31 de julho de 2008

A dois passos

A dois passos do abismo
lembrei do que deixei prá traz
O sorriso dos filhos
O olhar da amada querendo mais

A dois passos da eternidade
pensei no que perdi pelo caminho
A brisa do mar
Outro bebê no carrinho

A dois passos do fim
entendi o que valia a pena
Um raio de sol
Um requebro de morena

A dois passos de me perder
compreendi o que é o amor
Os mistérios do infinito
A simplicidade da flor

A dois passos de me encontrar
descobri o que realmente sou
Um pequeno detalhe
Uma gota que evaporou

A dois passos do que não sei
sei em que vou me transformar
Retrato sem cor
Adubo bom prá plantar

2008

Nós dois

Eu e ela somos um par
Um paralelo
Quem sabe a gente se vê no infinito
Quem sabe o paraíso é belo

Ela e eu somos um só
Um só descaminho
Mas quem sabe a gente bate de frente
Quem sabe tira um fininho

Eu e ela somos a parte da Via Láctea
que ninguém penetrou
Quem sabe a gente se descobre
Quem sabe Deus puxa o cobertor

Ela e eu fomos santificados
Mas vai devagar com o andor
Quem sabe o santo é de barro
Ou quem sabe é falso o pastor

Nós dois somos a peça
que o destino pregou
Quem sabe a gente se esquece
Quem sabe ela fica e eu vou

1986

30 de julho de 2008

Nossos ratos

Os ratos daqui têm patas grandes
Dedos longos, mãos gigantes
Vestem pelica em patas de elefante
Bons oradores, bem falantes

Os ratos daqui fecham negócios
Negociatas, acordos mirabolantes
Levam o futuro ao abismo
com mãos ao volante

Os ratos daqui depois de eleitos
mostram as unhas gigantes
São lebres, leves, livres
e adoram diamantes

Os ratos daqui dão mil presentes
Esposas, sobrinhas e amantes
Discursos históricos, manchetes
corpo-a-corpo ofegante

Os ratos daqui são imunes
e adoram palanques
Firmes em defesa dos fortes
Nacionais ou ianques

Os ratos daqui em nome da segurança
a qualquer hora chamam os tanques
E se a vida não anda, empurra
que ela pega no arranque

Cansado, arrumei um gato
e pus no mesmo palanque
Mas o gato, asno, surdo, distante
Coitado, tem orelhas de elefante

2008

Reeditando a vida

Rejuvenesci meu corpo
envelhecendo um pouco a mente
E me embriaguei feito louco
em tua lucidez demente

Reacendi a chama do amor
apagando de mim o teu fogo
E me embrenhei por outras matas
mudando as regras do jogo

Readquiri confiança
desconfiando de tudo
Fingir-se cego
Tornar-se mudo

Refiz todos os textos
com lápis colorido
Atirei pedras
em minhas telhas de vidro

Reinventei o tempo
invertendo a lógica
Vi com outros olhos
e de outra óptica

Reaprendi na cartilha da vida
a repartir as cartas na mesa
Mas a guardar os trunfos na manga
e roubar com sutileza

Retirei de meu peito o teu feitiço, viu?
E me rebelei contra você, feiticeira vil
Redescobri, desde então, meu melhor sorriso de anil
Pois você foi tempestade passageira cá nos céus do Brasil

1982

28 de julho de 2008

Sangue no sommier

Nas mil e uma noites mal dormidas
a coberta parece que acoberta formigas
É quando o inseto do amor vem morder
deixando os ferrões nos ferros do sommier

Luzes e estrelas na rua
e eu aqui quase nua
com o suor a escorrer
pelo corpo do sommier

Sensações estranhas
Alguém tocando as entranhas
Coisa gostosa assim de morrer
E sonhos adormecidos no sommier

Um dos dois se vira no quarto
Outro remexe com os quartos
Sente vontade de se perder
e de ter alguém por cima no sommier

A outra metade saiu prá se divertir
E talvez carinhos com outra vá dividir
Então não há como conter, quero ter
e ponho alguém ao meu lado no sommier

Que bom é sentir o que sinto agora
Pena que já está chegando a hora
da outra metade aparecer
e apagar de novo o fogo do meu sommier

Virou uma festa o meu solitário entardecer
Sussurros, suores, sons, soluços...
Momentos loucos de puro prazer
e eu virada de bruços no sommier

Por que ele tinha que a chave esquecer?
Gritos, tiros, sangue, correria de passos...
Momentos de insanidade e tudo, então, se perder
E eu morta de bruços nos braços do sommier

1985

1 de julho de 2008

Praga

Como Barrabás fugiu da cruz
Como o diabo evita Jesus
Feito náufrago em luta com urubus
Igual a quem se debate
contra um câncer
Como Guevara, inutilmente,
fugiu de Banzer

Como o pescador fugiu da tempestade
Como o louco evita a realidade
Feito o camponês correndo da cidade
Igual a quem diz sim
querendo dizer não
Como o gato, sempre,
foge do cão

Como Cristo fugiu da Galiléia
Como o cordeiro evita a alcatéia
Feito Glauce presenteada por Medeia
Igual ao condenado
confinado em Alcatraz
Como a virgem, em vão,
foge do rapaz

Como a presa fugiu do predador
Como a graça evita o pecador
Feito o solitário renegando outro amor
Como o negro escravo tentou
quebrar suas amarras
Você pensou, desesperadamente,
em se livrar das minhas garras

Mas como praga que devora a plantação
Como chaga crônica que nasceu de um arranhão
Feito sepse que leva à amputação
Como sombra ao meio dia
que persegue os próprios passos
Eu te prendi, apaixonadamente,
no mais estreito dos abraços

2008

Quantos de nós?

Na noite escura
segue um homem sozinho.
Ele busca o amor,
o afeto e o carinho.
Eu vejo em seu rosto
que ele tenta esquecer.
Bebe. Mas beber não resolve.
Melhor seria morrer.
Desilusão de amor?
Paixão recolhida?
Ninguém sabe o que é.
Mas é profunda a ferida.
Em qualquer canto ele dorme,
em qualquer bar ele entra.
O seu corpo cansado
em qualquer mesa ele senta.
Quantos deles vagueiam
perdidos na rua?
Em vão, vão procurando respostas
nas garrafas e na lua.
E dia após dia
a saudade aumenta.
Essa paixão não se esfria,
mesmo assim ele tenta:
_ O seu olhar era fogo
e sua voz tão macia.
E ele não consegue esquecê-la.
E isso dia após dia.
Se pergunta por quê
que o amor chega ao fim:
_ Ela foi-se embora
mas não morreu para mim.
Mais uma noite ele vai
tentar a amada esquecer.
E eu, ele e você
de amor, cirrose e paixão
vamos todos morrer.

