, pequeno, morto
Viagens, ida prá não voltar
Virgens, quase nada prá se deitar

Damas, corpos pelo salão
Dança, sexo sem permissão
Camas, mortas de tanto amar
Tesas, pirralhas, putas de bar

2007

Cabaré de Buenos Aires

Apesar do ranço de maresia
que sobrou dos militares
Apesar dos pesares
Da noite que amedronta
e acampa nos bares
A vida marcha melhor
num cabaré de Buenos Aires

Apesar da fumaça
que embaça a vidraça
e que turva os olhares
Apesar dos pesares
Das muchachas que rodam
e enlaçam seus pares
A vida valsa melhor
num cabaré de Buenos Aires

Apesar de ter ficado no tempo o Armenoville
a voz de Gardel inda vaga nos ares
Apesar dos pesares
Dos corpos dos estudantes
que hoje emergem dos mares
A vida flutua melhor
num cabaré de Buenos Aires

Apesar das saudades
que sinto da minha cidade
e que vejo em todos os lugares
Apesar dos pesares
O teu olhar inda ilumina o meu peito
feito a luz que vem de Antares
E o exílio é um pouco melhor
nesse imenso cabaré que é Buenos Aires

1986

Narciso

O perigo é você se acostumar
com a solidão
Não mais cultivar o sim
e plantar a semente do não

E então, ao se ver sozinho
conversar com o próprio botão
Se abraçar pela cintura
e beijar a própria mão

Com a cabeça perdida na lua
você joga os olhos ao chão
E persegue a própria sombra
que vê no paredão

Nesta festa consigo conhece Narciso
e o chama de irmão
Agora os dois se abraçam
Rodopiam no salão

Lute amigo, não se entregue
Escancare o peito e abra o coração
Quem vive se machuca e machuca
Quem ama perdoa e pede perdão

1985

Quem sou eu

Minha foto
Niterói, Rio de Janeiro, Brazil
Nasci em 1962, sou casado, tenho dois filhos e adoro simplicidade. Formado em Jornalismo, sempre gostei de brincar com as palavras, de tirar delas o som, o sentido não exposto, o sentimento.