23 de agosto de 2008

Diário de dama

Dói, mas dou
Dou a quem me dá
Me dôo
a quem me doar
Mesmo que doa
tenho que dar

Dou de ré
Dou sem dó
Dou doída
mas doida prá dar
Mesmo que vá doer
dou sem amar

Dou demente
Dou drogada
Dou diferente
Dou dentada
Dou deitada
Dou obrigada

Deus, aos doze eu dei
Duvido quem não daria
O dinheiro não dava
Dario tava doente
Dei, Deus, eu o amava

Hoje sou Dadá
Dou pro Didi
Dei pro Dudu
Vou dar pro Dedé
Mas só pro Dodô
me dou como mulher

Me visto como deusa
Chego como drácula
Brilho feito Dalva
Deito como diva
Durmo como dama
Acordo como drama

2008

Como uma flecha

Faça silêncio
e o mundo então te ouvirá
Use a cor branca
pro vermelho apagar
Use a partida
prá poder sempre voltar
E derrame seu pranto
até a si próprio afogar

Não tema a morte
deixe-a frente à frente a você
Distribua veneno
prá mãe do bebê
Sinta saudades
que todos vão te esquecer
E se sozinho chorar
não deixe nunca ela ver

Se deite com ela
só por deitar
Faça amor com o seu corpo
como se a fosse matar
Corte o seu pulso
pro veneno estancar
Baixe então um decreto
e não deixe ninguém revogar

Cometa mil erros
para o alvo acertar
Repita o que eu digo
para não se enganar
Narre a verdade
e irás sempre mentir
E faça o que eu faço
se quiser resistir

Pensei pedir-lhe desculpa
mas já vi que não da
Você fez tudo errado
você foi de amargar
Quando ler o meu livro
pode até o rasgar
Que até lá já disse adeus
vou de você me soltar

Hoje, bem mais experiente
entro no mar quando o tempo se fecha
Disfarço a calvície
pinto essa mecha
Guardo esse texto
como se houvesse entre nós uma brecha
E firo a todas nos olhos
com olhos como uma flecha

1985

Faz um troço qualquer

Me faz um chamego
Me diz vem meu nego
que eu finco o meu prego
e satisfaço o meu ego

Me faz um denguinho
Me diz vem benzinho
que a gente faz um trenzinho
e trilha o próprio caminho

Me faz um gracejo
Me joga um bocejo
que eu retribuo com beijo
e reacendo o desejo

Me faz uma jura
Me diz vem que tem cura
que a solidão te procura
e acha a casa às escuras

Me faz um troço qualquer
Diz a mentira que quiser
Ceda os carinhos que puder
ou então me deixa ir pros braços
de outra mulher...

1985

Lembra?

Lembra do sertão
e de como era lindo o amanhecer?
Agora olha pr’esse chão
e pr’essa gente que paga prá morrer

Lembra do violão
e de como era lindo o anoitecer?
Agora escuta essa canção
com quase nada prá dizer

Lembra da ilusão
e de como eu sonhei te conhecer?
Agora larga a minha mão
qu’eu não quero mais você

1977

Ungidos

Não há nada mais
que mais possa parecer
comigo e com você
pois somos únicos

Não há nada demais
em querer te merecer
pois eu e você
nascemos unidos

Não há sinais
de que o amor não vá vencer
pois disse amo você
com olhos úmidos

Não há nos anais
e nenhum lugar vai ter
placa orientando a receber
em primeiro os últimos

E não há moça e nem rapaz
capaz do fogo derreter
ou que faça eu te perder
pois eu você fomos ungidos

2008

22 de agosto de 2008

Angústia

Ele não precisa saber
do meu amor por você
Prá que, talvez, não sinta ciúmes
ou, com raiva, me cause mais sofrer

Ele não precisa beber
eu é que bebo por não ter você
Prá que, talvez, embriagado sinta o teu perfume
ou, com saudades, veja no copo a imagem do teu ser

Ele não precisa nem pensar em morrer
eu é que morro de amores por você
Prá que, talvez, reviva em ti alguma chama
ou apague de vez esse meu triste amanhecer