1980

27 de junho de 2008

Jesus Nazareno

Galileo
Trinta e três anos
Pele queimada pelo sol que seu pai lhe deu
Barba e cabelos compridos
De origem humilde
Calça sandálias e anda com mendigos e leprosos
Traz as mãos e os pés tatuados
Tatuados pela tortura dos homens
Se faz acompanhar de agitadores
De agitadores da fé
Assombra o mundo com frases revolucionárias
Com idéias revolucionárias
Tão revolucionárias como:
“Amai-vos uns aos outros”
“Perdoa os teus inimigos”
“Não vos conformeis com este mundo, transforma-o”
Disse Ele certa vez:
“Faça-se louco para ser sábio”
Por tudo isso, se o encontrar pelos bares
Senta-te à tua mesa
E beba com ele

Autor desconhecido
Adaptação de Eduardo Garnier
1984

Feliz Natal prá todos


Aos que já velhos na veia ainda injetam
Aos que vivem a vida dos que vegetam
À menina que não sabe e vai ser mãe
E ao meu amor que, talvez, se embriague com champanhe
Feliz Natal

Ao soldado do Choque que ontem me bateu
Ao mais novo mendigo que nasceu
Ao peão sozinho lá na obra
E ao meu amor que, talvez, caminhe feito cobra
Feliz Natal

A todos os medíocres nos seus lares
Aos que pernoitam pelos bares
Ao conselheiro que não sabe o que dizer
E ao meu amor que, talvez, morda os lábios de prazer
Feliz Natal

Ao pai carente distante do seu filho
Ao menino sozinho e maltrapilho
Ao bêbado que tropeça nos meus passos
Ao meu amor que, talvez, se embale n'outros braços
Feliz Natal

Ao que tenta se enforcar usando um cinto
Ao que fez da vida um eterno labirinto
Aos loucos feito porcos comendo lama
Ao meu amor que, talvez, agonize n'outra cama
Feliz Natal

Ao governante que não fez e muito prometeu
Ao doente crônico que a família já esqueceu
À que sendo moça quer ser homem
Ao meu amor que, talvez, grite na hora o meu nome
Feliz Natal

À toda espécie de mulher
Ao convento, ao presídio, ao cabaré
Ao que mantêm acesa a chama
Ao meu amor que, talvez, diga que já não me ama
Feliz Natal

Ao que está sozinho agora
Ao que pede perdão e chora
À vadia que se abre prá que'u entre
Ao meu amor que, talvez, veja meu vulto num repente
Feliz Natal

A todos os malditos
De todos os credos, todos os ritos
A todo canto, enfim, onde a saudade me levar
E ao meu amor que em meio a tudo não esquece o meu olhar
Feliz Natal

1980

23 de junho de 2008

O bêbado e o poeta

Há nos cascos um asco itinerante
Há no líquido um híbrido de amante
Há nos bares pares de errantes
Nos olhos do bêbado
pétalas em flor, cacos de vidro
Pois para o mau bebedor
qualquer gota é um litro

Há nas palavras larvas canibais
Há nas frases gases mortais
Há no texto incestos imorais
Nos olhos do poeta
sangue vermelho, tinta preta
Pois para o bom contador
qualquer pingo é letra

Há nos cascos e nas palavras algo indecifrável
Há nos líquidos e nas frases algo nada amável
Há em nós dois um deserto interminável
Nos olhos de ambos
desencontro e solidão
Nas garrafas e nas letras
a gota fatal da ilusão

1987

15 de junho de 2008

Ledo engano

A despeito de tudo
eu ainda te amo
Apesar de cego e mudo
dormindo sei que te chamo
Em respeito à fome
quando sobra eu como
Por confiar no homem
sempre e só me dano

A despeito da fraude
minha rainha eu te proclamo
Apesar de despejado e nômade
nunca fui pra ti cigano
Em respeito ao nome
não me chame assim... fulano
Por tanta noite insone
envelheci mais dois durante um ano

A despeito do passado
não refiz os planos
Adormeci amado
mas foi ledo engano
Lhe estender a mão
é sempre um ato insano
Que fazer, então
se é a você que amo?

2008

Nas entrelinhas

Eu preciso que você entenda
o que não vem escrito nas folhas
E que, afinal, compreendas
que ouvidos não ouvem com rolhas

Eu procuro uma desvairada demais
Infelizmente você não é louca
Quero muito mais que o demais
E, no entanto, você é pouca

Rogo por uma arrogante e rouca
por isso te aceno
Desejo beijos obscenos
mas você não tem boca

Quero mudar de ares
Bebericar pelos bares
Invadir botequins e tabernas
Pena você não ter pernas

Quero achar o tempo perdido
Distorcer o fato torcido
e ao levantar o amor já caído
dizer do amor não duvido

Quero mandar prá longe essa dor
e não ser na vida um ator
Prá não guardar tanto rancor
não basta escrever
muito menos se ler
É preciso entender
o que diz a palavra amor

Quero trazer-te prá perto de mim
e ser na sua vida um plim-plim
O mágico, que não chora no fim
E prá isso basta esquecer
o que não da prá esquecer
que irás logo saber
o que restou da palavra sim

1985

Na Lapa

Na Lapa
tudo se amoita e tudo se comenta
Um exército de fracos
se agüenta
Um libertino à solta
se acorrenta
Na Lapa, todo mundo se senta
E tudo, tudo acaba em sêmen
na placenta

Na Lapa
tudo é quieto e se move
Um pelotão de solitários
se envolve
Um gatuno aos berros
pede que se prove
Na Lapa, todo olhar comove
E tudo, tudo num quarto escuro
se resolve

Na Lapa
todo o sangue se esvai, todo corpo grita
E um batalhão de samangos
se prontifica
Um puritano de cuecas
vomita
Na Lapa, todo mundo pratica
E todo, todo o prazer depois jorra
em bicas

1986

Bonecas

Vejo-te emoldurada nos Arcos
e aterrorizada no Aterro praticas
Indiferente aos embargos, os bagos
oferece pacífica na Atlântica

Nas ruelas escuras
refugiam-se então
Por amor tu procuras
pois ninguém quer solidão

Uns, aproximam-se nervosos
e vão direto ao assunto
Examinam todos os ossos
explicam que é festa em conjunto
Há os que pechincham
o seu carinho
e em teus ouvidos cochicham
falando baixinho

Acompanho-te da Terra do Fogo
às galerias do Alasca
Muitas mulheres fazem teu jogo
só não têm sua casca

De algumas damas
brota inveja e despeito
Outras, com os olhos em chamas
elogiam o quase perfeito
Adolescentes se aproximam
tímidos e curiosos
E entre quatro paredes eliminam
instintos furiosos
Pelos dotes do freguês
estipulas teu preço
e aos que te alugam por mês
viras o corpo do avesso

Vejo-te com naturalidade
em meio a formas artificiais
Pois onde reina a moralidade
residem os imorais

1985

Serpentes no divã

Pai, o teu mundo rola sobre bilhas de rolimã
Esmagando no asfalto as nossas filhas
Desvirtuando a nossa irmã

Enquanto crescemos sonhando com o amanhã
o dia-a-dia vai nos roubando
todo o arfar do afã

Fala-se de guerras no Oriente, Ocidente, em Israel, no Irã
Onde está todo o leite e a promessa do mel?
Desce mestre das nuvens, sai das escrituras, dos templos, do Islã

Não é justo, só por ter Adão comido a maça
eu, que nem o conhecia, ter que por ele gemer
e viver assim nessa vida tão vã

Engolindo sapo, comendo rã
Enquanto as serpentes se deitam ao vento
se espreguiçam, se amoitam no meu divã

Já segurei crucifixo, beijei talismã
Deitei os joelhos por terra e mil vezes rezei
Mas continuo pelas noites vagando com minh’alma pagã

Vou acabar ficando cansada de ser cristã
Tendo que lutar sozinha nessa cruzada
com tanto falso titã

É meu pai, eu só queria voltar pro Paraíso e levar uma vida sã
O que preciso?
Será que tenho que ser um Deus, Zeus, Buda ou Tupã?

