8 de junho de 2012

Um qualquer


Sou apenas um ser qualquer
Corpo masculino, alma de mulher
Suado e perfumado, rubro, bipolar
ou o que mais quiser

Sou apenas um comum
Muitos em apenas um
Com forças e cansado, tenso, distante
 mas pronto para o zoom

Sou apenas uma parte da matéria
Vírus circulante pela artéria
Rico de incertezas, uma joia
 enterrada na miséria

Sou apenas um a mais
Oculto, perdido, vagando entre os demais
Atento, alerta, descrente e obstinado
 na busca dos sinais

Sou apenas um esboço
Reciclado do que um dia já foi moço
Correndo contra o tempo, andando lento
 para esquecer a dor que corrói o osso

Sou apenas um errante
e de mim mesmo um viajante
Discreto, tímido, oculto, silencioso
feito um assustado que sai da casa da amante

Mas tenho que ser exemplo:
Filhos, mulher, família todo o tempo
Sóbrio, sério, seguro, correto
Espelho a conviver nesse tormento

Na ilusão de que um dia serei livre
Com a certeza que só existe morte prá quem vive
Planejo ir onde nunca estive
Sou apenas o que acredito que não sou
Excitado e louco para ir onde não vou
                                      Preso em casa tenho asas
 Sou lebre, leve, ave livre que revive a cada voo

Nota: um dia depois de completar 50 anos, em 8 de junho de 2012

28 de maio de 2012

Desisti


Escancarei meus braços
lançei mil laços
te prendi
Esmagado em abraços
ao perseguir teus passos
me perdi

Enlouqueci de amores
lhe mandei mil flores
me ofereci
E cheio de saudade
com sinceridade
te esqueci

2012

Ditos


Um é pouco, dois é bom
três ideal
Em casa de ferreiro
o espeto nunca é de pau

Quem coloca o carro
Na dianteira do boi
sempre chega na frente
de quem não foi

Na lista da vida a esperança
é a primeira que morre
Só quem sabe beber
é que fica de porre

O último que sai
nunca apaga a luz
Nem sempre o pecado
ao inferno conduz

Últimos nunca serão
nem de longe, os primeiros
O que me fere o olhar
não são os argueiros

O amor eterno
dura só quinze dias
pois da dor é que nasce
a verdadeira poesia


2012

24 de maio de 2012

Viciada


Enquanto goza tenso e teso
o tempo todo,
deixa cair sem modos o seu peso
e me puxa firme como um rodo

E feito cão repleto de desejo,
com o membro torto,
me flecha sem rodeio e sem beijo,
me luxa firme e só sai morto

Louca por ti, contagiada
pela forma viu que me possui
me entrego como a mais feliz das namoradas

Por pouco tempo sou amada. Sei que fui!
Deixada nua na calçada, satisfeita, extasiada
Viciada em tudo que a meu corpo só polui

2012

Vida brava



Vida em corredeira, feito rio em desvario
É desafio colher o que plantou a vida inteira
Cruel inundação, não, perdão, não foi em vão
Vida em corredeira, feita em cio, feito veia
Ando transbordando, irrigando o coração
Vida voa à-toa, leva e traz a ventania
Vida boa, vem, desfaz essa agonia
A vida faz escaras, minha cara, vou lhe dizer
E quanto mais brava, tanto mais crava
Quanto mais sangra, tenho mais vontade de viver

2012

26 de agosto de 2011

Cansei


Cansei de ser educado, de só dizer obrigado
De dar bom dia, de fazer poesia
Cansei de andar barbeado, de estar sempre ocupado
De fazer sempre graça, cansei de só deixarem qu’eu faça
Cansei de ser solidário, de me trancar no armário
De estender a mão, cansei de ouvir “a voz que vem do coração”
Cansei de andar limpo, freqüentar bom recinto
Cansei dessa merda toda, agora quero só que se foda!
Cansei de tanto sermão, de só chamar de irmão
De tanto me esconder, de só olhar e correr
Cansei da casa arrumada, da roupa sempre passada
Da hora do almoço, cansei de ser o bom moço
Cansei de acordar cedo, de sempre ter medo
De guardar teu segredo, de não levantar o dedo
Cansei de ter pena, de acreditar que vale apena.
Quero ensaiar outra cena. Cansei, apenas!
Cansei de esperar outro dia, cansei de Maria, cansei do que via
Cansei de colecionar agonia, pensando em quem só me pedia
Cansei de oferecer a outra face, só comer folha de alface
Do pão sem manteiga, da mulher sempre meiga
Cansei de pagar fatura, cansei do compromisso
Cansei de evitar gordura. Cansei, só isso!
Cansei de barulho, cansei de silêncio, da roda viva cansei
De ferir meu orgulho, cansei do que penso, de encharcar outro lenço cansei
De encontrar sempre luz, de ajoelhar sob a cruz
Cansei de teus olhos azuis que ao me olhar me reduz
Cansei da bebida que fiz e do que cá nesse copo eu pus
Cansei do vinho, cansei do vizinho, cansei de voltar pro meu ninho
Cansei do pão, cansei do irmão, cansei de olhar só o chão
Cansei de só “do trabalho pra casa”, de só olhar a vida que passa
De pertencer a essa massa que seu caminho não traça
Cansei de nunca chegar de porre
Cansei da falta de chuva, de entrar leve na curva
Da pouca velocidade, da sanidade que turva
Cansei de fugir da briga, de só evitar intriga
Cansei de quem nunca duvida, cansei da fala perdida
Cansei da beleza da flor, dos versos de amor
“Com licença, por favor”... cansei de chamar de doutor
Cansei da honestidade, de pureza e castidade
Cansei da casa, da rua... vou mudar de cidade
Cansei de ser destro, cansei desse texto
Vou vaiar o maestro que esse acorde detesto
Cansei de ser homem com H, cansei de dizer amém
De esperar quem não vem, de estar do lado do bem
Cansei de acreditar, de ter tanta fé
Então por que não consigo cansar do corpo desta mulher?

2011

26 de julho de 2011

Filho postiço


Postiço, talvez, mas nem por isso
omisso.
Vivo, com muito viço
e convicto avô.
Mestiço, ao invés, desse seu riso,
promíscuo,
feliz, eu, como um sorriso,
contido não estou.

Positivo revés que a vida trouxe.
Doce!
Suave como a brisa
que tomei à guisa
de primeira neta.
Me sirvo, de viés, não enganou-se.
Mas ouve:
Santa como missa,
teu nome é Luísa.
Em constante descoberta.

Parceiro, amigo, também te adoto como filho.
Andarilho...
Presente em pensamento,
curte comigo esse momento,
pois que nascer é acordar p'ro sofrimento.
Primeiro, digo, que te quero como filho.
Brilho.
Ausente em isolamento,
vem dividir contentamento,
que em meu peito só não cabe dentro.

Presente surpresa, que veio como
unguento.
Vida, transformando o gelo.
Trazendo só derretimento.
Pensa, depressa, e com todo
sentimento.
Filho, veja, será meu neto amarelo
também o teu rebento.

