26 de agosto de 2009

Só você me diz

Sou inexato e vago
e o que pego bom estrago
Sou nefasto e cago
no pouco bom que trago

Sou ineficaz e torto
e se pego vivo entrego morto
Sou inexperiente e tolo
madeira podre que parece ouro

Sou insano e louco
e se tenho muito acho que é pouco
Sou nojento e mocho
firme feito laço frouxo

Sou impuro ao mesmo tempo casto
e o que ganho hoje eu gasto
Sou excremento que largaram ao pasto
Bandeira que voou do mastro

E é só você que diz
que sou insuperável e máximo
Que sou seu distante próximo
que não sou bastante ácido
que tenho um olhar tão plácido
capaz até de lhe fazer feliz

2009

Amigo urso

Deixa-me ser teu amigo
o amigo urso polar
Receba os meus braços
e esse abraço da tamanduá

Quero ser teu melhor presente
em embalagem grega e de luxo
Ser tua capa-de-filé
encapuzada de bucho

Vem prá minha cidade sorriso
que sorri cariado
Sou o espantalho do campo
que te espanta espantado

Sou a luz que surge
ao fim do túnel escuro
e venho à frente da locomotiva
que descarrila o futuro

1985

Conversa ao pé da cama

Essa relação vem de berço
De muitos anos atrás
Vovó dava nosso endereço...
e assim se comprava o gás

Hoje, envolta em lençóis finos
nesse quarto de hotel
E todos esses granfinos
me abrindo e abrindo as portas do céu

Foram tantos falsos gemidos
gerando contas-corrente
Tantos tantos maridos
tanto amor, tanta dor, que horror, tanta gente

Agora deixa eu caminhar
com meus próprios pés
E só então comandar
de meu próprio convés

* * *

Teus pés são bonitos
De madeira de lei
Porém os meus são aflitos
e me mostram que errei

As ripas de teu estrado
parecem que moldam um catafalco
Onde um corpo estirado
jura, atura e mistura sujeira com talco

Teu balançar me relaxa
mas o meu vaivém me indispôs
Na hora do gozo me achas
e usa, abusa, acusa e esquece logo depois

Vou unir minhas coxas aos seus colchões
pela derradeira última vez
Quero sentir prazer nas paixões
e amar a um homem por vez sem ter que chamar de freguês

1985

25 de agosto de 2009

José

Sou José do Nascimento
José desde o nascimento
Fui José todo o momento
Sou José por todo tempo

Sou José desde pequeno
José que vive indo
Fui José sempre terreno
Agora sou José que está subindo

Sou José desde garoto
e nunca soube o que dizer
Nasci José, cresci no esgoto
Sou José não sei do que

Sou José magro e franzino
José surdo e calado
Fui José desde menino
Sou José e estou cansado

Descendo o Nilo, sou José do Egito
Aos pés da cruz de madeira, carpinteiro
Sou José de Arimatéia
Como Jesus, a vida inteira, inteiro
Sou José da Galiléia

Zé disso, José daquilo, sou José do grito
Zé do trem, Zé nordestino, Zé de Natal, Zé de Belém
Zé com fome, Zé com medo, Zé aflito
Zé rico e sem vintém, Zé da Velha, Zé Neném
Zé da vida sem ninguém

Sou José, mas não pedi
e como José sempre vivi
De outro José eu sei que vim
e como José quero partir
Fui José a vida inteira
Sou José, sou Eduardo, Garnier e sou Teixeira

2009

Bêbadas vigílias

Em tuas bêbadas vigílias
você é loira e o olho não pisca
Mas me sinto sua caça
e me exponho feito isca

Em tuas bêbadas vigílias
não és mulher, pois és pura
E se embriaga e também se estilhaça
És a bêbada do curso que inveja os bem vividos

Em minhas bêbadas vigílias
me sinto um teu vigia
e te persigo com o olhar
E em nossas bêbadas vigílias
Trocamos poesia
bebemos de bar em bar

Sim, sou o bêbado da corte
e és a bêbada que furto

* * *

Em tuas bêbadas vigílias
você é a loira que o olho não pisca
Não me dá uma pista
mas olhares doces arrisca

Em tuas bêbadas vigílias
a loira suada é quem te possui
E te sufoca, e te corrói, e te polui
És a bêbada do corte que dilacera os meus sentidos

Em minhas bêbadas vigílias
sonho com os meus dedos
se degelando nos seus ossos
E em nossas bêbadas vigílias
trocamos sons, quase segredos
encharcados de remorsos

Enfim, sou o bêbado-da-corte
e és a bêbada que curto

1985

Verso infinito

Pelas ilhotas do mar
Pelos confins dessa terra
Pelas mesas de um bar
e pela boca do que berra
solto meus gritos
No peito dos ricos
Na cabeça dos tolos
Nos altos, nos picos
em novelos e rolos
enrolo conflitos

Pelos bancos das praças
Pelos botecos da avenida
Pelo passo manco das massas
e os bonecos da vida
é que escrevo aflito
Pelos amigos de sempre
e os inimigos do dia-a-dia
Pela raça da gente
Por não ter pão e ter poesia
meu universo é infinito

1984

23 de agosto de 2009

Bom demais

Ontem tudo
Hoje exagero
Amanhã nem tanto
Despedida, abraço em pranto

Ontem enorme
Hoje grande
Amanhã só cacos
Mentiras, versão dos fatos

Inda que fosse verdade
eu negaria
E se sentisse saudades
não voltaria

Inda que fosse veneno
eu beberia
Mas se mostrasses a língua
não beijaria

Só mais uma frase
Um sorriso e nada mais
Amar você, confesso
era bom demais

2008

Borboleta noturna

Vestiu meu vestido
Passou meu batido batom
Fez um passo esquisito
Mudou compasso e tom

Pintou a boca em coração
Usou salto alto e cetim
Esqueceu da combinação
e esqueceu-se de mim

Minha menina se foi
levar a vida que quis
Seu homem vai ser boi
e ela vaca feliz

Lapa, Praça XV, Mauá...
Caberá em qualquer cabaré
E em qualquer mafuá
minha menina será mulher

Com olheiras roxas
e exalando horrível odor
Com marcas nas coxas
na Comarca do doutor

Fará amor sem amor
Sentirá prazer sem prazer
Sem asco ou pudor
mudará de “A” para “Z”

Até que carente gerente
ou bem sucedido doutor de escritório
financie vida decente
e casamento em cartório

A noiva da cidade
agora é dondoca
Na fina flor da sociedade
ela hoje se entoca

De vinhos bons se entope
De lindos tons se veste
Pros velhos amigos um choque
pois só pro marido se despe

Não come ovo, nem bucho
Põe no bucho o gostoso do bicho
Da Boca do Lixo
pro bafo de luxo

Das manchas de “O Dia”
prás manchetes do Ibrahim
Quem prosa posa à fotografia
já foi verso e prosa em botequim

Já pode trazer a família do Norte
e já não quer maldizer o destino e a sorte
O passado do corpo é página virada
desde a chegada ao topo da escada

As colunas estão cheias
de “divinas cocadinhas nota dez”
que já foram deusas feias
e que se vendiam por cem mil réis

1984

Quem sou eu

Minha foto
Niterói, Rio de Janeiro, Brazil
Nasci em 1962, sou casado, tenho dois filhos e adoro simplicidade. Formado em Jornalismo, sempre gostei de brincar com as palavras, de tirar delas o som, o sentido não exposto, o sentimento.