1985

13 de junho de 2008

No corredor

Não faz assim
Não maltrata
Sorri prá mim
Não seja ingrata
E lembra, meu bem
que um dia é da caça
o outro do caçador

Não faz piada
Não humilha
Não dá risada
Sua filha...
Mas lembra, meu bem
que hoje é de graça
amanhã tem cobrador

Não faz de tonta
Por favor
E agora conta
outro caso de amor
E lembra, meu bem
que um dia a gente se ama na praça
n’outro a gente se mata no corredor

1986

1 de junho de 2008

Bendita

Bendita a nação
cujo Deus
é o senhor

Maldita a razão
que em olhos teus
chama de amor
Acredita a ilusão
que a todo réu
inocentou
Repita a versão
a todo céu
quem decorou
Mal escrita a canção
que só de fel
se impregnou
Mas não excita a oração
que só do mel
se lambuzou

Maldita a nação
cujo Deus
crucificou

Bendita a razão
que os olhos teus
não enxergou
Acredita na aversão
que a todo réu
só condenou
Repita a ilusão
a todo céu
quem degolou
Mal escrita a oração
que só de fel
se amargou
Mas não excita a canção
que só do mel
sempre sugou

O que fazer se a maldita acredita
na bendita escrita que excita?
Então repita

2006

América

Quem não for oco por dentro
sai do centro e escolhe um canto
pois essa dor não agüento
só sai de dentro se eu canto

Quem tá comigo no barco
não tem porque se afogar
pois tenho a flecha e o arco
e tenho porque me afobar

Quem tá de beca num beco
tem que arregaçar
pois pra sair do cerco
cê tem que cercar

Quem tá vivo na vida
vive prá duvidar
sei que você duvida
mas eu vou revidar

Quem tá sozinho no escuro
arma el salto, traspassa el muro y se arma
hás usted el futuro
yo juro, la ditadura desarma


* * *
Quem brinca sempre com fogo
é fogo, vai se queimar
Mas faço sempre esse jogo
que é pra vida rimar

Quem rima certo ou errado
nas pobres e nas ricas
vou lhe mandar um recado
deixa o ódio esvair pelos poros em bicas
Rimo gado com gado, fogo com fogo
E de recado em recado
sem estar mascarado
trapaceio no jogo

Rimo governo com capataz
rimo povo com gado
Só não rimo força com paz
e não vou me deixar ser levado

Quem tá profundo no mundo
tem que vagamundar
Pois quem no mar vai pro fundo
é porque sabe nadar

Quem não berra na guerra
tiene que guerrear
Pues quem pisa los pies em lá tierra
no va de dejar pisar


1984

Minhas palavras

Sou dionisíaco, eu sei
Mas meus verbetes
são como os traços de Apolo
Perfeitos, sóbrios
...e chora em seu colo

Sou incrédulo, eu sei
Mas minha letra
é como a magia de Tupã
Irradia uma aurora infinita
...e anuncia o amanhã

Sou bandido, eu sei
Mas minhas falas
são como as balas do xerife
Abalam as bases dos audazes
...e solta o patife

Sou desafinado, eu sei
Mas minha voz
é como canto de sereia
Naufraga você que é viajante
... e molha a areia

Sou parvo, eu sei
Mas minha escrita
é como o sábio Salomão
Parte ao meio os inocentes
...e perde a razão

Sou injusto, eu sei
Mas meus versos
são como a justiça de Pilatos
Lava as mãos
...e livra os insensatos

Sou pequeno, eu sei
Mas minhas palavras
são como a funda de David
Afundam a fronte do gigante
...e olha ele ali

1986

Conto de horror

O amor é um encantador
que a serpente não despertou
É cantador
que prá mim nunca bisou

O amor encanta a dor
e a muito tolo matou
E canta a flor
que nunca desabrochou

O amor num canto esmagou
quem do amor debochou
É um conto de horror
qu’essa mulher me contou

2007

30 de maio de 2008

Pela Internet

Talvez eu seja belo, teso e tecle enter
Ou quem sabe eu seja o Belo e esteja preso na Polinter
Talvez eu seja um porco chamurdado em lama
Ou quem sabe um louco fornicando em cama
Quem sabe eu seja culto e pelo mundo viajando
Ou apenas vulto, vagabundo ou tô cagando

Talvez eu seja jovem, esportista e livre
Ou quem sabe nuvem, ativista em greve
Quem sabe seja rápido, precoce, breve
Ou apenas parasita que em outro corpo vive
Quem sabe eu seja puro, com espinhas e chiclete
Ou quem sabe no escuro eu aperte o delete

Talvez quem sabe um pedófilo navegando na Internet
Quem sabe se sou Carlos, Creusa, Marcos ou Janete?
Talvez quem sabe sou um velho traficando pela Europa
Ou quem sabe um nazista que dizimou a própria tropa
Talvez quem sabe um índio cibernético na oca
Quem sabe estou em Londres, num morro, na maloca

2005

Te amo

Não sei se te beijo
ou se te mordo as carnes
Não sei se te aliso
ou se te parto a cara
Não sei se te compro um vestido
ou se te rasgo inteira
Não sei se te envolvo na cama
ou se te chuto na esteira
Não sei se te afago os pelos
ou se te raspo os cabelos
Não sei se te conservo intacta
ou se te defloro os selos
Não sei se te chamo de anjo
ou se te exorcizo feito um capeta
Não sei se te dou guarida
ou se te devolvo, nua, à sua sarjeta
Não sei!

Já sei...
Te bato com arte
Te mordo as partes
Te chuto o seio
Te rasgo no meio
Te arranco os olhos
Te trituro os ossos
Te exorcizo, então
Te escorraço, cão
Mas, tudo é em vão
...Saudade, amor, tesão...

1987

Falsas centelhas

Um me bate, quase estupra e
vai embora
Outro se ajoelha, pede perdão
e quase chora
Mas quando os dois se cruzam no corredor
trocam olhares quase iguais
Como caçadores febris
eles se despem das máscaras
Os animais

Um me cospe, me bate na cara
e simula partir
Outro engole seco, me oferece a face
e agora sorri
Mas quando os dois se esbarram no portão
trocam gestos bem reais
Como guerreiros melanésios
eles planejam chupar meus ossos
Os canibais

Um me ilude, quase acredito
Mas é mentira
Outro me jura, fala em suicídio
e quase atira
Mas quando os dois apertam as mãos
se entregam demais
Pensam ser as centelhas
que me incendeiam por dentro
que explodem o cais
que me queimam na cama
Como, se esquecem o melaço da cana
nos canaviais?

1986

Estudante brasileiro

Sou o retrato, sou o espelho
Sou o rascunho primeiro
Sem sexo, sou o desconexo
estudante brasileiro

Sou correnteza de rio
que não corre pro mar
Sou cadela no cio
que não quer se casar

Sou pivete com frio
e bêbado sem bar
Sou menino do Rio
com parafina no olhar

Sou tartaruga sem casco
que não tem onde viver
Prostituta sem asco
que tudo faz sem prazer

Sou sol sem calor
que não aquece teu corpo
Sou menino moço com dor...
Dor do primeiro aborto

Decompondo feroz as bases
sou o primeiro entre as larvas
Dependente das frases
Prisioneiro das palavras

Quero ser só amanhã uma luz
Que cega por ser tamanho o clarão
Quero ter nos olhos azuis
o mar, o amor e a imensidão

Quero ver brotar
de meu céu-da-boca
estrelas mil
Quero ser com você moça louca
a esperada esperança
do desesperançado Brasil

1984

18 de abril de 2008

Nem sempre

É que na noite os gatos
nem sempre são pardos
Assim como os machos
sem gestos de machos
Como todos os golpes
que quase sempre são baixos

É que em verdade os padres
nem sempre são castos
Assim como as freiras
que sabem onde ficam os mastros
Como todos os meios
que não justificam os atos

