Todo dia ele chega
prá cumprir sua missão
Esquece o pequeno e a nega
e se dá todo à profissão
Por entre mapas brilhantes
e a crueldade da história
esquadros gigantes
traçam derrota e vitória
Será que o tablado em que pisa
na verdade não é um cenário
em que todo dia reprisa
o cotidiano diário?
Todo semestre ele fala
que ser mestre é um dom
E a sala toda se cala
mudando o trajeto do som
Por entre forças opostas
e formas gramaticais
há muita moça disposta
a se perder com ele no cais
Será que o mestre sabe o que diz
ou é apenas mais um fingidor?
A vida não é feita de giz
e não se passa o apagador
Todo ano ele passa
o que guardou pelos anos
e a classe toda é comparsa
de seus sonhos e planos
Por entre números inteiros
e células vivas
perguntadores brejeiros
recebem respostas esquivas
Será que quando escreve
o mestre então não descreve
o quadro-negro de seu dia-a-dia
por rimas ricas sem poesia?
Todo professor guarda um resto
da segunda época da vida
pois a união do saber é um incesto
que o mundo inteiro engravida
Por entre letras e versos
giram átomos velozes
Unindo caminhos inversos
e tornando uma só nossas vozes
Será que quando reprova
não reprovou a si mesmo?
E se o seu ensinar não se renova
o mestre não fala a esmo?
Será que passou a borracha
em todos os erros da classe
ou será então que ele acha
que dos erros o acerto nasce?
Será que usou o giz colorido
no quadro-negro da História
ou será que o seu telhado de vidro
é de transparência ilusória?
Será que o prazer do ensino
com tempo se torna rotina e obrigatório?
E ele, por fim, transforma o menino
em poeta ou caçador predatório?
1985
prá cumprir sua missão
Esquece o pequeno e a nega
e se dá todo à profissão
Por entre mapas brilhantes
e a crueldade da história
esquadros gigantes
traçam derrota e vitória
Será que o tablado em que pisa
na verdade não é um cenário
em que todo dia reprisa
o cotidiano diário?
Todo semestre ele fala
que ser mestre é um dom
E a sala toda se cala
mudando o trajeto do som
Por entre forças opostas
e formas gramaticais
há muita moça disposta
a se perder com ele no cais
Será que o mestre sabe o que diz
ou é apenas mais um fingidor?
A vida não é feita de giz
e não se passa o apagador
Todo ano ele passa
o que guardou pelos anos
e a classe toda é comparsa
de seus sonhos e planos
Por entre números inteiros
e células vivas
perguntadores brejeiros
recebem respostas esquivas
Será que quando escreve
o mestre então não descreve
o quadro-negro de seu dia-a-dia
por rimas ricas sem poesia?
Todo professor guarda um resto
da segunda época da vida
pois a união do saber é um incesto
que o mundo inteiro engravida
Por entre letras e versos
giram átomos velozes
Unindo caminhos inversos
e tornando uma só nossas vozes
Será que quando reprova
não reprovou a si mesmo?
E se o seu ensinar não se renova
o mestre não fala a esmo?
Será que passou a borracha
em todos os erros da classe
ou será então que ele acha
que dos erros o acerto nasce?
Será que usou o giz colorido
no quadro-negro da História
ou será que o seu telhado de vidro
é de transparência ilusória?
Será que o prazer do ensino
com tempo se torna rotina e obrigatório?
E ele, por fim, transforma o menino
em poeta ou caçador predatório?
1985

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