2011

13 de maio de 2010

Tem sempre um dia

Tem sempre um dia
em que o fraco esmaga
É quando a vida o traga
Quando o cruel lhe afaga
Um dia, o gozado encarna
É quando a dor não sara
Quando o cego o encara
Quando o que está preso
o amarra

Tem sempre um dia
em que o tolo aprende
É quando a chama acende
Quando a verdade mente
Um dia, o carcereiro solta
É quando o detento volta
Quando dormir a escolta
é quando o calmo
se revolta

Tem sempre um dia
em que a flor não abre
É quando o tolo sabe
Quando o seguro em si desabe
Um dia, o sol não nasce
É quando a certeza fez-se impasse
Quando a presa ao caçador cace
É quando o manso já não lhe oferece
a face

Tem sempre um dia
em que o amor se cansa
E quando o olhar já não mais alcança
é quando o adulto vai deixar de ser criança
Um dia, todo o mar se ardia
E quando meu bem-querer partia
era quando outra mulher surgia
fazendo outra jura assim...
e eu ia

2010

Tudo acabado

Coisa estranha querer bem
Gesto extremo amar alguém
Estar junto, sentir paixão
Dizer sim querendo dizer não

Esquecer princípios, posições
Cerrar os olhos, colher ilusões
Se perder na trilha rumo ao nada
Trair o amor ao ser beijada

Coisa insana, ato chulo
Verso amargurado
se de outra cama eu pulo

Acordo rasgado, sonho acordado
Ferida que não curo
Paixão, tesão... tudo acabado

2007

18 de março de 2010

Entre

Entre a cruz e a espada
Jesus, estou entre a amante e a amada
Diante ao choro e a risada
Fiz jus ao beijo e a porrada

Entre o permitido e o proibido
Traído entre o amor e a libido
Ante ao ignorante e ao sabido
Incontido, dei um beijo e fui cuspido

Entre a certeza e a dúvida
duvido da morte e não da vida
Frente ao remédio e a bebida
se cuspido é o beijo faz ferida

Entre ser homem ou mulher
Insone ao se deitar prá com sono estar de pé
Sempre entre o bem e o malmequer
me vendo, mas só lhe beijo se quiser

2010

Alva

Teu sorriso doce
foi perdendo o açúcar
e por fim amargou-se
Teus cabelos abertos em flor
que andavam soltos no ar
voaram como nosso amor

Por causa dum sarro
as pernas de louça
tornaram-se barro
Por não saber o que quer
Adormecestes moça
e acordastes mulher

Os olhos outrora rasos
escondem-se hoje no fundo
confundindo seus passos
Mãe e filho, duas vidas iguais
no estribilho dum mundo
diferente demais

E vamos adiando a verdade
até que um dia nos bata
no corpo todo a saudade
E nos cotovelos das patas
sentir a malícia e maldade
das carícias do amor e seus tapas

1985

Por favor

Se o rei morrer
invente outro rei
que o povo não pode viver
sem os braços da lei

Quando a festa acabar
prepare outra festa
que o povo tem que sambar
pois sambar é o que resta

Contrate outro amor
quando o amor lhe der adeus
Por amor, por favor
pelo amor de Deus

2007

8 de outubro de 2009

Conserto em si

Conserte Deus o que, por acaso, tenha mau cheiro
e aos olhos do homem seja apenas simples argueiro
o que não lhe pareça tão puro ou tão verdadeiro
Conserte o prédio e antes o traço do engenheiro
Conserte o prumo e acerte a mão de todo pedreiro
Conserte os gastos de todo aquele que ama o dinheiro
Conserte o último para que chegue sempre primeiro
Conserte o rumo e refaça a rota do timoneiro
Conserte o espinho e o amargo do limoeiro
Conserte o resto do que um dia já foi inteiro
Conserte o pinto para que o jato ache o banheiro
Conserte o cágado e o faça agora muito ligeiro
Conserte o que fiz no carnaval e acabe com o mês de fevereiro
Conserte a virgem em quem um dia entrei por primeiro
Conserte o chute e que não encontre grande goleiro
Conserte o povo e que ele seja bem mais brasileiro
retire a placa onde está escrito grande puteiro
Conserte a rima e que não se acabe somente em eiro
Conserte esse texto e conserve a tinta de meu tinteiro

* * *
Conserto com certa pressa, conserto na vida uma só peça
Conserto o concerto do maestro, conserto o canhoto e o torno destro
Conserto o sonho de ser feliz, conserto o que o que nunca fiz
Conserto o certo só por capricho
como a terra conserta os ossos
depois que aterra e entrega aos bichos
Conserto e estou certo que nunca acerto
Conserto o acerto, o assento, refaço o texto
Conserto a partida, revejo o contexto
para o primeiro chegar em sexto
Conserto e ponho no altar a meretriz
Conserto a lição com pó de giz
Conserto com amor quem me fez feitiço
Como a lágrima conserta os olhos
quando peço a Deus que me livre disso
Conserte o amor que já foi desfeito
Conserte até sem achar defeito
Conserte a alma, conserte o peito
Conserte o eleitor para consertar o pleito
Conserte o que está eleito
Conserto, confesso, com certa descrença
Conserto a traição com indiferença
Pai, conserte a mente de quem não pensa
e conserte o nascer na renascença
Conserte em ti o que há de melhor
Conserte por dentro a si, menor
pois o concerto, maestro, só em si maior
Deus, só não conserte a mulher que a noite comigo passa
Se não a vida não me terá mais graça

2009

Um cântico

E que se lavem as mãos sujas
E que me troquem por um ladrão
E que atirem pedras como atiram nas cujas
inda assim lhes estendo a mão

E que riam eles de mim
E que me malhem feito um judas
E que aproximem o meu fim
mas deixarei na terra muitas mudas

E que me coloquem à roda dos escarnecedores
E que leiloem minhas vestes
E que me crucifiquem entre dois pecadores
inda assim perdoarei estas pestes

E que me depositem uma coroa de espinhos
E que me transpassem o corpo
E que se espantem os vizinhos
pois ressuscitarei inda que morto

1986

Tantos enganos

Tantos enganos
que eu cometi
através desses anos
que não vivi
Quantos foram os corações
que feri?
Não contei
Tantos risos
que engoli
engasgados em sorrisos
que não sorri
Quantas foram as ações
que vendi?
Não numerei

Tantas mentiras
me obrigaram a mentir
Tive momentos de ira
Tive a cabeça a zunir
Quantos foram os mendigos
que me deram esmolas?
Não sei
Tantas noites de choro
atravessei sem dormir
Tão pouco consolo
ninguém, ninguém prá me ouvir
Quantos foram os amigos
que se foram embora?
Não sei

Tantas tardes tristes
Tanta noite vazia
Tantos dedos em riste
Tão pouca poesia
Quantos beijos guardei
Quanto choro abafei
Só eu sei
Tanta vida passando
e eu nem percebia
Tanta gente se amando
e eu sozinha bebia
Quantas lutas com o rei
Quanto a Deus blasfemei
Só eu sei

Tantas festas e encontros
Tanto por ti procurei
Tantos poemas e contos
Tanto, tanto sonhei
Quantos textos rasguei
Quanta palavra inventei
Quanto amor sufoquei

1985

26 de agosto de 2009

Só você me diz

Sou inexato e vago
e o que pego bom estrago
Sou nefasto e cago
no pouco bom que trago

Sou ineficaz e torto
e se pego vivo entrego morto
Sou inexperiente e tolo
madeira podre que parece ouro

Sou insano e louco
e se tenho muito acho que é pouco
Sou nojento e mocho
firme feito laço frouxo

Sou impuro ao mesmo tempo casto
e o que ganho hoje eu gasto
Sou excremento que largaram ao pasto
Bandeira que voou do mastro

E é só você que diz
que sou insuperável e máximo
Que sou seu distante próximo
que não sou bastante ácido
que tenho um olhar tão plácido
capaz até de lhe fazer feliz

2009

Amigo urso

Deixa-me ser teu amigo
o amigo urso polar
Receba os meus braços
e esse abraço da tamanduá

Quero ser teu melhor presente
em embalagem grega e de luxo
Ser tua capa-de-filé
encapuzada de bucho

Vem prá minha cidade sorriso
que sorri cariado
Sou o espantalho do campo
que te espanta espantado

Sou a luz que surge
ao fim do túnel escuro
e venho à frente da locomotiva
que descarrila o futuro

1985

Conversa ao pé da cama

Essa relação vem de berço
De muitos anos atrás
Vovó dava nosso endereço...
e assim se comprava o gás

Hoje, envolta em lençóis finos
nesse quarto de hotel
E todos esses granfinos
me abrindo e abrindo as portas do céu

Foram tantos falsos gemidos
gerando contas-corrente
Tantos tantos maridos
tanto amor, tanta dor, que horror, tanta gente