É que nem todas as uvas
se sustentam no cacho
Assim como a vulva
após perder o cabaço
é que toda viúva
nem sempre espera por macho

Como a vida nem sempre
põe tesão lá embaixo
é que a luz de repente
se transforma num facho
e o prazer dá na gente
irritação e cansaço

2007

Desenlace

Não há mais dentes brancos
prá sorrir
Nem pernas
prá partir
Nem há mentiras
prá mentir
Se quer esmolas
vá pedir

Não há mais momentos
prá curtir
Nem luz nos olhos
prá luzir
Nem há desculpas
prá pedir
Se fez promessas
vá cumprir

Não há mais encontros
por aí
Nem disfarces
no tossir
Nem há frutos maduros
por cair
Se quer ser falsa
é só sorrir

Hoje há dentes amarelos
a cuspir
Há momentos tristes
a me partir
Há encontros tolos
sem porvir
E olhares, muitos olhos
prá ferir

1985

Txukarramãe

Não assino papéis
e não faço contrato
Nunca freqüentei academia
prá ter músculo exato
Jamais ofereço a outra face
revido no ato
E não cultivo patrulhas
prá fechar sindicato

Eu sou txukarramãe
Me deixa morrer no mato

* * *

Não aplicava torturas
e não usava chibatas
Pois o que dizia era lei
e não artigos de atas
Não cobrava tributos
de uma vida sensata
Homem branco é leão
que esmaga nas patas

Eu era txukarramãe
Me leva a morrer nas matas

1985

Soneto à rotina

A solidão a dois existe
e em meio a multidão sinto-me só
Mas a corda bamba do amor insiste
em tecer em meu peito um nó

Estou cheio da vida
e vazio por dentro
Supurou na ferida
Não sei mais se agüento

Meu bem, é preciso mentir muito bem
Não diga nunca o que mereço ouvir
É cruel demais, melhor mentir

E eu também repito frases e juras iguais, mais de cem
E não é bom repetir mais e mais
Veja só nossos pais

1985

2 de abril de 2008

Ácidos

Subo o Everest e me sinto ínfimo
Não te procuro e me sinto íntimo
Chego em último, feliz como o primeiro
Fantasiado em julho como se fosse fevereiro

Levanto vôo para me sentir em terra
Te busco como anjo travestido em fera
Corro, prá chegar em último
Se sou ruim sinto-me ótimo

Vivo, sinto-me póstumo
Longe, sei que sou próximo
Privado quando em público
Bebo prá ficar lúcido

Te amo às claras, como um mágico
Duro, como um membro flácido
Gentil com olhos ácidos
Te venero com versos trágicos

2007

Olhos de mel

Nossa, como você foi cruel!
Nos lábios muito mel
Muita luz e muito fogo
mas muito inferno e pouco céu
Nos discursos muito mel
Faz promessas ao posseiro
depois o entrega ao coronel
Nas carinhas inocentes muito mel
Nos carinhos que lhe roubam
és prostituta de bordel
Como você me fez cruel!
Fez atirar pedras em ti
como atirou Jezabel
Nos Jardins de Babilônia me perdi
seu demônio infiel

Por Deus, como pôde ser tão cruel?
Na sinopse muito mel
e na verdade água e açúcar
Muita novela, Capricho e Sétimo Céu
Nas palavras muito mel
Depois só saudades
...porres, versos, poesias de cordel
Nos teus quartos muito mel
Solidão nos corredores
e eu perdido nesse hotel
Como você me fez cruel!
Confundi todas as falas
Cantei nas torres de Babel
E atravessei por entre balas
os desertos de Israel

Olha como você é cruel
Tuas ações esbanjam mel
Dá esmolas pré’u mendigo
depois rouba o meu chapéu
Detrás das lentes muito mel
Dentro do carro um anjo azul, feliz
atrás da máscara uma atriz e seu papel
Nos teus seios muito mel
Muito bálsamo benigno
mas no olhar veneno e fel
Prometestes a Terra Prometida
onde jorra leite e mel
e eu agora sem saída
no inferno e em frente ao céu

1982

Pirralhas

Garrafas, cascos pelo chão
Marafas, asco e solidão
Litros, rótulos pelo ar
Mitos, túmulos, vomitar

Copos, doses pelo balcão
Copas, amor, cartas na mão
Mesas, toalhas pelo bar
Tesas, pirralhas para amar

Cachaça, veneno pelo corpo
Desgraça, pequeno, morto
Viagens, ida prá não voltar
Virgens, quase nada prá se deitar

Damas, corpos pelo salão
Dança, sexo sem permissão
Camas, mortas de tanto amar
Tesas, pirralhas, putas de bar

2007

Cabaré de Buenos Aires

Apesar do ranço de maresia
que sobrou dos militares
Apesar dos pesares
Da noite que amedronta
e acampa nos bares
A vida marcha melhor
num cabaré de Buenos Aires

Apesar da fumaça
que embaça a vidraça
e que turva os olhares
Apesar dos pesares
Das muchachas que rodam
e enlaçam seus pares
A vida valsa melhor
num cabaré de Buenos Aires

Apesar de ter ficado no tempo o Armenoville
a voz de Gardel inda vaga nos ares
Apesar dos pesares
Dos corpos dos estudantes
que hoje emergem dos mares
A vida flutua melhor
num cabaré de Buenos Aires

Apesar das saudades
que sinto da minha cidade
e que vejo em todos os lugares
Apesar dos pesares
O teu olhar inda ilumina o meu peito
feito a luz que vem de Antares
E o exílio é um pouco melhor
nesse imenso cabaré que é Buenos Aires

1986

Narciso

O perigo é você se acostumar
com a solidão
Não mais cultivar o sim
e plantar a semente do não

E então, ao se ver sozinho
conversar com o próprio botão
Se abraçar pela cintura
e beijar a própria mão

Com a cabeça perdida na lua
você joga os olhos ao chão
E persegue a própria sombra
que vê no paredão

Nesta festa consigo conhece Narciso
e o chama de irmão
Agora os dois se abraçam
Rodopiam no salão

Lute amigo, não se entregue
Escancare o peito e abra o coração
Quem vive se machuca e machuca
Quem ama perdoa e pede perdão

1985

15 de março de 2008

Guinha

Que palavras encontrar
para expressar todo o sentimento
das lembranças, do momento
do maravilhoso tormento que é amar?
Tu já és para mim água cristalina
e luz que guia na neblina
Deu-me certeza de ser homem
Deu-me vontade de ter fome

Que verso tolo escrever
só prá dizer do encantamento
das lambanças, dos rebentos
do genial delírio que é te ter?
Tu já és certeza de alegria
e a mais pura poesia
Você, que roubou meu sobrenome
da beleza és um clone

Que inspiração devo buscar
se és tudo o que preciso
minha lágrima, meu riso
e meu mais lascivo olhar?
Você chegou a mim feito um ciclone
Não deixou nome ou telefone
Mas em tua festa penetrei
Fiz-me em tua vida um cicerone

Que poesia posso ter
se és do universo o próprio centro
o mais real dos pensamentos
e até razão de meu viver?
Tu já és o bálsamo que cura
e minha única não fingida jura
Eu, no prazer da noite insone
em teu colo caio em si, Moni

2008

Painel

Desfolhando à bíblia:
Desacordado está Deus
Demarca as terras
Deságua os mares
Descobre Adão
Descobre Eva
descostelando Adão
Desviados pela serpente
deportados são

Desfolhando à história:
Desaforados navegantes
descobrindo o Brasil
Devassando as ocas
Desvirginando as virgens
Degolando guerreiros
Desbravando as terras
Desmatando as matas
Desrespeitando as feras

