31 de outubro de 2008

Negra

Pode um homem viver só
em meio a tantos?
Pode um homem não pecar
em meio a santos?
Pode se despir
mantendo o manto
e bravo guerrear
em meio a prantos?

Pode um homem se esconder
por todo canto?
Pode um homem só
viver só por todo tempo
ou somente por enquanto?

Pode um homem reviver
voltando ao pó?
Pode o homem desfazer
mais esse nó?
Pode andar ereto
sendo manco
e feliz rodopiar
dançando um tango?

Pode um homem ocultar
o pensamento?
Pode, enfim, um homem
ser criança todo tempo
e se perder no encantamento?

Você pensa que sou manso
sendo eu bravo, nêga
Você ordena e eu te lavo, negra
e quando suplico feito santo você nega
pois me fez de ti escravo, negra
só pra lembrar que sou o branco

2007

Luxúria

Na garganta o grito contido
querendo dizer vem
Me lança o olhar perdido
que só você tem, bem
Me despe inteira
e bate com força
Arromba minhas portas
quebra minha louça

Na garganta esse nó cego
querendo implorar me crucifica
Me finca teu prego
qu’esse amor quando bate fica
Me quebra os ossos
com teu abraço
Puxa meus cabelos
me lança seu laço

Na garganta esse desespero
querendo pedir sempre mais
Desbrava minhas matas
atraca em meu cais, ai
Me vira e depois desvira
Diz mais besteira
Me puxa prá beira
Me pira

1991

Falso azul

Vejo aqui na Terra
e na América do Sul
um céu de brigadeiro
de um falso azul
Onde poetas e mendigos
perambulam dementes
Aflitos e famintos
criam teias nos dentes

Vejo aqui na Terra
e em todo o continente
um paraíso verde-oliva
que vai de cabo a tenente
Onde grávidas e meninos
batem co’a mão
Doentes e franzinos
acenam em vão

Vejo aqui na Terra
e em todo o mundo terceiro
a miséria em cada esquina
feito um imenso sertão brasileiro
Onde velhos e moços
se igualam ao gado
É pele só e só osso
Povo pobre coitado

1985

Sobrecarta

Niterói,
Ai como dói!
15 de janeiro
Que pena eu não ter sido o primeiro.
de 1986.
aqui no velho boteco outra vez.

O motivo desta
Fui amarrado a alguém que me detesta.
é tentar assassinar um pouco a saudade,
Como é difícil pisar os pés na realidade.
pois você nunca mais telefonou,
Eu não sei onde parar esse meu vôo.
nunca mais vi teu sorriso.
Ely, desce outra que beber é preciso.
Como estão as coisas? Muita novidade?
Olha aí de novo a saudade...
Você passou no vestibular?
Olha só cara: que jeito, que cara, que olhar...
Eu burlei, a rigor. Não era prá vestiburlar?
Será que tá desacompanhada? Sei lá não sei, sei lá.

Às vezes sempre eu me lembro dos nossos papos.
Põe teu telefone aqui, no guardanapo.
Nossos sonhos eram quase iguais,
Eles estão me olhando feito canibais...
E acho que os descaminhos também.
Deixa eu só acabar essa cartinha, meu bem.
Me lembro que, por vezes, te flechava com olhos cheios de maldade.
Não, não, infelizmente é só amizade
Vê se você não me esquece não.
Olha quem tá em pé, lá no balcão.
Apareça, mande notícias!
Ai que gostoso, faz de novo essa carícia.

Tenho muita boa nova prá te contar.
É, já vi que escrever aqui não vai dar.
Vamos marcar um encontro, uma cerveja...
Agora sim, vem... me beija...
Espero uma resposta rapidinha, tá?
Escuta... e você... você mora... mora... sozinha?
Então, vai dá?

1977

26 de outubro de 2008

Boneca

Peço, escolho, é fria e viva não é
E o treco, inflável, em pé
tem até um jeito amável de mulher

Pego, esfrego, é vício, não nego
E trepo, ereto, em cio, e quieto
penetro em teu corpo
e só me entrego morto

Peco, espeto, é feio e não é certo
É prego. Acerto em cheio e, cego
penetro o que sobrou com ar
Exausto e só, te entrego para nunca mais te amar

2008

Melancólico olhar

Fundo, muito fundo é o fundo
de meu fundo, profundo e profano olhar
Mar!
Imundo, muito imundo é o imundo
mundo do mundo que inundo a chorar
Buá!
Triste, muito triste é o triste
melancólico olhar
de um homem que sonha que sonha, e sonha
e sonha até mesmo depois de acordar

Úmido, muito úmido é o úmido
do útero do único e último homem que tem esse olhar
Bar!
Tímido, muito tímido é o tímido
temido destino que teimo em traçar
Não dá!
Triste, muito triste é o triste
melancólico olhar
de um homem que apenas apanha, e apanha
e apanha e apanha sem querer revidar

1991

Punhais

Fiz do canto, de pronto, um lindo choro
e do choro, em pranto, um novo riso
Somado a tantos fiz um coro
E cantei, pois cantar é preciso