Agora deixa eu caminhar
com meus próprios pés
E só então comandar
de meu próprio convés

* * *

Teus pés são bonitos
De madeira de lei
Porém os meus são aflitos
e me mostram que errei

As ripas de teu estrado
parecem que moldam um catafalco
Onde um corpo estirado
jura, atura e mistura sujeira com talco

Teu balançar me relaxa
mas o meu vaivém me indispôs
Na hora do gozo me achas
e usa, abusa, acusa e esquece logo depois

Vou unir minhas coxas aos seus colchões
pela derradeira última vez
Quero sentir prazer nas paixões
e amar a um homem por vez sem ter que chamar de freguês

1985

25 de agosto de 2009

José

Sou José do Nascimento
José desde o nascimento
Fui José todo o momento
Sou José por todo tempo

Sou José desde pequeno
José que vive indo
Fui José sempre terreno
Agora sou José que está subindo

Sou José desde garoto
e nunca soube o que dizer
Nasci José, cresci no esgoto
Sou José não sei do que

Sou José magro e franzino
José surdo e calado
Fui José desde menino
Sou José e estou cansado

Descendo o Nilo, sou José do Egito
Aos pés da cruz de madeira, carpinteiro
Sou José de Arimatéia
Como Jesus, a vida inteira, inteiro
Sou José da Galiléia

Zé disso, José daquilo, sou José do grito
Zé do trem, Zé nordestino, Zé de Natal, Zé de Belém
Zé com fome, Zé com medo, Zé aflito
Zé rico e sem vintém, Zé da Velha, Zé Neném
Zé da vida sem ninguém

Sou José, mas não pedi
e como José sempre vivi
De outro José eu sei que vim
e como José quero partir
Fui José a vida inteira
Sou José, sou Eduardo, Garnier e sou Teixeira

2009

Bêbadas vigílias

Em tuas bêbadas vigílias
você é loira e o olho não pisca
Mas me sinto sua caça
e me exponho feito isca

Em tuas bêbadas vigílias
não és mulher, pois és pura
E se embriaga e também se estilhaça
És a bêbada do curso que inveja os bem vividos

Em minhas bêbadas vigílias
me sinto um teu vigia
e te persigo com o olhar
E em nossas bêbadas vigílias
Trocamos poesia
bebemos de bar em bar

Sim, sou o bêbado da corte
e és a bêbada que furto

* * *

Em tuas bêbadas vigílias
você é a loira que o olho não pisca
Não me dá uma pista
mas olhares doces arrisca

Em tuas bêbadas vigílias
a loira suada é quem te possui
E te sufoca, e te corrói, e te polui
És a bêbada do corte que dilacera os meus sentidos

Em minhas bêbadas vigílias
sonho com os meus dedos
se degelando nos seus ossos
E em nossas bêbadas vigílias
trocamos sons, quase segredos
encharcados de remorsos

Enfim, sou o bêbado-da-corte
e és a bêbada que curto

1985

Verso infinito

Pelas ilhotas do mar
Pelos confins dessa terra
Pelas mesas de um bar
e pela boca do que berra
solto meus gritos
No peito dos ricos
Na cabeça dos tolos
Nos altos, nos picos
em novelos e rolos
enrolo conflitos

Pelos bancos das praças
Pelos botecos da avenida
Pelo passo manco das massas
e os bonecos da vida
é que escrevo aflito
Pelos amigos de sempre
e os inimigos do dia-a-dia
Pela raça da gente
Por não ter pão e ter poesia
meu universo é infinito

1984

23 de agosto de 2009

Bom demais

Ontem tudo
Hoje exagero
Amanhã nem tanto
Despedida, abraço em pranto

Ontem enorme
Hoje grande
Amanhã só cacos
Mentiras, versão dos fatos

Inda que fosse verdade
eu negaria
E se sentisse saudades
não voltaria

Inda que fosse veneno
eu beberia
Mas se mostrasses a língua
não beijaria

Só mais uma frase
Um sorriso e nada mais
Amar você, confesso
era bom demais

2008

Borboleta noturna

Vestiu meu vestido
Passou meu batido batom
Fez um passo esquisito
Mudou compasso e tom

Pintou a boca em coração
Usou salto alto e cetim
Esqueceu da combinação
e esqueceu-se de mim

Minha menina se foi
levar a vida que quis
Seu homem vai ser boi
e ela vaca feliz

Lapa, Praça XV, Mauá...
Caberá em qualquer cabaré
E em qualquer mafuá
minha menina será mulher

Com olheiras roxas
e exalando horrível odor
Com marcas nas coxas
na Comarca do doutor

Fará amor sem amor
Sentirá prazer sem prazer
Sem asco ou pudor
mudará de “A” para “Z”

Até que carente gerente
ou bem sucedido doutor de escritório
financie vida decente
e casamento em cartório

A noiva da cidade
agora é dondoca
Na fina flor da sociedade
ela hoje se entoca

De vinhos bons se entope
De lindos tons se veste
Pros velhos amigos um choque
pois só pro marido se despe

Não come ovo, nem bucho
Põe no bucho o gostoso do bicho
Da Boca do Lixo
pro bafo de luxo

Das manchas de “O Dia”
prás manchetes do Ibrahim
Quem prosa posa à fotografia
já foi verso e prosa em botequim

Já pode trazer a família do Norte
e já não quer maldizer o destino e a sorte
O passado do corpo é página virada
desde a chegada ao topo da escada

As colunas estão cheias
de “divinas cocadinhas nota dez”
que já foram deusas feias
e que se vendiam por cem mil réis

1984

6 de fevereiro de 2009

Somorra

Enquanto homo ereto
é certo: como, enxerto
E, culpado, aborto o feto
e espanto como inseto
o neto que fizeste olhando o teto
Que após sugado é morto e infecto

Engano, engodo, lodo...
Não me vejo de outro modo
E austero e tímido
esbanjo e escarro outro gemido
Insano, encanto o lobo
E não me vejo como louco
Rápido e leve
espanto e escarro em quem me deve

Luto em desacordo
e acordo preguiçoso e gordo
Em desvario até lhe mordo
Chuto prá escanteio
E, receio, presunçoso e feio
que em cio lhe deflore o meio

Em Sodoma espero
que ninguém me coma
só que me libertem da redoma
e me acordem o corpo desse coma
Em Gomorra, cuidado:
não corra, não mate, só morra
Não me livre do pecado
só não deixe que me afogue em porra

Gomorra, pecado, masmorra...
Tortura de novo, que porra
Não viva, não morra
Não pare, não corra

Sodoma, pecado, redoma...
Frescura de novo, que zona
Não trepe, não toma
Não fode, não coma

2009

Fiz um samba

Fiz um samba
Fiz mais um
Que não falava de dor
mas falava de amor algum

Fiz um samba sincopado
Com o verso rebuscado
Coisa assim bem comum
Quem sabe imitando o Paulinho
Ou talvez invejando o Buarque
Fiz um sambinha de araque
que evapora feito um pum

* * *

Eu já tentei ser um bamba
mas confesso que desisti
Pois ser bamba não é fácil
é mais difícil que parir

Fiz um samba meio tolo
Que se enrola e faz um rolo
Coisa bem incomum
Quem sabe imitando a vida
Talvez invejando os felizes
Fiz um samba em mil matizes
prá ser sucesso em dois mil e um

1986

Farpas

Eu não quero mamar nas tetas
da solidão
Por isso vou à guerra
de arco e farpa na mão

Também não quero um amor
gerado nas coxas da ingratidão
Por isso vou deflorar o sexo dos anjos
co’a minha mão

Eu não quero me afogar num mar
só por ele ser feito de prazer
Por isso vou nadar próximo à praia
agarrado à saia
de meu bem-querer

Também não quero que me chamem covarde
só por ter pensado em correr
Por isso vou correr com as pernas bambas
vestindo trocado as tangas
trocadas na hora “h” do prazer

Eu não quero esmolas do amor
Viu, quero não
Quero uma conta-corrente nos bancos de areia
de teu coração

Eu não quero sacolas da vida
para encher de saudades não
Que eu já de saco cheio
com tamanha recordação

1985

Teu colo

Teu colo tem jeito de leito
Teu colo tem cheiro de berço
Nele, o abrigo perfeito
Teu colo... será que mereço?