Desfolhando à memória:
Destituído o regime militar
Desenvolvida a nação
Desnutrida a criança
Descontente o povo
Dado o golpe de novo
Desesperançada a esperança
Desativado o Congresso
Decretados os decretos
Duvidoso o progresso

Desfolhando òs jornais:
Despatriado Brizola
Decretada intervenção
Desburocratizada a desburocratização
Desvalorizado dentro dum dia dez dúzias de vezes o dinheiro
Desacreditado o milagre brasileiro
Desclassificado o Brasil nas oitavas-de-final
Desenterrado Baungarthen
Debatida a sucessão presidencial

Desfolhando ò futuro:
Desolados os povos
Desgarradas as ovelhas
Desfeitos os tratados
Deflagradas as guerras
Desarmados os homens
Defloradas as mulheres
Detonados os botões
Descaracterizados os caracteres

Desfolhando ò meu ego:
Desinteressante texto
De desinformado autor
Denso desencontro de idéias
Dentro de ódio e amor
Desajeitadas frases
Desiludidas como eu
Desacertadas são as crases
Desmiolado demais sou eu

1984

4 de março de 2008

Pode

Pode um homem dizer sim dizendo não
numa terra em que a Justiça anda cega de paixão?
Pode o rico mendigar o próprio pão
se o cenário não tem nada de ilusão?

Vi um santo duvidar da própria fé
Vi um bêbado sambando num só pé
Pode a vida não surgir d’uma mulher?
Pode João Batista perdoando a Salomé?

Se o cordeiro tem a força de um leão
então pode a borboleta aniquilar o escorpião
Pode o touro cavalgar sobre o peão?
Pode na bolsa o ouro valer menos que latão?

Se pode nosso amor abrir fendas pelo chão
transformando seu olhar num farol na escuridão
Então posso te ter na umidade do porão
e me enfiar pelo teu sexo só pra voltar num embrião

2007

Como morto

Em que oceano me afogar?
Com que novo coração me iludir?
Com que punhal me apunhalar?
Em que barco posso partir
só para esquecer que te amo?

Em que buraco me enterrar?
Que nova droga consumir?
Com que corpo me deitar
Só como morto posso fingir
então reviver e dizer te amo

1977

I Tessalonicenses 5:18

“Em tudo dai graças; porque esta é a vontade de Deus, em Cristo Jesus, para convosco”.

Obrigado Senhor
Pelo estômago vazio que ronca
Pela gestante abandonada que anda tonta
Obrigado
Pelo canivete do pivete em pleno ventre
Pela vadia que se abre prá que’u entre

Obrigado Senhor
Pela manchete sangrenta que se agiganta dia-a-dia
Pela lágrima que brota no olhar de quem sorria
Obrigado
Pelo cachorro louco vagando na avenida
Por essa terra assim mal dividida

Obrigado Senhor
Por ter palavras sem tamanho à vomitar
Por me sentir um estranho em meu próprio lar
Obrigado
Pelo presente grego que me destes em forma de mulher
E pelas correntes liberais que ataram no meu pé

Obrigado Senhor
Pelo beijo traído da mulher aranha
E pelas venenosas unhas da gata que me arranha
Obrigado
Pelo mandamento não cumprido
E pela infertilidade que vem num comprimido

Obrigado Senhor
Por dar a César tudo o que não é de César por direito
Pela mãe que nega ao filho o próprio peito
Obrigado
Pelas falsas juras de amor de suas Evas
Pelo efeito alucinógeno contido em tuas ervas

Obrigado Senhor
Pelo dirigente não eleito que rouba o meu destino
Pela fera enlouquecida que fizeram do menino
Obrigado
Pelo bronze, a prata e o ouro dessa igreja e do teu sino
E por ser miseravelmente pobre o meu destino

Obrigado, enfim, Senhor
Por poder dizer obrigado mesmo encharcado de ironia
E pelo anjo do mal germinar meu peito assim com poesia

1985

Soneto às palavras

Soletro, pulso e conjugo
sofrimento com alegria.
Incansável, carrego esse meu jugo,
que idiotas chamam poesia

Em cada vírgula reticente
o flashback de uma vida,
passada a limpo num repente
e sem vitória adquirida.

Que prazer mais masoquista e infame,
se palavras não redimem esse homem,
que apenas cai no poço e entra em pane.

Nessa dor a corda enrosca o abdome
e já me corta os pulsos o arame.
Pontos, vírgulas, vermes... todos já me comem.

2005

1 de março de 2008

Como?

Como se portar?
Como se importar mais
com os animais?
Como entender a mediocridade
dos mortais?
De onde importar a paz?
Como se transportar
pro nunca mais?
Como se embriagar
na beleza dos postais?
Como emoldurar a Deus
nesses portais?
E mais...

Como me encontrar?
Como se contar mais
com os nossos pais?
Como entender a mediunidade
e os cardeais?
De onde contar um a mais?
Como contornar
os grilos do rapaz?
Como se encantar
com o canto dos pardais?
Como encaixilhar você
nesses meus ais?
E mais...

1986

Me esqueça

Não me deixo levar
porque não há tempo
Quero assim flutuar
ao sabor do vento

Sou hoje um rio fora do curso
que não retorna jamais
Sou o amigo urso
que traz sempre palavra de paz

Não me deixo sangrar
porque não há sangue
Quero assim desatar
minhas amarras do mangue

Águas passadas por todos os tolos
não movem mais este moinho
Mas moverão outros
adiante do caminho

Não me deixo viver
porque não há mais jeito
Quero assim morrer
de paixão no peito

Por isso me esqueça!
Pois eu firo como lança
e me lanço feito bálsamo
por sobre sua cabeça

1985

Pelas Cruzadas

Mulheres criadas em nome do amor
Amadas, frágeis, pernas cruzadas
Belas, moldadas em barro nas costelas
Mortas pelas Cruzadas

Mutiladas em nome de Deus
Acuadas pelas Cruzadas
Punidas em nome da Cruz
Prostradas à joelhadas

Mortas em nome da vida
Acorrentadas pelas Cruzadas
Feridas em nome do perdão
Pancadas, castradas

Manchadas em nome da salvação
Armadas pelas Cruzadas
Temidas em nome da purificação
Porradas, violadas

Machadadas em nome do Criador
Amedrontadas pelas Cruzadas
Tolhidas em nome da fé
Podadas, queimadas

Machucadas em nome do sacrifício
Amaldiçoadas pelas Cruzadas, pelo Sagrado Manto
Ungidas com sangue em nome do Pai, do Filho
e do Espírito Santo

2007

Submundo

Dos becos, dos guetos imundos
do submundo
saem os rebentos nojentos
os vagabundos

Do canto escuro, detrás do muro
as meretrizes
De algum furo além do futuro
os infelizes

Dos botecos, das biroscas, os bêbados
e seus filhos
Dos viadutos, das pontes, nus nas fontes
os maltrapilhos

* * *

Da Rua das Bichas, nos cantos do antro
Por debaixo das camas, insanas
taradas, caladas, as faladas
moças
Geradas à noite, debaixo de açoite
Em meio a coices, cóccix, coitos, biscoitos
Por entre trouxas, louças, colchas
nas coxas

* * *

Dos prontos socorro, do morro, do mofo
os bandidos
Dos sanatórios, dos nosocômios, do manicômio
os desvalidos

Dos cabarés, dos bares, da vida, do cais, das grutas
as prostitutas
E carcomidos pelos bichos, nas latas de lixo, os fetos
os filhos das cujas