Ele não precisa fazer força prá esquecer
nenhum beijo que roubou de você
E nem, talvez, jogar teu nome na lama
ou ver na cama tanto carinho apodrecer

1985

O amor no meu diário

O amor é um mercenário
Um franco atirador
Um falso missionário
em missões do interior

O amor é um dicionário
malfeito e sem tradutor
Luxuoso calendário
mas de mulher sem pudor

O amor é um imaginário
conto de mercador
Magnífico cenário
de um medíocre ator

O amor é crediário
de sujeito mau pagador
É salário de operário
e atrasa que é um horror

O amor é um canário
vistoso e cantador
que uma vez no aviário
não encontra comprador

O amor é o plenário
para o discurso do ditador
O pronunciamento diário
que só dita a dor

O amor é um operário
e nas vagas horas cantor
Mulher doente do ovário
que não quer ir ao doutor

Como eu é um funcionário
faltoso e não cumpridor
que está demissionário
e não é mais servidor

Mas também é o mostruário
de rara e bonita flor
fabricando o néctar necessário
ao alimento do beija-flor

O amor no meu diário
tem mil doentes, nenhum doutor
Só tem espinhos, nenhuma flor
Postal do Rio sem Redentor

O amor no meu diário
salta em páginas de dor
Amareladas e sem cor
escondendo rabiscos de um amador

1985

Não me desligue agora

Muito frio lá fora, me deito quieto
com os olhos parados no ar
Eu sei que estás de partida
para em outro porto aportar

Tento escrever prá esquecer um verso
e meu pranto borra o forte lápis 6-B
De fraco, me entrego à saudade
e choro feito um bebê

E acendo mais um cigarro
prá curtir mais um porre
Espanto o teu vulto
mas ele não corre

Folheio um livro
Ligo e desligo a TV
De nada adianta
e vejo em tudo você

Então meu peito dispara
as armas do amor prá matar
De novo as noites em claro
De novo as mesas de um bar

De novo a enorme procura
De novo quase morrer de paixão
Outra vez aventuras
Outra vez solidão

Ponho um disco na vitrola
e rola um bolero do Bosco
O olhar inundado
inunda o rosto

Amor, não me desligue agora
Deixa o prato girar até o final
e se o automático não funcionar
a gente aciona o manual

1985

2 de agosto de 2008

Mil olhares

Os olhos teus precisam viver
mas só um é seguro
Um vive o presente
e o outro sonha o futuro
Enquanto um filma em close
o outro é câmera aberta
Um erra o alvo
enquanto outro o acerta
Se um olho teu me quer
o outro me odeia
Um, de sofrer não tem medo
mas o outro receia
O esquerdo corre e disfarça
o que o direito não pode
Um, não dá de ombros
já o outro sacode

Os olhos teus penetram a poesia
mas só um a decora
Um não sente pudor
só o outro cora
Enquanto um é estéril
o outro me engravida
Um tem paixão e confia
enquanto o outro duvida
Se um olho teu me divide
o outro subtrai
Um, de tanto sofrer é fiel
mas o outro trai
O esquerdo mergulha e se afoga
enquanto o direito bóia
Um, finge não ver
mas o outro me óia

Os olhos teus procuram palavras
mas só um forma a frase correta
Um busca o homem
o outro o poeta
Enquanto um pousa na sala
o outro corre à janela
Em um vejo a fera
e noutro imagino a bela
Se um olho teu visa o amor
o outro cheira a sexo
Um, de tanto sofrer se supera
mas o outro guarda o complexo
O esquerdo é descrente e cruel
enquanto o direito tem fé
Em um vejo a moça
e nos dois a mulher

1985

Quem sou eu

Minha foto
Niterói, Rio de Janeiro, Brazil
Nasci em 1962, sou casado, tenho dois filhos e adoro simplicidade. Formado em Jornalismo, sempre gostei de brincar com as palavras, de tirar delas o som, o sentido não exposto, o sentimento.