Teu colo tem balanço de mar
Em teu colo um menino eu pareço
Nele, todo o encanto do amar
Teu colo... será que mereço?

Teu colo tem gosto de leite
Teu colo vou virar pelo avesso
Nele, o mais lindo enfeite
Teu colo... será que mereço?

Teu colo tem aconchego de rede
Em teu colo sorrindo eu padeço
Nele, quero afogar minha sede
Teu colo... será que mereço?

Teu colo estrada sem retorno
Teu colo é teu melhor endereço
Nele, o mais perfeito contorno
Teu colo... será que tem preço?

1986

Mestre em sala

Todo dia ele chega
prá cumprir sua missão
Esquece o pequeno e a nega
e se dá todo à profissão
Por entre mapas brilhantes
e a crueldade da história
esquadros gigantes
traçam derrota e vitória
Será que o tablado em que pisa
na verdade não é um cenário
em que todo dia reprisa
o cotidiano diário?

Todo semestre ele fala
que ser mestre é um dom
E a sala toda se cala
mudando o trajeto do som
Por entre forças opostas
e formas gramaticais
há muita moça disposta
a se perder com ele no cais
Será que o mestre sabe o que diz
ou é apenas mais um fingidor?
A vida não é feita de giz
e não se passa o apagador

Todo ano ele passa
o que guardou pelos anos
e a classe toda é comparsa
de seus sonhos e planos
Por entre números inteiros
e células vivas
perguntadores brejeiros
recebem respostas esquivas
Será que quando escreve
o mestre então não descreve
o quadro-negro de seu dia-a-dia
por rimas ricas sem poesia?

Todo professor guarda um resto
da segunda época da vida
pois a união do saber é um incesto
que o mundo inteiro engravida
Por entre letras e versos
giram átomos velozes
Unindo caminhos inversos
e tornando uma só nossas vozes
Será que quando reprova
não reprovou a si mesmo?
E se o seu ensinar não se renova
o mestre não fala a esmo?

Será que passou a borracha
em todos os erros da classe
ou será então que ele acha
que dos erros o acerto nasce?
Será que usou o giz colorido
no quadro-negro da História
ou será que o seu telhado de vidro
é de transparência ilusória?
Será que o prazer do ensino
com tempo se torna rotina e obrigatório?
E ele, por fim, transforma o menino
em poeta ou caçador predatório?

1985

2 de fevereiro de 2009

Como quem

Nas lutas com gente sempre tive em mente
o bom combate pela frente
E, como quem sem forças, me vi frustrado
Como quem se obriga, me vi forçado
Como quem sem moças, me vi castrado
Como quem se intriga, me vi falado

Nos embates da vida com o tempo
lutei só todo momento
E, como quem exausto, me vi cansado
Como quem se apaga, me vi sedado
Como quem é claustro, vivi fechado
Como quem se afaga, me senti tocado

Nas guerras urbanas
e com o sangue em chamas
Como quem amansa, me vi domado
Como quem se enruga, me vi passado
Como quem descansa, adormeci sentado
Como quem enxuga, acordei molhado

Nas discussões do amor ganhei, perdi...
Mais chorei do que sorri
E, como quem se trai, me vi beijado
Como quem se engana, tive você lado a lado
Mas como alguém que cai e é pisoteado
só mesmo quem não ama pode andar desarmado

2009

Faz de conta

São coisas do passado
que embrulham o presente
São juras irrestritas,
irreais...

Dilacerando o meu peito
Confundindo os meus passos
Me apertando em abraços
que me roubam a paz

E que me soltam em abismos
Em abismos prá nunca mais

* * *

São coisas que vêm à tona
e que detonam bombas
Humilhas, fustigas,
zombas...

Vê o que sobrou de mim
Vê que pobre molambo
Nesse boteco dançando um tango
no reino do faz de conta

E agora é tarde meu bem
Meu olho em outro desconta

1986

24 de janeiro de 2009

Até o final

Inunda, escorre e vibra
Prenhe, explode em vida
Imunda em porre eterno
Preenche, mas sempre terno

Exausto, acolhe o outro
Preso, implode morto
Enxuto, enfermo e crente
É vazio, mas morre gente

Motivado, recolhe os cacos
Amado, amanhece intacto
Bruto, esmaga as flores
De luto, se retorce em dores

Se o início é triste
seu olhar insiste
o pavor persiste
mas o amor resiste

2007

23 de janeiro de 2009

Cabeças gêmeas

Você quer me desnudar? Eu permito
Ateio-te fogo, incendeio-te sem ser palito
Sou geminiano dos pés à cabeça
Se você pede que’u cresça
eu me enterro na terra
E se você disser apareça
ela mais se enterra
Cabeça dura que somente mente e erra
mas que prezo, pois só me fizeram com essa

Você quer me conhecer? Eu deixo
Eu falo muito sem mexer o queixo
Sou inconstante demais
Se um passo a mais
eu não consigo dar
dar um passo atrás
nem pensar
Pois se não me aventuro no mar
também não morro no cais

Você quer me desbravar? Então vem
Eu esbanjo riquezas sem nem ter um vintém
Sou agora o que não sou depois
Na vida vivida a dois
O difícil é serem um só
Muito, muito tempo pros dois
e o laço não vira nó
Se hoje quero estar só
é pra não chorar no depois

1984

Por amor

Algo no ar
Algo no vento
Algo na lua...
e que em meu pensamento
é uma mulher seminua

Algo no sol
Algo no mar
Algo no céu...
e que em meu jeito de olhar
é arrependimento de réu

Algo nas águas
Algo no rio a correr
Algo nas algas...
Que salga todo meu ser
Que me condena e me salva

Algo nos olhos
Algo nas flores
Algo no ser humano...
e que em todos os meus amores
tem um certo “q” de engano

Algo que queima
Algo que adere
Algo que brilha...
e que em meu peito me fere
e que desconhece partilha

Algo no som dos poetas
Algo no andar da morena
Algo que vira todas as setas...
Que em meu peito envenena
e que só com outro amor se conserta

Algo que abre os corações
Algo que desabrocha em flor
Algo que cria mil ilusões...
E que, por fim, leva a marionete do amor
sem amor, por amor, a se enforcar nos cordões

1978

7 de janeiro de 2009

Quem disse?

Num mundo de amor te envolvi
e no mesmo instante da dor me esqueci
Ver teus olhos brilhando assim
foi prá mim
a recompensa que tanto pedi

Numa redoma de vida a você me prendi
e no exato momento o ex-amor vi partir
Ver teu peito arfando assim
foi prá mim
a esperada alegria de paz prá dormir

Num cenário de cores tão vivas vivi
e então nesse instante, feliz, aprendi
a ouvir o teu corpo chamando por mim
Foi assim
que te vi como a estrela que guia a seguir

Quem que disse que a paz não se pode atingir?
Quem te disse que o amor não está nem aí?
Se eu mesmo ao teu lado uma noite dormi
É, foi sim...
E é pena que o sol já vem vindo e que você tem partir

2008

Rimas

Rimo o guri e canivete
A Nascimento Silva com Elizete
Rimo São Paulo e bóia fria
Geral e pancadaria
Bulhões com correção
Judeu com alemão
Mulata, rimo com português
e pacotão com economês

Rimo o travesti e a Lapa
Lãs Vegas com Sinatra
Rimo o Rio com fio dental
Bateria e carnaval
Delfim com inflação
Russo com afegão
Lourinha, rimo com africano
e cara a cara com mano a mano

Rimo a Marrecas com meretriz
O Beco com Elis
Rimo Bahia com povo na rua
Geral, carnaval e gente nua
Roberto Campos com aflição
Coréia com Japão
Índia, rimo com espanhol
e bola no pé com futebol

Rimo polícia com ladrão
A Mangueira com Jamelão
Rimo um Brasil inteiro, meu irmão
sem terra, sem teto e sem pão
Funaro com ilusão
Americano com mete a mão
Mulheres, rimo à costela de Adão
e o verso assim, feito grão, se alastra no chão

1986

21 de dezembro de 2008

Devorar

Dilacerar carnes
Revirar tripas
Ossos triturar
Devorar

Pedir perdão
Rosto no pó
De joelhos chorar
Devo orar

2007

Gênesis

“No princípio, a terra estava informe e vazia.
E, após ter criado toda a natureza terrestre, então Deus disse: ‘Façamos o homem nossa imagem e semelhança. Que ele reine sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos e sobre toda a terra, e sobre todos os répteis que se arrastam sobre a terra’. Deus contemplou a sua obra e viu que tudo era muito bom.”