Dos hereges templos, do blasfemo tempo
os falsos profetas
E das infundadas teses, das fedidas fezes
nós... os poetas

1986

8 de fevereiro de 2008

Vendo

Vendo tudo, por qualquer dinheiro
Um balde de obra, cimento, uma colher de pedreiro
Quatro ferraduras, o cavalo, um velho ferreiro
A mulher, duas amantes seminovas, o cunhado...
E a sogra leva quem chegar primeiro

Vendo um índio, um casal português e todo o Congresso Brasileiro
O Amazonas, São Paulo, o Piauí e um crivado Rio de Janeiro
Um cafetão, quinze putas e um bem situado pardieiro
Um galo de briga, dois pintinhos, milho picado...
E, por fim, todo o galinheiro

A filha virgem, minha jóia mais cara, vendo ao mais rico joalheiro
Sete pecados capitais, um altar, dois perdões, o pastor e o obreiro
Vendo três horas, um domingo, o ano quase todo, mas só de março a janeiro
Dois versos de Vinícius, um acorde do Tom e, do Jackson, o pandeiro
Um rolo de papel, sabão líquido, a torneira e esses versos que fiz nu no banheiro

2007

Por detrás do esparadrapo

Por detrás do esparadrapo
resta o que sobrou de ti:
um molambo, um velho trapo

Por detrás do esparadrapo
se esconde a jura que não fez,
a saudade do amor ingrato

Por detrás do esparadrapo
a vontade de morrer,
de gritar, de se perder no mato

Por detrás do esparadrapo
adormece a ferida,
a lama, o esgoto, o rato

Por detrás do esparadrapo
a poesia mais bonita,
o bote... e a cobra come o sapo

Por detrás do esparadrapo
avisto os teus cacos,
varro, junto e cato

Por detrás do esparadrapo
o deserto imenso,
o abutre, o cacto

Por detrás do esparadrapo
existem mãos amigas:
a aliança, o pacto

Por detrás do esparadrapo
seu coração em sinuca:
o pano verde, o taco

Por detrás do esparadrapo
dois olhos te fulminam:
o bêbado, o vulgar, o chato

1985

Na hélice do teto

Na hélice do teto
meu mundo gira
embriagado, calmo, inquieto
Na hélice do teto
meu mundo pira
sedento, excitado, ereto

Na hélice do teto
o amigo mais constante
e o inimigo, o desafeto
Na hélice do teto
saudades da amante
desejo de estar perto

Na hélice do teto
a vontade de retroceder
Japão, ventre, feto
Na hélice do teto
pensamentos de morrer
contaminado, sujo, infecto

Na hélice do teto
minha tese pelos poros
língua, pênis e reto
Na hélice do teto
me vejo e coro
senhor, Deus, rei, cetro

Na hélice do teto
crônicas de uma vida
tratados, filosofia, poema concreto
Na hélice do teto
sei que você duvida
mas digo te amo em dialeto

Na hélice do teto
minha cabeça em guilhotina
entregue, me enfio, penetro
Na hélice do teto
sonhos de menina
mulher, filhos, neto

Na hélice do teto
Alice Cooper, guitarras, drogas
Alice, país, ma-ra-vi-lhas... soletro
Na hélice do teto
réus, sentenças, juízes, togas
grades, ferros, umidade, insetos

Na hélice do teto
devaneios, confusão
Chico, Roberto, Frei Beto
Na hélice do teto
despedidas, solidão
embriagado, calmo, quieto

Na hélice do teto
o vôo por instrumentos
cego, tempestade, sem teto
Na hélice do teto
todo sentimento em movimentos
sem-terras, sem pão, sem-teto

Na hélice do teto
tudo é solidão
coisa, lixo, objeto
Na hélice do teto
tudo é nada e não
fogo, explosão, fujo, ejeto

* * *

Do vértice do teto
vertem-se paralelas
curvas, pontos, ângulo reto
No vértice da hélice
divertem-se elas
Nice, Eunice, Alice
No vértice delas
tudo o que não disse
e agora são elas por elas

Na hélice do teto
a poesia de um irmão
com o verso milimetro
Na hélice do teto
nem tudo é sim e não
errado ou certo
Eu sei, não sei, cansei
mas o certo é que se errei
foi por culpa da paixão

2005

1 de fevereiro de 2008

Soneto ao amor

Preso, atado, clausuro.
Ilhado, sozinho, perdido.
Surdo, mudo, cego no escuro.
Recluso, em regime fechado, escondido.

Banido, tocado, expulso, exilado.
Náufrago, prisioneiro, detido.
Trancado, algemado, à deriva, engessado.
Parado, ancorado, amarrado, retido.

Com fome, com sede, com frio.
Com náusea, com febre, com dor.
Com sangue, com marcas, em calafrio.

Sombrio, sem forças, sem voz, sem pudor.
Senhor sem escravos, sem rosto, sem ego, sem cio.
Espio, é ele, sem passado ou memória, mas cheio de amor.

2005

Devolve

Devolve todos os meus discos
Devolve o brilho pros meus olhos com todos os seus ciscos
Devolve “Erótica”, a revista
e o manifesto do Partidão Comunista
Devolve, devolve, devolve. Vai devolvendo tudo!
Ah, devolve minha foto que tá sobre o criado-mudo
Devolve todos os meus poemas
e junto com eles traz todos os meus problemas
Anda, resolve!

Devolve o meu corpo de novo pros botequins
Chega de me embrulhar! Me embrulha e me manda pros confins
Me devolve pro fundo das minhas garrafas
Me solta da malha de suas tarrafas
Me devolve prá noite pr’eu curtir minhas ressacas
Devolve a amidalite que te passei com todas as suas placas
Me devolve prá cidade grande, pro monóxido de carbono, pro corre-corre
Devolve a inspiração que eu tinha quando tava de porre
Manda a caixa de Engov!

Devolve o sobrenome que feito tolo lhe emprestei
Devolve todas as madrugadas que contigo varei
Por favor, devolve toda a tralha!
Devolve em forma de aliança o final dessa batalha
Copia e devolve a fórmula do molho inglês
Diz que é cafona, mas manda o meu terno de xadrez
Devolve a receita do exercício prá seio flácido
Devolve as dicas que dei prum suicídio bem rápido
e traz num lenço o revolver

Devolve assim, assi, ass, as... cada carícia que te passei
Devolve cada momento de gozo que lhe dei
Devolve o feto que há dois meses te fiz
e cada gargalhada de mulher feliz
Devolve com juros cada jura de amor, sua louca!
Devolve todos os vírus que roubou da minha boca
Devolve gota a gota cada gota de meu sêmen
Me liberta que serás também
Me envolve

Devolve aquelas surras
me curra
Me corta com os cascos de champanhe
Depois amarra de novo o cordão
larga a minha mão
E me devolve ao ventre escuro da minha mãe

1986

28 de novembro de 2007

Damas e dramas

Por entre calhas e canos
desembocando em esgotos medonhos
mergulhado em sonhos
fiz pontos e planos
Por entre pernas e panos
abocanhando bocas risonhas
enfronhado em fronhas
por anos fiz danos

Por entre acnes e carne
carnívoro e sedento
vivi o meu tempo
fiz crack e charme
Por entre chambre e charque
seco e salgado
solteiro e casado
fiz crash e fui craque

Por entre peles e pelos
com línguas e dentes
lúcido e demente
cuspi cabaço e cabelos
Por entre poros e zeros
cavalguei sem ter selas
das tenebrosas e belas
violei seios e selos