Fiz do olhar que anima lâmina cortante
e dos olhos da menina um novo guizo
Feito Vinícius, fiz da vida uma aventura errante
Como Francis Drake, o navegante
vivi, pois viver é preciso

Fiz dos bares meus mares para refúgio aos descaminhos
e indo a caminho dos males fiquei firme feito fruto verde
Feito Baby Doc fugi sozinho
Sozinho feito John Rambo
lutei como um boina-verde

Fiz do amor que peca peça de um quebra-cabeça
e, pecador, a cabeça em Meca arremeçei contra a parede
Feito Figueiredo pedi me esqueça
Como Cartola pediu naquele samba
O mestre da rosa e verde

Fiz dos versos, confesso, um certeiro punhal
Punhal afiado, de aço, que cravei em seu peito
E feito um Clóvis saí anônimo e feliz no carnaval
Como um pierrô apaixonado, mascarado
ligado e livre, em plena Avenida Central

1986

Sei lá

Um homem gritando “acertei no milhar”
Um paraíba e sua nova TV
Moça dourada saindo do mar
Mulher cheirosa e seu pequeno bebê
Uma criança faminta mendigando pão
Um homem gritando “pega ladrão”
O nordestino assaltado e “levaram a TV”
Mocinha solteira e seu pequeno bebê
O marido chegando e encontrando você
Outra moça solteira abortando um bebê
Um amante traído querendo beber
Um marido sabendo e querendo bater
Ela querendo e ele vendo TV
Três da manhã, você explicando
mas ela não vai entender

1976

Alfabeto brasileiro

A do agiota
B de baleado
C de corrupto
D do deputado
E de estelionato

F de fuzilaria
G da ganância
H de histeria
I do inferninho
J do jeitinho

K de compaixão
L do ladrão
M de maldade
N do nomeado
O de obrigado
P de peculato

Q de quem indica
R do rabecão
S do que suplica
T de traição
U de usurpação

V de vadiagem
W de honradez
X do xadrez
Y de poesia
Z de zombaria

2008

Busca

Correr o mundo e procurar alguém
Tropeçar nas pernas
e cair bem mais além

Subir o morro e procurar quem tem
Tropeçar nas pedras
Desafiar um trem

Desfilar os olhos pela noite
e não ver ninguém
Tropeçar nos copos
Dizer amém

Cair feito um defunto procurando luz
Acender as velas
e estancar o pus

Levantar feito Cristo e carregar de novo a cruz
Escrever um verso
Tocar um blues

Desafiar o inferno pela boca
e fazer jus
Tropeçar nos corpos
Reconhecer Jesus

Acordar de um sonho louco a dar risada
Pensar na vida
Em tudo, em nada

Lavar a alma e o que ficou da estrada
A poeira, o suor
O sangue da espada

Desatar o nó pelo pescoço
e desistir da vida
Tropeçar nos ossos
Reabrir feridas

1984

É madrugada

É madrugada
e tudo se move com lentidão
O Diabo é quem faz a chamada
De madrugada
chove muito, tudo alaga, tudo nada
De madrugada
Rio, 40 graus em pleno calçadão
Um homem passou com a mão virada
De madrugada
Cinelândia, Estação, próxima parada

1979

E por falar em amor

Sem fundo musical, por favor,
que eu vou falar de amor
Que o amor é indispensável
e sempre faz muito mal
Sal

Eu era santo
e você quebrou meu andor
Tinha orgulho em ser Banto
e você roubou minha cor

* * *

Sem fundo musical, por favor,
que eu vou falar de amor
Que o amor que dá vida
põe na UTI do hospital
Cal

Eu amava tanto
e você, no entanto,
o que fez?
Me magoou outra vez

* * *

Sem fundo musical, por favor,
que eu vou falar de amor
Que o amor, que é pura emoção,
é também irracional
Animal

Eu era selvagem
e só você me domou
Depois partiu em viagem
e nunca mais voltou

1991

25 de outubro de 2008

Bares diversos

Por cidades do mundo
existem bares diversos
Reparo olhares profundos
nos cantores de versos

Por prateleiras brilhantes
contendo garrafas diversas
se confundem amantes
e gente que canta e que versa

Pelos balcões curtidos
por cachaças diversas
mexem bocas de aflitos
fingindo conversas

Pelos salões há fumaça
de palhas diversas
que não esconde quem passa
para outros promessas

E pelas mesas de mármore
pousam mulheres diversas
Parecem troncos de árvore
que mulheres são essas?

E pelos cantos do toalete
elas rabiscam versos diversos
Reparo no sangue, no corpo e na gilete
o drama, o motivo adverso

1984

No meio

É que no meio das pernas
dessa gente
adormece um vulcão
Uma coisa quente

É que no branco dos olhos
desse povo
se esconde um brilho
Algo de novo

É que no fundo do útero
dessa mulher
brota a semente
de um momento de fé

1976

Quem sou eu

Minha foto
Niterói, Rio de Janeiro, Brazil
Nasci em 1962, sou casado, tenho dois filhos e adoro simplicidade. Formado em Jornalismo, sempre gostei de brincar com as palavras, de tirar delas o som, o sentido não exposto, o sentimento.