E o homem agora é quem cria
E creia, cria, incrédulo, um meio de matar sua cria
Sem crime, sem choro, sem som
Eva, expulsa do Jardim
pulsa num vistoso cetim
e exibe novo batom

Inventa o pecado do colarinho branco
Enxerga Eva só de tamanco
e sente o maior frisson
De Deus não é mais a imagem
Descobre a malandragem
a gafieira e o pistom

Não mais come com o suor do rosto
Mas se vê nele o desgosto
que segreda ao garçom
Inventa Neys Matogrosso
Diferente esse moço
Bandido corazon

Deixa a multidão atônita
quando descobre a bomba atômica
e remete “via aérea par avion
Gutenberg cria a Imprensa
Alguém o imprensa
e a faz marrom

Dança não mais conforme o maestro
Decide tudo num gesto
e valsa fora do tom

1986

Tão mais bonito

Tudo seria assim tão mais bonito
se eu te parasse antes dos trilhos
Bem antes dos quinze anos
Antes dos filhos
Por que você não me encontrou?
Eu tava por aí, pela vida,
colecionando ferida

Tudo seria assim tão mais bonito
se eu te topasse antes do cruzamento
Bem antes da abertura
Antes do casamento
Por que a gente não se cruzou?
Eu tava por aí, pelas esquinas,
colecionando meninas

Tudo seria assim tão mais bonito
se eu te encontrasse vindo em contramão
Bem antes da besteira feita
Antes de tanta desilusão
Por que a gente não se topou?
Eu tava por aí, pelos corredores,
colecionando amores

* * *

Mas tudo pode ser assim também bonito
se eu reverter o tempo, se eu brigar com Deus
Bem antes que desabe o que foi dito
Antes que desabe ou que se apague os olhos meus
Por que a gente ainda não terminou?
Eu acho que vou ficar por aí, pela vizinhança,
colecionando esperança

1986

Bruxas

Vou dar um vôo na gaiola
me arrebentando às grades de ferro
Quebraram minha viola
e estão abafando o meu berro

Vou montar meu cavalo
e percorrer esse chão
Se me permitem, eu falo
ou faço um poema-canção

Vou construir alicerces
com bases firmes no amor
Enquanto muita gente enriquece
censurando a voz do cantor


Vou vencer essa luta
prá dividir esse pão
Sei que Deus tá escuta
mas pede cambio e diz não

Vou lançar a semente
e depois recolher os bons frutos
Prá exorcizar num repente
as bruxas dos brutos

Vou ver o dia raiar
e a liberdade nascer
A quarta estrela apagar
e dos ombros dele descer

Ver nossa bandeira de novo
em seu mastro a voar
E na dianteira do povo
um maestro macho a cantar

1979

20 de dezembro de 2008

Ele

Ele tinha um claro medo do escuro
E uma vez naufragou num porto seguro
E tinha um crédito que pagava com juros
E seu tempo passado conjugou no futuro

Ele tinha a coragem carregada de medo
E a melhor das manchetes guardou em segredo
E tinha um gozo tardio que chegava bem cedo
E um membro viril na cabeça do dedo

Ele era um cego que via bem longe
Era um pecador travestido de monge
Recordista que foi, nunca levou nem um bronze
Ficou na reserva, mas jogava nas onze

Ele tinha diploma de trabalho braçal
Sabia ser delicado como coice animal
Fantasiou a vida inteira sem desfilar no carnaval
Morreu muito cedo, prá se tornar imortal

2008

Feito viciada

“... de novo e sempre, feito viciada, eu vou voltar...” Chico Buarque

Eu sei o momento exato
em que você vai voltar
Sei quando a saudade aperta
Você é feito menstruação:
vem depois da febre, da dor
E em espasmos convulsos
quando eu já me rasgo os pulsos...
_ Ai, amor, oh!
Mas também sei o movimento ingrato
que você vai usar
Sei, pois o sorriso entrega
Você é feito ditadura militar:
joga duro e depois afrouxa
E entre gritinhos de tortura
quando chego aos picos da loucura
Eis você arrumando as trouxas

Eu sei o momento certo
em que você vai voltar
Sei quando o meu vulto te persegue
Você é feito o vaivém do mar:
beija rápido a areia e vai embora
E entre espumas flutuantes
quando eu já procuro outra amante...
_ Vem amor, rebola!
Mas também sei o movimento esperto
que você vai fazer
Sei, pois está tudo dentro
Você é feito viúva-negra, mulher aranha:
suga o macho até a morte
E entre veias e teias e cama
quando levanto de novo a chama...
Eis você voando embora pro Norte

Eu sei o momento preciso
em que você vai voltar
Sei quando o meu corpo te faz falta
Você é feito ave de arribação:
desafia os ventos, as tempestades, a pororoca
E entre plumas e penas
quando já bambeio das pernas...
_ Vai amor, coloca!
E aprendi o movimento próximo
que você vai repetir
A intensidade, a posição, o ângulo
Você é feito o peito largo da máfia:
quem adentra em teus braços não se desprega jamais
E entre luxúria e devassidão
quando já se derrama o amor pelo chão
_ Ai amor..., aí..., quero mais!

1987

Morto de viver

Eu não sei mais o que faço
prá que veja que te amo
O seu amor me prendeu num laço
e por ele hoje clamo

Você é o sol que me aquece
A lua que à noite me ilumina
Seu coração não me merece
Porém seu corpo me alucina

Nos seus cabelos eu me perco
Nos seus olhos eu me encontro
Minhas mãos te fazem cerco
e toco você num só ponto

Toco o ponto do amor
Você contorce, se retorce...
Pela dor, pelo ardor
em despudor de meu amor

Eu te abraço, te enlaço
E, enfim, ocupo o seu espaço
Você me nega, me renega
Mas aí você se entrega

Por você, meu amor
o meu sangue se esquenta
Estou te amando e é grande o calor
Meu coração não se agüenta
Estou te amando... e morro de amor

1978

18 de dezembro de 2008

Misericórdia

Vi num espelho um homem, rugas, marcas no joelho
Ar sombrio, pele curtida, olhos vermelhos
Vi no espelho o rosto de um velho
Ao ver os furos dos cravos às mãos, pedi conselhos
Pôs sobre à mesa um surrado evangelho

Vi num sonho uma mulher e manchas no braço
Andar esguio, pele queimada, olhos de laço
Vi no seu passo o gosto do abraço
Ao mirar os seus olhos notei o inchaço
Era a mãe de Jesus, de quem falo onde passo

2007

Foge

Foge prá longe da luz
e se amoita no beco escuro
Que a vida é o retrato
das trevas
Que a vida é o ópio, o mato
as ervas

Foge prá longe da vida
e se entoca no espaço infinito
Que você é a cobaia
dos home
Que você é o fogo, a paia
e consome

Foge prá longe de ti
e se recolhe à redoma de vidro
Que tudo é insano
e podre
Que tudo é engano, é cano
e te cobre

Foge prá longe de tudo
e se perde na fuga louca
Que tudo mais é o resto
das sobras
Que tudo mais é a toca, o ninho
as cobras