Por entre costas e coxas
entre marcas e estrias
mornas, quentes e frias
desfiz camas e colchas
Por entre loucas e louças
vendi ilusões, fiz enxovais
comprei alianças, menti muito mais
despi moços e moças

Por entre poças e poços
bandas profundas
cheirosas e imundas
transpus gozos bem grossos
Por entre nervos e ossos
nervoso e trêmulo
liberei meu pêndulo
sem retorno ou remorsos

Por entre camas em chamas
entre copos e corpos
bem vivos e mortos
em lençóis e na lama
Por entre toalhas, pijamas
despindo frestas em festa
sadias e infectas
vi damas, vivi dramas

1984

19 de novembro de 2007

Amor da vida

Nosso olhar procura e acha
Brilha, incendeia
O amor invadi, fere
adora e odeia

A morena vem e olha
Pisca e vai
O amor penetra, queima
entra e sai

O coração bate e canta
Ri e chora
O amor deságua, inunda
empalidece e cora

O poema surge e cresce
Entristece e alegra
O amor enlouquece, endoida
e quem ama não empresta, entrega

A maré desce e sobe
Vai e vem
O amor modifica, transforma
é doce e amargo também

A vida passa e marca
Chicoteia e arde
O amor transborda, enche
e em silêncio faz alarde

A solidão chega e fica
Definha e mata
O amor cega, encanta
porém é laço e se desata

A saudade águia queima e não morre
É cruel à-toa
O amor fênix ressuscita, corre
e então bate asas e voa

O tempo apaga e afasta
Relembra e esquece
O amor sacode, anima
Quem ama é feliz, mas padece

A gente nasce e cresce
Reproduz e morre
O amor dá vida e mata
e se traduz num porre

1980

15 de novembro de 2007

Madrugada urbana

De madrugada
um vira-lata perambula
e lambe a pata machucada
De madrugada
a própria moita se move camuflada
De madrugada
Jack estrangula
e ri da moça estrangulada
De madrugada
o supersticioso dorme debaixo duma escada

De madrugada
alguém vira pro lado
e diz não à sua amada
De madrugada
a própria cobra morre envenenada
De madrugada
um bêbedo drogado
agoniza na calçada
De madrugada
a beata entre a cruz e a cabeça de uma espada

De madrugada
um brutamontes se imagina
quer ser boneca meiga e delicada
De madrugada
a própria bruxa se vê enfeitiçada
De madrugada
a varanda se ilumina
e surge um vulto na sacada
De madrugada
um corpo se esmigalha no asfalto duma estrada

De madrugada
o rato se move no porão
e vai pro quarto da empregada
De madrugada
a própria fogueira é por vezes congelada
De madrugada
o mato toma conta de um coração
e Cupido caçador entra empunhando uma espingarda
De madrugada
a saudade vem comigo me ajudar nessa caçada

1984

Madrugada latina

De madrugada
mais um verso é rabiscado
O papel se perde, a poesia é censurada
De madrugada
alguém caleja a mão calado ao cabo de uma enxada
De madrugada
outro perverso é libertado
Tem ombro largo, costa quente e veste farda
De madrugada
suicidaram Allende com dez minutos de rajada

De madrugada
a bandeira americana
na América Central foi desfraldada
De madrugada
fundou-se a ditadura aos nossos olhos disfarçada
De madrugada
de novo a saga mexicana
de novo a prata espoliada
De madrugada
Castro no governo e tropas invadem Granada

De madrugada
Banzer pegou Guevara
e acabou-se a guerrilha armada
De madrugada
outra eleição se fez fraudada
De madrugada
preparam o pau-de-arara
e torturam o camarada
De madrugada
mães na Praça de Maio e a Argentina ensangüentada

De madrugada
Menguele, Stroessner, Somoza...
bebem vinho na amurada
É madrugada
e alguém ensaia uma virada
De madrugada
e que aqui ninguém nos ouça
a terra sempre foi, foi por eles loteada
De madrugada
alguém respira um pouco e logo vem outra porrada

De madrugada
Jango decola prá nunca mais
Nunca mais pompa, pampas, nunca mais pátria amada
De madrugada
e olha a UNE incendiada
De madrugada
e a noite acampa no cais
Nunca mais poesia, nunca mais batucada
De madrugada
tanques ganham as ruas, não resta mais nada

1984

Soneto à boceta

Porque és tão pusilânime?
Infame! És somente boceta!
E, como tal, és em mim unânime
até que em gozo me converta.

Rosada, pálida, desgrenhada e fétida.
Por ti irmão mata irmão e, então,
és retorno ao começo da vida
e dádiva solitária ao toque de mão.

Ah, boceta! Como és difícil,
às vezes, quando não encantas a serpente
que te canta e que por ti se fez viril.

És sempre igual, soberba e diferente.
Indiferente, amada, reles, maldita, intacta e vil.
Sou só mais um, em meio a mil, e me acabo assim, tão de repente.

2005

13 de novembro de 2007

Todos iguais

Somos todos insanos
dia-a-dia, ano a ano
Planejando um futuro
sem qualquer plano
Ajoelhados a deuses
de barro e pano

Sou quase todo burguês
dia-a-dia, mês a mês
Com toda a certeza
do quem sabe e do talvez
Vestido como santo
em plena nudez

Somos todos da lama
dia-a-dia, semana a semana
Como viúva velha
com saudade da cama
Virgem, casta, pura
e com o sexo em chamas

Sou quase nada poesia
hora a hora, dia-a-dia
Feito brisa do mar
que só traz maresia
Como estar sozinho
em má companhia

Somos todos de fora
dia-a-dia, hora a hora
Como quem chega correndo
só prá poder ir embora
Feito quem só se pergunta
o que faço agora

Somos todos uns putos
dia-a-dia, minuto a minuto
Como quem entra no mar
prá manter-se enxuto
Como quem trai o amor
ainda vestido de luto

Somos todos imundos
dia-a-dia, segundo a segundo
Como o que foge do mar
mergulhando no fundo
Feito o que acorda pensando
ser o centro do mundo

Somos todos iguais
traçando o rumo da vida
com as regiões genitais
Queremos sempre bem mais
Feito você, querida
Pois somos todos iguais

2007

Jogo cênico

Existe um jogo cênico
entre o teu corpo e o cobertor
Persiste o beijo cínico
dado por favor
Abriram a ducha fria
Vê como esfria o nosso amor
Anda, espia
Vê como murcha a flor

Existe um nojo crônico
entre o leão e o domador
E ecoa um riso cômico
que vem do corredor
Abriram nossas portas
e nos mostram sem pudor
Por debaixo das cobertas
mil descobertas
Um perdido e um perdedor

Existe um jeito angélico
no olhar do meu amor
Porém seu peito é gélido
feito olhar de caçador
Abriram nossos olhos
e veja o que restou
Por debaixo das carícias
muita malícia
Mas nenhum resto de amor

1984

9 de novembro de 2007

Manuscrito

Apenas um manuscrito
que liberte aos ventos
os meus gritos
Aos quatro cantos do mundo
feito um raio
esse rabisco

Apenas um manuscrito
que liberte os homens
os aflitos
Aos quatro bares que mais gosto
feito um paio
esse petisco

Apenas um manuscrito
que liberte os sonhos
os mitos
Aos quatro Cavaleiros do Apocalipse
feito um baio
esse corisco

1986

8 de novembro de 2007

Parto após o parto

Do desencontro de nosso amor
que se encontrou num botequim
restou cicatrizes e marcas
e garrafas e garrafas
de Gin

Do encontro de nosso amor
que se desencontrou num carnaval
sobrou confetes e cartas
e discos e discos
da Gal

