15 de novembro de 2007

Madrugada latina

De madrugada
mais um verso é rabiscado
O papel se perde, a poesia é censurada
De madrugada
alguém caleja a mão calado ao cabo de uma enxada
De madrugada
outro perverso é libertado
Tem ombro largo, costa quente e veste farda
De madrugada
suicidaram Allende com dez minutos de rajada

De madrugada
a bandeira americana
na América Central foi desfraldada
De madrugada
fundou-se a ditadura aos nossos olhos disfarçada
De madrugada
de novo a saga mexicana
de novo a prata espoliada
De madrugada
Castro no governo e tropas invadem Granada

De madrugada
Banzer pegou Guevara
e acabou-se a guerrilha armada
De madrugada
outra eleição se fez fraudada
De madrugada
preparam o pau-de-arara
e torturam o camarada
De madrugada
mães na Praça de Maio e a Argentina ensangüentada

De madrugada
Menguele, Stroessner, Somoza...
bebem vinho na amurada
É madrugada
e alguém ensaia uma virada
De madrugada
e que aqui ninguém nos ouça
a terra sempre foi, foi por eles loteada
De madrugada
alguém respira um pouco e logo vem outra porrada

De madrugada
Jango decola prá nunca mais
Nunca mais pompa, pampas, nunca mais pátria amada
De madrugada
e olha a UNE incendiada
De madrugada
e a noite acampa no cais
Nunca mais poesia, nunca mais batucada
De madrugada
tanques ganham as ruas, não resta mais nada

1984

Um comentário:

Anônimo disse...

Apos ter lido tudo isso,estou parada na frente dessa maquina procurando palavras para falar de emo�ao, orgulho e gratid�o.Mas est� tao dif�cil. Se ao menos eu pudesse lhe mostrar meu olhar...
Carinho imenso,
Ita andrade

Quem sou eu

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Niterói, Rio de Janeiro, Brazil
Nasci em 1962, sou casado, tenho dois filhos e adoro simplicidade. Formado em Jornalismo, sempre gostei de brincar com as palavras, de tirar delas o som, o sentido não exposto, o sentimento.