1991

Maldita guria

Silenciosamente seco era o seu olhar
e maliciosamente sexy o seu andar
Secamente silencioso era seu beijo
E assim eram meus finais de semana
Já não são mais
Beijando e sendo linguado
Minguando ao ser sugado
Apanhando e acanhado
Abocanhando com a barba a arranhar

Me unia aos seus lábios
sem a beijar
A tinha nos braços
sem abraçar
Olhava para ela e não a via
Mostrava os dentes à ela
mas não sorria

Bendita agonia, pai
Maldita guria, vai
A danada gemia, ai
Deitava e se abria... faz
Chorava e pedia... mais
Por instantes sentia...paz
A maldita até me queria... bem

Uma triste poesia...vem

1984

Antes que chegue amanhã

Hoje
falei com ela
e tomei sua mão
Olhei fundo no fundo imundo dos olhos dela
Senti bater o seu cá no meu coração

Hoje
afaguei seus cabelos
e beijei sua boca
Em pelo, eriçei os seus pelos
A deixei quase louca

Hoje
ouvi sua voz
queimar de tão quente
Desandei e falei e falei sobre nós
Sonhei prá gente

Hoje
parei de beber
e deixei de fumar
Prá não ficar só e ficar só com você
não vou mais sambar

Hoje
piso firme e correto
Acertei meu passo manco
Agora, sim, estou certo e decerto
meu peito eu não mais tranco

Hoje
o imenso mar é pequeno
O sol parece tão frio
O seu beijo é bálsamo e veneno
e prá ele versos eu crio

Hoje
Sou o mais feliz entre os tolos
Sou o que do sonho não acordou
Então espalho prá todos
que um dia a gente se amou

Hoje
e antes que cesse entre nós o afã
Antes que bata à porta o amanhã
Antes que nosso amor bata as asas em vôo
... em vão... antes, bem antes te amar eu vou

1978

6 de novembro de 2008

Heranças

De meu avô um testamento
De minha mãe só sofrimento
De meu pai toda a ternura
Dum primo gay toda a frescura

De outro avô força e fé
Duma prima o gosto por mulher
De meu tio a paixão pelo Flamengo
E de toda a vida só lamento

De uma tia aversão
De vovó só compaixão
De outra avó roubei o amém
De um irmão nada me vem

Da saudade uma ilusão
De você só traição
Do amor boas lembranças
De ser feliz só esperanças

Da lucidez herdei loucura
De meu padrinho a sepultura
Da desgraça herdei o riso
Já do palhaço, herdei,
bem mais que o guizo

Da claridade herdei a noite escura
Da meretriz a parte pura
Do inferno herdei o paraíso
Já de Deus , herdei,
bem mais do que preciso

2008

Éden

O mundo não é feito de flores
No entanto é um jardim
que exala maus odores
O mundo é uma ferida
cheia de pus
O mundo é o reinado
dos urubus
Vivemos num labirinto de grutas
e somos um exército de prostitutas

O mundo não é feito de amores
É somente um leproso
que se contorce em dores
O mundo é um calvário cheio de cruz
O mundo é um cego
que toca blues
Vivemos num poço cheio de cobras
e somos o resto das sobras

O mundo não é feito prá nós
É apenas uma corda no pescoço
e cheia de nós
O mundo é o esgoto feio e fétido
O mundo é um verso podre
e cético
Vivemos num mar de sangue
e somos o lixo do mangue

O mundo não é feito de sóis
No entanto é a mancha do amor
nos lençóis
O mundo é um errante tétrico
O mundo é um verso triste
e métrico
Vivemos num desfiladeiro de tanques
e somos o excremento ianque

O mundo não é feito de poesia
É um faminto canibal
que devora a própria cria
O mundo é um parto prematuro
Um aborto solitário
feito no escuro
Vivemos numa metamorfose de almas
e somos os atores sem palmas

O mundo não é feito como eu queria
No entanto ele existe
e me espia
O mundo é um nojento dedo-duro
O mundo é a praga, a chaga
a hera no muro
Vivo a dominar minha calma
e sou o mutante do trauma

1990

Tropeços

Vidas, tantas vidas
num deserto
de carinho
Pedras, tantas pedras
que puseram
no caminho
Vinho, tanto vinho
nos botecos
e eu sozinho

Pelos, loiros pelos
Tantos dedos
e outro bebê no carrinho
Peles, loiras peles
Tantas mãos
que escorregam no linho
Pestes, loiras pestes
Tantos dentistas
Tanto rico vizinho

Rosa, muitas Rosas
Pouco perfume
Muito espinho
Galhos, muitos galhos
com seus gravetos tão secos
que incendeiam o ninho
Pétalas, muitas pétalas
Malmequer...
e meu bem me quer sozinho

Gente, quanta gente
que me passa voando
que tira fininho
Beijos, quantos beijos
Quanta boca sadia
Nenhum batom no colarinho
Pernas, quantas pernas
Pernas pra que te quero?
Deixa eu tropeçar sozinho

1986

Cê sabe?

Cê sabe o que é andar
sem saber aonde ir?
Sabe o que é ir
sem saber se vai voltar?
Sabe o que é tentar voltar
e nunca mais se encontrar?
Cê sabe o que é encontrar
e não saber o que fazer?
Sabe o que é fazer
sem sequer sentir prazer?
Cê sabe o que é o prazer?

Cê sabe o que é dormir
e não querer acordar?
Sabe o que é acordar
e de novo da vida apanhar?
Sabe o que é apanhar
e não poder gritar?
Cê sabe o que é gritar
e ninguém te ouvir?
Sabe o que é ouvir
mesmo sem querer?
Cê sabe o que é o querer?

Cê sabe o que é amar
sem querer se machucar?
Sabe o que é machucar
sem fazer sofrer?
Sabe o que é sofrer
e nunca mais se curar?
Cê sabe o que é curar
e a ferida de novo se abrir?
Sabe o que é abrir
e nunca mais fechar?
Se sabe, sabe o que é amar

1979

31 de outubro de 2008

Negra

Pode um homem viver só
em meio a tantos?
Pode um homem não pecar
em meio a santos?
Pode se despir
mantendo o manto
e bravo guerrear
em meio a prantos?

Pode um homem se esconder
por todo canto?
Pode um homem só
viver só por todo tempo
ou somente por enquanto?

Pode um homem reviver
voltando ao pó?
Pode o homem desfazer
mais esse nó?
Pode andar ereto
sendo manco
e feliz rodopiar
dançando um tango?

Pode um homem ocultar
o pensamento?
Pode, enfim, um homem
ser criança todo tempo
e se perder no encantamento?

Você pensa que sou manso
sendo eu bravo, nêga
Você ordena e eu te lavo, negra
e quando suplico feito santo você nega
pois me fez de ti escravo, negra
só pra lembrar que sou o branco

2007

Luxúria

Na garganta o grito contido
querendo dizer vem
Me lança o olhar perdido
que só você tem, bem
Me despe inteira
e bate com força
Arromba minhas portas
quebra minha louça

Na garganta esse nó cego
querendo implorar me crucifica
Me finca teu prego
qu’esse amor quando bate fica
Me quebra os ossos
com teu abraço
Puxa meus cabelos
me lança seu laço

Na garganta esse desespero
querendo pedir sempre mais
Desbrava minhas matas
atraca em meu cais, ai
Me vira e depois desvira
Diz mais besteira
Me puxa prá beira
Me pira

1991

Falso azul

Vejo aqui na Terra
e na América do Sul
um céu de brigadeiro
de um falso azul
Onde poetas e mendigos
perambulam dementes
Aflitos e famintos
criam teias nos dentes

Vejo aqui na Terra
e em todo o continente
um paraíso verde-oliva
que vai de cabo a tenente
Onde grávidas e meninos
batem co’a mão
Doentes e franzinos
acenam em vão

Vejo aqui na Terra
e em todo o mundo terceiro
a miséria em cada esquina
feito um imenso sertão brasileiro
Onde velhos e moços
se igualam ao gado
É pele só e só osso
Povo pobre coitado

1985

Sobrecarta

Niterói,
Ai como dói!
15 de janeiro
Que pena eu não ter sido o primeiro.
de 1986.
aqui no velho boteco outra vez.