No descaso de nosso amor
a paixão não existe mais
pois foi-se embora pra longe
feito balões e balões
de gás

De nosso caso de amor
que foi triste e feliz
guardei teu sorriso branco
feito bastões e bastões
de giz

Com o desalento de nosso amor
o juiz Cupido apitou
sufocando a festa
e os gritos e gritos
de gol

Do alento de nosso amor
o que ficou de bonito meu bem
foi teu parto sem dor
premiando um amor que termina
num gen

1985

7 de novembro de 2007

Aquela mulher

Se danem todos os credos
Profanem todos os templos
Esqueçam todos os medos
Provoquem todos os ventos
Quebrem todos os santos
Rasguem todos os livros
Cuspam em todos os cantos
Derretam todos os discos
Façam tudo em mil cacos
Ateiem fogo ao altar da fé
Estilhacem os meus olhos...
Mas me deixe intacta
aquela mulher

1986

6 de novembro de 2007

Frases soltas pelo ar

Sou multinacional americana: Ltda., S.A. e C&A
Contrabando e pirataria
Sou colegial gazeando geografia
Relevo, solo e hidrografia
Sou o que foi à Lapa ver se havia
Corre-corre, porre e pancadaria
Sou pagador de promessas subindo a escadaria
e também cacetete, polícia e cavalaria

Sou pistom de gafieira em surdina
Dominó, sueca, ronda, bate-papo de esquina
Sou meretriz, beata e sou menina
Geni, Januária e Carolina
Sou guerrilha armada nas colinas
Havana, Manágua e Filipinas
Sou a pedra mais vistosa da mina
e merda que o corpo elimina

Sou quem deflora as páginas com o lápis ereto
Esqueço a inocência e vou direto
Sou o entulho autoritário que deu certo
O democrata do decreto
Sou bala perdida que passou perto
Roleta-russa, tiro incerto
Sou na pirâmide social o lá do teto
mas de lama estou coberto

Sou frases soltas pelo ar
Arrumadinhas prá rimar
Sou o poeta bêbado do bar
A esperança cantada em “Vai passar”
Sou tudo aquilo que não dá prá segurar
Substantivos comuns e verbo amar
Sou poesia tola de um vulgar
dum momento, duma pátria, dum lugar

1986

2 de novembro de 2007

Mais nada

Não há mais nada a dizer
que já não tenha dito
Nada mais a escrever
que não esteja escrito
Amor maldito!

Não há mais nada a ouvir
quando advêm de um grito
Nada sobrou do testemunho
que não seja um mito
Amor bandido!

Não há nada a esmolar
no portão de um rico
Separe meu bem dos tolos
e diga ao povo: eu fico
Amor perdido!

Não há boas sementes
entre o joio e o trigo
Nem um pêssego, uma uva, um figo
Se não há mais perdão
entre pai e filho
Se não há mais vida
entre o suicida e o trilho
Se não há mais luz
que emane brilho
Se já morreu na cruz
o bastardo e o filho
Se já não há mais rimas
nesse estribilho

Não se faz pipocas
sem explodir o milho
Não se dorme bem
sem esmagar os grilos
Não se arruma um bem
sem se perder dez quilos
Não se pisca um olho
sem mexer os cílios
Não se tem fartura
sem lotar os silos
Não conheço estrela
brilhando mais que cirrus
Não se chega a nada
andando em círculos

Então melhor desistir
ir para casa, comer sucrilhos
Amar a própria esposa
brincar com os filhos
Semear o joio
pensando ser o trigo
Comer bananas
pensando em figo
Empobrecer as rimas
e os estribilhos
Vou deixar que outro
descarrile os trilhos

2005

29 de outubro de 2007

Vendilhões

"E entrou Jesus no templo de Deus e expulsou todos os que vendiam e compravam no templo, e derrubou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombas. E disse-lhes: Está escrito que a minha casa será chamada casa de oração. Mas vós a tende convertido em covil de ladrões". Mateus 21:12 e 13.

Vendo sangue, vendo pus
Vendo o cego que toca blues
Vendo o sol, me lembro
E te vendo a luz
Por trinta dinheiros vendo
Jesus
E, por último, te vendo a cruz

Vendo cargo, vendo voto
Vendo a semente que gera broto
Vendo o Alvorada, me lembro
E te vendo o Torto
Por muito pouco te vendo
O corpo
E, por último, me vendo morto

Vendo alívio, vendo pânico
Vendo o escarro que causa vômito
Vendo o Pacífico, me lembro
E te vendo o Atlântico
Por um riso vendo
O cômico
E, por último, me vejo atônito

Vendo o excesso, vendo a falta
Vendo as luzes da ribalta
Vendo a manchete, me lembro
E te vendo a pauta
Por ganância vendo
Ações em alta
E, por último, vivo à flauta

Vendo por baixo, me vendo por cima
Vendo o sexo da menina
Vendo o texto, me lembro
E te vendo a rima
Por mais ouro vendo
A mina
E, por último, bebo urina

Velho, me vejo
E, no espelho, eu de joelhos
Cansado, exausto, manco, todo enfermo
Vendo um olho que vê a esmo
Vendo o amigo, me lembro
Roubo e vendo a mim mesmo
Vendo a calça, a casa, o terno
Vendo a lembrança do momento mais terno
Vendo a tempestade para esfriar o inferno

Vendo, me vejo
E, no varejo, me vendo inteiro
Baço, fígado, rim... qualquer dinheiro
Vendo um pênis cheio de desejo
Vendo a boca, me lembro
Lambo, invejo e vendo o beijo
Vendo um olhar certeiro
Um dente de ouro, o beiço, o queixo
E, por último, vendo o primeiro

2006

25 de outubro de 2007

Pude te amar

Em que cais, em que porto, que barco, que mar
Com que bote, que bóia, que remo e nadar
Mergulhar não deixar nosso amor naufragar
Ancorar em teu corpo seguro e de amor me afogar
Com que corda, corrente e que laço irá me salvar
Se amarrar os teus passos eu sei que não dá

Em que rua, que praça, que casa, que lar
Devo entrar sem bater pro teu corpo encontrar
Com que chave, que toque e que senha usar
Desvendar seu segredo sem medo já sei não vai dar

De que modo, que braço e que força fazer prá abraçar
O teu peito apertar para então nunca mais te soltar
Com que cara de culpa, desculpa, que culpa imputar
Se um cara e de cara mais nova ao seu lado deitar

Com que fome, que sede, vontade e saudade te amar
Te agarrar e beber dessa fonte defronte pro mar
E que urro, que berro, gemido, que grito vou dar
E gozar na certeza de um tempo que não vai voltar

Com que tinta, em que tela, que quadro pintar
Essa história tão linda de amor que nasceu prá apagar
E que prova, que gesto, que jura mais pura eu podia te dar
Eu te dei minha vida, querida, e agora você sei que vai me deixar

De joelhos, cansado, suado, chorando pedir prá você só ficar
Só me dar mais um pouco, uma noite, um minuto, um olhar
Prá que o tempo não possa nos ver e fingir não passar
Prá que eu tenha amanhã, pelo menos, mais tempo a contar
Prá que o tempo futuro o passado possa recontar
E lembrar que você já foi minha e que um dia eu pude te amar

2007

4 de novembro de 2000


Quem sou eu

Minha foto
Niterói, Rio de Janeiro, Brazil
Nasci em 1962, sou casado, tenho dois filhos e adoro simplicidade. Formado em Jornalismo, sempre gostei de brincar com as palavras, de tirar delas o som, o sentido não exposto, o sentimento.