O motivo desta
Fui amarrado a alguém que me detesta.
é tentar assassinar um pouco a saudade,
Como é difícil pisar os pés na realidade.
pois você nunca mais telefonou,
Eu não sei onde parar esse meu vôo.
nunca mais vi teu sorriso.
Ely, desce outra que beber é preciso.
Como estão as coisas? Muita novidade?
Olha aí de novo a saudade...
Você passou no vestibular?
Olha só cara: que jeito, que cara, que olhar...
Eu burlei, a rigor. Não era prá vestiburlar?
Será que tá desacompanhada? Sei lá não sei, sei lá.

Às vezes sempre eu me lembro dos nossos papos.
Põe teu telefone aqui, no guardanapo.
Nossos sonhos eram quase iguais,
Eles estão me olhando feito canibais...
E acho que os descaminhos também.
Deixa eu só acabar essa cartinha, meu bem.
Me lembro que, por vezes, te flechava com olhos cheios de maldade.
Não, não, infelizmente é só amizade
Vê se você não me esquece não.
Olha quem tá em pé, lá no balcão.
Apareça, mande notícias!
Ai que gostoso, faz de novo essa carícia.

Tenho muita boa nova prá te contar.
É, já vi que escrever aqui não vai dar.
Vamos marcar um encontro, uma cerveja...
Agora sim, vem... me beija...
Espero uma resposta rapidinha, tá?
Escuta... e você... você mora... mora... sozinha?
Então, vai dá?

1977

26 de outubro de 2008

Boneca

Peço, escolho, é fria e viva não é
E o treco, inflável, em pé
tem até um jeito amável de mulher

Pego, esfrego, é vício, não nego
E trepo, ereto, em cio, e quieto
penetro em teu corpo
e só me entrego morto

Peco, espeto, é feio e não é certo
É prego. Acerto em cheio e, cego
penetro o que sobrou com ar
Exausto e só, te entrego para nunca mais te amar

2008

Melancólico olhar

Fundo, muito fundo é o fundo
de meu fundo, profundo e profano olhar
Mar!
Imundo, muito imundo é o imundo
mundo do mundo que inundo a chorar
Buá!
Triste, muito triste é o triste
melancólico olhar
de um homem que sonha que sonha, e sonha
e sonha até mesmo depois de acordar

Úmido, muito úmido é o úmido
do útero do único e último homem que tem esse olhar
Bar!
Tímido, muito tímido é o tímido
temido destino que teimo em traçar
Não dá!
Triste, muito triste é o triste
melancólico olhar
de um homem que apenas apanha, e apanha
e apanha e apanha sem querer revidar

1991

Punhais

Fiz do canto, de pronto, um lindo choro
e do choro, em pranto, um novo riso
Somado a tantos fiz um coro
E cantei, pois cantar é preciso

Fiz do olhar que anima lâmina cortante
e dos olhos da menina um novo guizo
Feito Vinícius, fiz da vida uma aventura errante
Como Francis Drake, o navegante
vivi, pois viver é preciso

Fiz dos bares meus mares para refúgio aos descaminhos
e indo a caminho dos males fiquei firme feito fruto verde
Feito Baby Doc fugi sozinho
Sozinho feito John Rambo
lutei como um boina-verde

Fiz do amor que peca peça de um quebra-cabeça
e, pecador, a cabeça em Meca arremeçei contra a parede
Feito Figueiredo pedi me esqueça
Como Cartola pediu naquele samba
O mestre da rosa e verde

Fiz dos versos, confesso, um certeiro punhal
Punhal afiado, de aço, que cravei em seu peito
E feito um Clóvis saí anônimo e feliz no carnaval
Como um pierrô apaixonado, mascarado
ligado e livre, em plena Avenida Central

1986

Sei lá

Um homem gritando “acertei no milhar”
Um paraíba e sua nova TV
Moça dourada saindo do mar
Mulher cheirosa e seu pequeno bebê
Uma criança faminta mendigando pão
Um homem gritando “pega ladrão”
O nordestino assaltado e “levaram a TV”
Mocinha solteira e seu pequeno bebê
O marido chegando e encontrando você
Outra moça solteira abortando um bebê
Um amante traído querendo beber
Um marido sabendo e querendo bater
Ela querendo e ele vendo TV
Três da manhã, você explicando
mas ela não vai entender

1976

Alfabeto brasileiro

A do agiota
B de baleado
C de corrupto
D do deputado
E de estelionato

F de fuzilaria
G da ganância
H de histeria
I do inferninho
J do jeitinho

K de compaixão
L do ladrão
M de maldade
N do nomeado
O de obrigado
P de peculato

Q de quem indica
R do rabecão
S do que suplica
T de traição
U de usurpação

V de vadiagem
W de honradez
X do xadrez
Y de poesia
Z de zombaria

2008

Busca

Correr o mundo e procurar alguém
Tropeçar nas pernas
e cair bem mais além

Subir o morro e procurar quem tem
Tropeçar nas pedras
Desafiar um trem

Desfilar os olhos pela noite
e não ver ninguém
Tropeçar nos copos
Dizer amém

Cair feito um defunto procurando luz
Acender as velas
e estancar o pus

Levantar feito Cristo e carregar de novo a cruz
Escrever um verso
Tocar um blues

Desafiar o inferno pela boca
e fazer jus
Tropeçar nos corpos
Reconhecer Jesus

Acordar de um sonho louco a dar risada
Pensar na vida
Em tudo, em nada

Lavar a alma e o que ficou da estrada
A poeira, o suor
O sangue da espada

Desatar o nó pelo pescoço
e desistir da vida
Tropeçar nos ossos
Reabrir feridas

1984

É madrugada

É madrugada
e tudo se move com lentidão
O Diabo é quem faz a chamada
De madrugada
chove muito, tudo alaga, tudo nada
De madrugada
Rio, 40 graus em pleno calçadão
Um homem passou com a mão virada
De madrugada
Cinelândia, Estação, próxima parada

1979

E por falar em amor

Sem fundo musical, por favor,
que eu vou falar de amor
Que o amor é indispensável
e sempre faz muito mal
Sal

Eu era santo
e você quebrou meu andor
Tinha orgulho em ser Banto
e você roubou minha cor

* * *

Sem fundo musical, por favor,
que eu vou falar de amor
Que o amor que dá vida
põe na UTI do hospital
Cal

Eu amava tanto
e você, no entanto,
o que fez?
Me magoou outra vez

* * *

Sem fundo musical, por favor,
que eu vou falar de amor
Que o amor, que é pura emoção,
é também irracional
Animal

Eu era selvagem
e só você me domou
Depois partiu em viagem
e nunca mais voltou

1991

25 de outubro de 2008

Bares diversos

Por cidades do mundo
existem bares diversos
Reparo olhares profundos
nos cantores de versos

Por prateleiras brilhantes
contendo garrafas diversas
se confundem amantes
e gente que canta e que versa

Pelos balcões curtidos
por cachaças diversas
mexem bocas de aflitos
fingindo conversas

Pelos salões há fumaça
de palhas diversas
que não esconde quem passa
para outros promessas

E pelas mesas de mármore
pousam mulheres diversas
Parecem troncos de árvore
que mulheres são essas?

E pelos cantos do toalete
elas rabiscam versos diversos
Reparo no sangue, no corpo e na gilete
o drama, o motivo adverso

1984

No meio

É que no meio das pernas
dessa gente
adormece um vulcão
Uma coisa quente

É que no branco dos olhos
desse povo
se esconde um brilho
Algo de novo

É que no fundo do útero
dessa mulher
brota a semente
de um momento de fé

1976

13 de setembro de 2008

Senhora

Quando me amar
preserve as juras
pise a flor
prefira as surras
Pois desconfio delas
e detesto flores
Já que amar é sofrimento
é circo de horrores

Quando me bater
preserve a cara
encoste o taco
prefira o tapa
Pois inda guardo nela
todos os seus beijos
que disparastes rijo
e cheio de desejo

Quando me morder
preserve a aorta
embanhe a faca
não me fure morta
Pois correm por ela
todos os seus vírus
que me passas teso
quando me viro

Quando me chutar
preserve o ventre
recolha as botas
me quebre os dentes
Pois carrego nele
sua mais nova semente
que plantaste bêbado
e com olhar demente

Quando me humilhar
seja bem perverso
me inspire sempre
a escrever mais versos
Pois coloco neles
todo o amor, dor e prazer
Para inverter na cama
e só ali, dominar você

2005

Sexta-feira

Há um cheiro de sêmen pelo ar
Esquecidos gemem pelo bar
pondo em falência a geladeira
Há desculpas de plantão
O velho golpe da reunião
e uma aventura passageira
Porque hoje é sexta-feira

Há uma adolescente que se despe
Um capitalista que investe
e a mulata desce a ladeira
Há um novo amigo que chegou
Um velho amor que se acabou
e um suicídio na pedreira
Porque hoje é sexta-feira

Há um gigante que se ergue
Uma mocinha que se perde
e sempre uma vez que foi primeira
Há pelos becos muito som
Muitas bocas e batom
e o zumzumzum parece feira
Porque hoje é sexta-feira

Há frases sem sentido
Línguas loucas pelo ouvido
Papos sérios e bobeira
Há um vulto, um gemido e alguém sua
Adultério... uma esposa quase nua
Margarida, Dália, Rosa, trepadeira...
Porque hoje é sexta-feira

Há no olhar dessa morena aqui na mesa
promessa de refeição completa e sobremesa
Morena-jambo, filé ao ponto estalando na frigideira
Há muita afinidade em nosso olhar
Poesias iguais prá se trocar
e muita loira fria e saideira
Porque hoje é sexta-feira

Há alguém que escreve um verso
Em cada colo um réu confesso
e uma carícia bem ligeira
Há tanta coisa assim sem nexo
Nas palavras muito sexo
nos corações muita geleira
Pois, invariavelmente, é sexta-feira

1990

De graça não

Se eu tivesse um buraco
Se tu tivesses um buraco
A gente já tinha emburacado tanto
Olha meu taco!

Se eu tivesse uma toca
Se tu tivesses toca
A gente já tinha se tocado tanto
Que troca-troca!

Se eu tivesse um canto
Se tu tivesses canto
A gente já tinha encantado
esse desencanto

Se eu tivesse um quarto
Se tu tivesses quarto
A gente poria de quatro tanto
E o parto?

Se eu tivesse um teto
Se tu tivesses teto
A gente já tinha atentado tanto
Olha o feto!

Se eu tivesse casa
Se tu tivesses casa
A gente já tinha acasalado tanto
Que brasa!

Se eu tivesse um ap
Se tu tivesses um ap
A gente já tinha se apertado tanto
Mais um bebê!

Mas, talvez
Se eu ti desse abrigo
Se tu quisesses abrigo
A gente já teria brigado tanto
... e adeus, amigo

Mas, depois
Que eu te construí um lar
E que você não me quis por lá
Eu te devolvi pro bar
Vamos, mas vou te pagar!

1986

Uns e outros

Há pessoas que são tristes
outras teimam na alegria
Umas se drogam
outras fazem poesia
Há pessoas felizes
outras insistem em ser tristes
Umas vivem
outras não existem

Há muito fantasma
sangue e plasma
Milhões de duendes
inválidos e doentes

Há homens miseráveis
outros fingem ser ricos
À umas, algumas doses
A outros, muitos picos
Há homens que são mitos
outros são infláveis
Uns aspiram
outros só injetáveis

Há muito viajante
esquecido e errante
Milhões de infelizes
atores e atrizes

Há os que vieram só por vir
outros para viver
Uns são
outros querem ser
Há os que amam sem parar
a outros só resta sofrer
Uns possuem
outros querem ter

Há muita dor
ódio e horror
Milhões de sussurros
gritos, urros

1976

23 de agosto de 2008

Diário de dama

Dói, mas dou
Dou a quem me dá
Me dôo
a quem me doar
Mesmo que doa
tenho que dar

Dou de ré
Dou sem dó
Dou doída
mas doida prá dar
Mesmo que vá doer
dou sem amar

Dou demente
Dou drogada
Dou diferente
Dou dentada
Dou deitada
Dou obrigada

Deus, aos doze eu dei
Duvido quem não daria
O dinheiro não dava
Dario tava doente
Dei, Deus, eu o amava

Hoje sou Dadá
Dou pro Didi
Dei pro Dudu
Vou dar pro Dedé
Mas só pro Dodô
me dou como mulher

Me visto como deusa
Chego como drácula
Brilho feito Dalva
Deito como diva
Durmo como dama
Acordo como drama

2008

Como uma flecha

Faça silêncio
e o mundo então te ouvirá
Use a cor branca
pro vermelho apagar
Use a partida
prá poder sempre voltar
E derrame seu pranto
até a si próprio afogar

Não tema a morte
deixe-a frente à frente a você
Distribua veneno
prá mãe do bebê
Sinta saudades
que todos vão te esquecer
E se sozinho chorar
não deixe nunca ela ver

Se deite com ela
só por deitar
Faça amor com o seu corpo
como se a fosse matar
Corte o seu pulso
pro veneno estancar
Baixe então um decreto
e não deixe ninguém revogar

Cometa mil erros
para o alvo acertar
Repita o que eu digo
para não se enganar
Narre a verdade
e irás sempre mentir
E faça o que eu faço
se quiser resistir

Pensei pedir-lhe desculpa
mas já vi que não da
Você fez tudo errado
você foi de amargar
Quando ler o meu livro
pode até o rasgar
Que até lá já disse adeus
vou de você me soltar

Hoje, bem mais experiente
entro no mar quando o tempo se fecha
Disfarço a calvície
pinto essa mecha
Guardo esse texto
como se houvesse entre nós uma brecha
E firo a todas nos olhos
com olhos como uma flecha

1985

Faz um troço qualquer

Me faz um chamego
Me diz vem meu nego
que eu finco o meu prego
e satisfaço o meu ego

Me faz um denguinho
Me diz vem benzinho
que a gente faz um trenzinho
e trilha o próprio caminho

Me faz um gracejo
Me joga um bocejo
que eu retribuo com beijo
e reacendo o desejo

Me faz uma jura
Me diz vem que tem cura
que a solidão te procura
e acha a casa às escuras

Me faz um troço qualquer
Diz a mentira que quiser
Ceda os carinhos que puder
ou então me deixa ir pros braços
de outra mulher...

1985

Lembra?

Lembra do sertão
e de como era lindo o amanhecer?
Agora olha pr’esse chão
e pr’essa gente que paga prá morrer

Lembra do violão
e de como era lindo o anoitecer?
Agora escuta essa canção
com quase nada prá dizer

Lembra da ilusão
e de como eu sonhei te conhecer?
Agora larga a minha mão
qu’eu não quero mais você

1977

Ungidos

Não há nada mais
que mais possa parecer
comigo e com você
pois somos únicos

Não há nada demais
em querer te merecer
pois eu e você
nascemos unidos

Não há sinais
de que o amor não vá vencer
pois disse amo você
com olhos úmidos

Não há nos anais
e nenhum lugar vai ter
placa orientando a receber
em primeiro os últimos

E não há moça e nem rapaz
capaz do fogo derreter
ou que faça eu te perder
pois eu você fomos ungidos

2008

Quem sou eu

Minha foto
Niterói, Rio de Janeiro, Brazil
Nasci em 1962, sou casado, tenho dois filhos e adoro simplicidade. Formado em Jornalismo, sempre gostei de brincar com as palavras, de tirar delas o som, o sentido não exposto, o sentimento.